Em cena

TENDÊNCIA - No fatídico e recessivo 2009 houve um êxodo de marcas da região nobre dos Jardins. Na quadra da Consolação, entre Oscar Freire e Lorena, há um movimento interessante: a formação de um polo de cultura. Lojas de fashion dão lugar a espaços de arte. Leitor, vamos chamar essa região de Mid Jardins? Tudo é muito novo. Isabella Capeto abre com Felipe Dmab a Acervo Aberto. Hoje, na casa vizinha, estreia o Cezanno. Em breve, uma loja de design e micro-hotel

Chris Mello, O Estadao de S.Paulo

11 de março de 2010 | 00h00

MID JARDINS - A ordem da estilista Isabella Capeto é "campo aberto para as artes". Converteu metade de seu imóvel do Mid Jardins em um espaço de investigação artística - e deu ao agitador e produtor cultural Felipe Dmab o trabalho de encontrar "coisas" e pessoas interessantes ligadas à arte, ao design e à literatura. Para mostrarem e venderem o que fazem. Batizado Acervo Aberto, o espaço está de portas já escancaradas e tem inauguração oficial dia 20. "Há muita gente produzindo arte na paralela de seus trabalhos e gente jovem a fim de testar a reação do público e seu potencial", explica Dmab. "Não haverá um compromisso burocrático ou institucional com o artista. Acervo Aberto é uma loja de oportunidades e coisas legais de arte e cultura." Não é galeria; é um hotel para obras e situações. No menu? Desenhos de nanquim de Beatriz Chaimovitz e arte de Bruno Faria, Filipe Berndt, Gustavo Ferro e Renata Terepins, livros da Prólogo, que pinça da web seus escritores, o fanzine Amarello e arte do "Beco".

CEZANNO - Fabiana Cesanna é chef, por isso a semente de seu novo projeto só poderia ser iniciada com um restô - o Cezanno, um american bistrô que será aberto hoje. Conjugado com a Mendes-Wood terá micro-hotel projetado por Roberto Loeb e loja de design da galeria. A ideia dos Mendes-Wood é a mesma que teve o poderoso marchand Larry Gagosian, ao montar recentemente na Madison, NY, a Gagosian Shop: um a loja de pôsteres, prints e edições de móveis

Você é um potencialista?

Potencialismo é um novo lifestyle. Total tendência. "Não esconde grandes ideologias nem palavras de libertação inspiradas em figuras revolucionárias; não é a esquerda de hoje, apesar de ter ideia de oposição à manipulação e à sociedade de carências humanas." Assim prega o Manifesto Potencialista - cujo autor... Bom, não há um autor do manifesto. Essa é uma declaração de princípios e intenções que se espalhou virótica e wikipedianamente via internet. Ou seja: é um manifesto de conteúdo colaborativo; uma ideologia niilista coletivista.

Há na rede textos que descrevem potencialismo como "uma corrente e um casamento da faceta estética nietzschiana com marxismo". Nooonsense! "Ismos" à parte, o conceito potencialismo faz sentido à medida que há a necessidade de descobrir para onde vão o mercado e a sociedade de consumo. Estamos numa época pautada pela velocidade de informação - que leva à perda de controle das regras do mercado tradicional. A turbulência financeira de 08/09 fez executivos da American Express contratarem agências caçadoras de tendências em vários países para pesquisar, identificar e quantificar os potencialistas.

