Eles estão conseguindo. Sem nós

ANDREW J. BACEVICH,

26 de fevereiro de 2011 | 16h00

O ininterrupto levante no mundo árabe (e também no Irã) nos permite formar um juízo definitivo sobre a política dos Estados Unidos nos últimos dez anos. Utilizando meios e métodos próprios, povos do Oriente Médio, determinados a transformar toda a região, relegaram efetivamente a "guerra ao terror" à categoria de irrelevância estratégica.

Quando foi concebida, na esteira do 11 de Setembro, a guerra ao terror baseou-se em duas convicções. A primeira, impedir novos ataques aos EUA, significava que o mundo islâmico precisava mudar. Pela segunda, que considerava os muçulmanos incapazes de mudar por conta própria, os EUA precisariam esquematizar todo o processo, com seus militares servindo de catalisador. A liberdade (ou no mínimo a submissão) sairia dos fuzis americanos.

No Afeganistão, depois no Iraque e agora no Afeganistão/Paquistão, os esforços dos EUA para promover a mudança tiveram, quando muito, resultados duvidosos. Ao mesmo tempo, o custo para os americanos em dinheiro, vidas e autoridade moral desperdiçada foram altos e o retorno, baixo.

Agora, está claro que esses esforços foram desnecessários ou, no mínimo, supérfluos. Durante nove anos, os EUA vêm forçando uma porta que se abre para fora. E, mais espantoso, essa porta se abre por vontade própria. Os acontecimentos das últimas semanas demonstraram com clareza não apenas que partes importantes do mundo islâmico estão prontas para a mudança, mas também que o impulso da mudança vem de dentro. A transformação não é algo que pessoas de fora possam impor ou controlar. É um processo orgânico, espontâneo e não precisa de assistência externa.

Portanto, muçulmanos pobres, cansados de viver na miséria, e outros não tão pobres, cansados de sofrer sob o tacão de regimes autoritários e corruptos (muito frequentemente aliados dos EUA), não necessitam das sugestões de Washington. Não precisam que nós os "libertemos": são perfeitamente capazes de se libertarem com as próprias forças. E sem que para isso os contribuintes americanos precisem desembolsar um centavo. Resta ver se essa libertação permitirá o nascimento de democracias liberais prósperas, estáveis, capazes de tolerar Israel e amigas do Ocidente. Entretanto, enquanto os EUA se limitam praticamente ao papel de testemunhas, as perspectivas de mudança democrática no Egito e em outros países da África são maiores hoje que em qualquer outra época.

Para os habitantes do mundo islâmico, o momento é rico de possibilidades. Para os americanos, rico de ironias. Preocupados em se colocarem "do lado certo da história", altos funcionários do governo americano tratam apressadamente de corrigir seus pronunciamentos de uma semana atrás, na esperança de que ninguém perceba disso. Determinados a sustentar a ficção de que os EUA continuam capazes de exercer uma "liderança mundial", especialistas e analistas políticos consultam o noticiário inglês da Al-Jazira na esperança de compreender o que está realmente acontecendo. Mas os americanos deveriam também considerar esta oportunidade como extremamente educativa, com humildade e contrição, acrescida talvez de um vislumbre de esperança.

Eis o que deveríamos aprender.

Em primeiro lugar, quando se trata de adivinhar os propósitos e intenções da história, a única superpotência mundial não tem pistas. "O drama da história", observou certa vez o teólogo americano Reinhold Niebuhr, "é demasiado amplo para ser compreendido ou administrado pela compreensão ou para a direção humana". Válida quando ele a escreveu, há mais de meio século, a frase continua verdadeira hoje, independentemente das maravilhas proporcionadas por computadores, iPhones e redes sociais.

Em segundo lugar, menosprezar o conselho de Niebuhr implica incorrer em punições severas. A arrogância é um convite à punição. E o castigo que os EUA receberam no Iraque e no Afeganistão merece não só ser lembrado, mas uma dolorosa reflexão: muitas vidas se perderam, inutilmente. Para os que defenderam a guerra preventiva como o caminho mais curto para a paz, uma manifestação concreta de remorso seria apropriada. Mas, se nos servir de consolo, os manifestantes que enchem as ruas no Cairo, Túnis, Trípoli, Argel, Manama, Sanaa e Teerã dão todas as indicações de sonhar sonhos não totalmente diferentes dos nossos.

Em lugar de rejeitar a modernidade, na linha de islâmicos radicais como Osama bin Laden, eles querem uma fatia maior do que a modernidade tem a oferecer. Embora não garanta uma coexistência harmoniosa, essa convergência de aspirações sugere que é possível evitar um choque cósmico de civilizações. Se as massas muçulmanas que reivindicam liberdade política e oportunidades econômicas vencerem, terão conseguido isso não graças, mas apesar dos EUA. Entretanto, libertando-se por conta própria, elas também nos libertarão. Nossa cruzada mal concebida para determinar o destino que lhes cabe finalmente terminará. Nesse caso, nossa dívida para com elas será imensa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Andrew J. Bacevich é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Boston. Escreveu este artigo para o Los Angeles Times.

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