Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Em alta, safra de multimercados fecha para captações e cria novos fundos

Com patrimônio elevado, fundos encerram aportes e abrem ‘espelhos’ com mesma estratégia, mas prazo para resgate maior

Pedro Ladislau Leite e Anna Carolina Papp, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2018 | 05h00

A corrida para os fundos multimercado nos últimos meses inchou de tal maneira o patrimônio desses produtos a ponto de levar uma seleta safra deles a fechar a captação – ou seja, não permitir novos aportes. Se por um lado esse movimento tira produtos atraentes do mercado, também abre uma nova janela de oportunidade: o surgimento de novos fundos com as mesmas estratégias nas prateleiras. Chamados de “fundos espelho”, eles também prometem bons resultados, mas atenção: pedem um prazo maior para resgate dos recursos.

Nos últimos meses, pelo menos 15 fundos multimercado – aqueles que misturam diferentes ativos, como títulos de renda fixa, ações, moedas e até commodities – anunciaram que fechariam as portas para novas captações. “Como os juros caíram, as pessoas estão buscando alternativas mais rentáveis, e os multimercados estão vindo com muita força”, diz Rebeca Nevares, analista da Ativa Investimentos. “A indústria cresce mês a mês, mas o mercado brasileiro não tem liquidez para esse dinheiro todo.”

Ela explica que, quando os fundos atingem um patrimônio elevado, fica difícil para o gestor se movimentar no mercado (entenda abaixo).

“Muitas vezes, esses gestores abrem novos fundos, chamados de fundos espelho, com a mesma estratégia, mas uma janela de resgate maior”, diz Fábio Macedo, gerente comercial da corretora Easynvest. “A vantagem para o investidor é a chance de ter acesso a um produto similar. A desvantagem é uma liquidez menor: demora mais tempo para resgatar o investimento para ele.”

Foi isso que aconteceu, por exemplo, com o badalado fundo Adam Macro Strategy II, que fechou no final de fevereiro, ao atingir o patrimônio de R$ 10 bilhões. A gestora Adam Capital abriu um fundo espelho, mas com um tempo de carência maior. 

No fundo “mãe”, o prazo para resgate era D+30, ou seja, o investidor que resgatasse sua cota recebia o dinheiro após 30 dias. O novo fundo, de mesmo nome, agora é D+60. Isso acontece para dar mais segurança ao gestor na fase inicial do fundo. “Com o forte ingresso de recursos, ou os maiores fundos fecham ou lançam outros, com uma janela de resgate muito maior, como o Adam, que foi para 60 dias”, comenta Richard Wahba, diretor-geral da Garín Investimentos, que tem R$ 1,1 bilhão sob gestão.

Para ele, o crescimento dos multimercados, que só no primeiro trimestre captaram mais de R$ 33 bilhões, deve-se, além do cenário favorável, à maior facilidade com a qual os investidores podem aplicar nesse produto. “Antes, esse nicho era algo restrito ao private banking, a clientes de altíssima renda.”

Sandra Blanco, consultora de investimentos da Órama, comenta que esse movimento atinge fundos de diversos tamanhos. “Fundos de casas renomadas e com históricos consolidados estão atingindo patrimônios relevantes, mas há fundos menores que alcançaram rapidamente um valor que eles não esperavam”, diz. 

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Ela também destaca que, além de uma carência maior, os fundos espelho podem ter uma versão menos alavancada, como é o caso do Versa Long Biased, do gestor Luiz Alves, que fechou na casa dos R$ 150 milhões e lançou um espelho chamado “Fit”. Se o Versa comprar ou vender 20% do patrimônio em uma ação, por exemplo, o Fit faz o mesmo com 10% do fundo. Por isso, é mais adequado aos investidores iniciantes e com menos apetite a risco.

Nem sempre, porém, o fundo lança um espelho – o que pode levar a uma corrida nas semanas finais. É o caso do Maraú, da Bahia Asset Management (ex-BBM Investimentos), que irá fechar dia 30 de maio ou após o fundo atingir R$ 6 bilhões. O produto teve rentabilidade de 250% do CDI nos últimos 12 meses. “As captações cresceram muito rapidamente”, diz o sócio César Aragão. “A princípio, não vamos abrir um novo fundo.” 

Estratégias. O sócio da Garde Asset Management, Marcelo Giufrida, afirma que conseguir manter boas rentabilidades conforme os fundos crescem não é uma tarefa mecânica. No caso dos multimercados, diz, as metas de desempenho são, em geral, mais agressivas. “Não basta apenas multiplicar posições nos investimentos.” A gestora tem patrimônio de R$ 8,6 bilhões e fechou seu multimercado público em julho de 2017.

Segundo o executivo, a liquidez do mercado em que o fundo atua é outro fator que pesa na hora de decidir por aumentar o patrimônio ou fechar para novas aplicações. Fundos que investem em ações de segunda linha, por exemplo, têm um patamar menor de patrimônio em relação aos multimercados que operam juros e câmbio. “É preciso avaliar se o tamanho é coerente com a exposição em cada mercado.” 

Wahba, da Garín, afirma que a atual fase – em que diversos fundos já atingiram um limite de captação – é propícia para novos fundos se lançarem no mercado. O que vale para a própria Garín, que abriu seu fundo em setembro, com foco em pessoas físicas.

“Ao escolher um multimercado, o investidor tem de analisar o gestor, o histórico, a rentabilidade e, principalmente, a volatilidade e o nível de risco, para ver o que se encaixa melhor ao seu perfil”, pondera Sandra, da Órama.

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