O estudo da consultoria inglesa The Future Laboratory aponta potencialismo como novo modo de vida. Pessoas não constroem mais sua existência em torno de uma só carreira. O caminho é detectar múltiplas aptidões - e explorá-las. Pense um publicitário-gourmet-esportista. Num banqueiro-piloto; numa editora-marchande-iogue. Sendo que cada um leva a sério todas atividades. "Potencialistas não são preocupados em melhorar unicamente seu status social; são pessoas em busca de crescimento e satisfação pessoais", diz Ivonne Fluchaire, VP de mercadotécnica e publicidade da Amex. O canadense Jeremy Gutsche, da TrendHunter, diz que 1/4 da população de seu país se encaixa no perfil. Por quê? "Dois fatores: demografia e economia. É lógico assumir que boomers, à medida que chegam perto da aposentadoria, queiram tirar o máximo da vida. Isso os leva a priorizar o tempo com família, viagens e hobbies", diz. "Já as novas gerações, a dos filhos de boomers, é de jovens urbanos que cresceram com uma rede de segurança. Isso significa que não têm que ir atrás de um trabalho para se estabelecer imediatamente, então optam por uma vida em que a satisfação pessoal vem em primeiro lugar", sintetiza.

No Brasil, Adriana Tommasini Risk deixou o direito para abrir a Axiom, empresa que desenvolve projetos ligados à expansão da consciência para que, inspirados, indivíduos e organizações desenvolvam suas potencialidades por meio de debates filósofos.

Chegou ontem ao Brasil pela Axiom, o professor da Pepperdine Business School e filósofo japonês Yasuhiko Kimura, fundador do The Evolution of Science Group. Ele alia zen budismo ao método socrático de questionar e dialogar para abrir a mente à reflexão. Para achar o caminho da... Potencialidade.

Lourenço na França

Pedro Lourenço se apresentou oficialmente, sexta, para o circuito internacional de moda em desfile em Paris. O desfile foi feito sem ajuda de Paulo Borges - e com uma quantia mínima de incentivo da Abest, que geralmente contribui com cerca de US$ 50 mil para desfiles internacionais de estilistas eleitos pela associação. Será que não é hora de rever o posicionamento e tirar a tampa da panela? O desfile de Pedro foi 90% bancado pela iniciativa privada. E teve as melhores críticas possíveis. "Lindamente feito à mão", pontuou Suzy Menkes, crítica do The Herald Tribune. O buzz de backstage era de que Anna Wintour, da Vogue USA, teria ficado bem impressionada com o resultado do desfile de um estilista de só 19 anos. Natural que seja um primor, sendo Pedro filho dos avant-garde Reinaldo Lourenço e Glória, que praticamente o educaram em suas fábricas de moda. "Foi melhor desfile do dia", disse Sarah Mower, do site InStyle. Considerando que no mesmo dia desfilou Lanvin... Pedro parece estar no bom caminho. O estilista costurou a coleção no ateliê de Glória durante dois silentes meses. Após o desfile, conversou com o Estado:

As críticas foram boas, agora você pode explicar o seu trabalho?

Foi um desfile essencialmente técnico para chegar às formas. Pesquisei técnicas possíveis e impossíveis. O que me interessa é o desenvolvimento tecnológico e técnico para descobrir funcionalidades. Estética por estética não basta. Trabalhei as costas das roupas de maneira bem industrial e a frente, organicamente. O desconforto é necessário para um resultado novo.

Pois agora o maior investimento da indústria da moda é no desenvolvimento de tecidos tecnológicos e exclusivos, já que tudo se copia. O couro que você usou vem de onde?

Espanha. É tratado com uma técnica bicentenária usada em couro para luvas. Supermole, dublado para dar estrutura. As tiras são cortadas na forma do corpo e finalizadas com técnicas acadêmicas para selar sapatos e bolsas. Os tecidos transparentes são suíços e considerados os mais leves do mundo. O brilho dos metalizados é, na verdade, estampa!

Inspiração...

O clima aristocrático do trabalho da Jamine Gentêt, que nos 60"s criou os ambientes de caça para vitrines Hermès. A coleção é construída com referências a Diana Caçadora (Artemis, da mitologia) e com a leveza das linhas de Oscar Niemeyer.

As vendas?

Superpositivas. Vou vender para poucos, poucas peças para ser um produto muito exclusivo e com qualidade.

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