Em crise, Grécia corta orçamento de seus museus

Crise financeira dilapida herança cultural: peças históricas são furtadas, sítios arqueológicos, saqueados, e mercado negro prospera

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2012 | 03h06

Furtos quase semanais de peças históricas, escavações clandestinas de sítios arqueológicos, contrabando e explosão do mercado negro. No berço da civilização ocidental, a Grécia, a crise financeira faz mais uma vítima: a herança cultural de um país considerado como um museu a céu aberto. Especialistas sugerem ironicamente que seria mais seguro enterrar algumas das peças, aguardando dias melhores, que deixá-las em exposição.

A Grécia negociou o maior calote da história, de cerca de 100 bilhões. Em contrapartida, é obrigada a adotar um duro programa de cortes de gastos, reduzir a presença do Estado e acelerar privatizações. Salários foram cortados, milhares foram demitidos e o desemprego dobrou em apenas dois anos. Em 2012, a Grécia atravessará seu quinto ano de recessão e vê o número de suicídios dobrar.

Nessa situação de caos, nem o patrimônio histórico é poupado e monumentos que sobreviveram séculos e até conflitos armados hoje estão ameaçados.

Pelos planos anunciados pelo governo, museus terão seus orçamentos cortados em 20%. No Ministério da Cultura, até 50% dos 7 mil funcionários poderão perder seus postos de trabalho. Desses, 2 mil são seguranças deslocados para diferentes museus. Em novembro do ano passado, 10% dos empregados foram demitidos. Haverá ainda uma consolidação dos 66 serviços distintos que se ocupam da arqueologia no país.

Os salários do Serviço Arqueológico grego desabaram. Um novo técnico que eventualmente seja contratado vai receber apenas 670 por mês, 35% a menos do que se pagava. Um teto salarial também foi criado e diretores de departamentos poderão ganhar apenas 1,5 mil por mês.

Em 2011, o orçamento para o setor foi cortado em um terço e, em 2012, nova redução deve ocorrer. E isso porque o segmento representa menos de 1% do orçamento nacional grego.

Com 12 milhões por ano, o governo terá de administrar 210 museus e 19,2 mil sítios arqueológicos. O Museu de Arte Moderna de Nova York, por exemplo, tem orçamento anual de US$ 160 milhões ( 122 milhões)e só a cidade de Nova York dá US$ 30 milhões ( 23 milhões) ao centro, duas vezes mais que o orçamento de todos os museus gregos.

Insegurança. Um dos resultados é o corte profundo no número de seguranças nos museus e sítios arqueológicos, a ponto de o Ministério da Cultura mandar parte de suas secretárias e funcionários administrativos para ajudar no monitoramento.

Outros museus decidiram fechar algumas alas, por falta de proteção. Um número ainda importante de centros optou por fechar até maio, quando turistas começam a desembarcar.

Mas essas medidas não estão sendo suficientes. No Museu de Olímpia, onde os primeiros Jogos Olímpicos ocorreram há mais de 2 mil anos, dois ladrões armados invadiram o prédio no dia 5 de março. Segundo a Associação de Arqueólogos Gregos, 70 peças bizantinas, dos períodos helenístico e clássico, foram levadas.

Em fevereiro, pelo menos outras três galerias nacionais e municipais foram furtadas, escancarando a falta de segurança. Em janeiro, criminosos aproveitaram uma greve na Galeria Nacional da Grécia para furtar uma tela de Picasso e duas outras peças históricas.

O governo insiste que tem feito sua parte. Em março, a polícia prendeu 44 pessoas ligadas a uma organização criminosa internacional que tirava a arte grega do país. No final de 2011, outra gangue foi capturada, com uma peça do 6.º século antes de Cristo, avaliada em US$ 14 milhões ( 10,7 milhões), valor superior a todo o orçamento nacional para o setor. Isso seria só a ponta do iceberg.

Colapso. Para a Unesco, o que ocorre na Grécia é um padrão que tem sido visto nos últimos anos em todos os países onde a estrutura de governo entra em colapso, seja por conta de uma crise econômica ou uma guerra: o aproveitamento da situação por grupos criminosos internacionais para lucrar milhões com o contrabando de peças de arte. Isso já ocorreu no Afeganistão, no Iraque e mais recentemente na Líbia e no Egito.

Na Grécia, o departamento responsável por combater o contrabando de produtos culturais conta com um número ínfimo de funcionários: apenas 40.

Escavações. Segundo Despina Koutsouba, que chefia a Associação de Arqueólogos Gregos, o problema não se limita aos museus. Dezenas de sítios arqueológicos estão sem nenhuma proteção e grupos vêm se lançando em escavações ilegais, em busca de verdadeiros tesouros. "Podem estar encontrando peças raras e de um valor histórico enorme. Mas talvez nunca saberemos disso", alertou, em declarações ao Estado.

Na Unesco, a entidade apela para que governos estrangeiros reforcem os controles em suas aduanas e que o mercado não aceite peças gregas sem registro oficial. Mas admite que pouco pode fazer para frear a crise.

Em Bruxelas, a União Europeia prometeu manter os recursos que destina a seus projetos de preservação na Grécia, entre eles o da Acrópole e locais em Creta considerados como únicos no mundo.

Mas muitas das escavações oficiais foram abandonadas nos últimos meses por falta de recursos. E apenas aqueles que contam com recursos da UE estão sendo mantidas. Isso também abriu um vácuo para a atuação de grupos criminosos.

A crise é de uma proporção tão profunda que alguns dos maiores nomes da arqueologia grega ironizam e alertam que o melhor local para proteger o patrimônio da humanidade é mesmo debaixo da terra. "Vamos deixar nossas antiguidades na terra, para que arqueólogos as encontrem no ano 10.000 depois de Cristo, quando gregos e seus políticos talvez tenham mais respeito por nossa história", alertou Michalis Tiverios, professor da Universidade de Tessalonica, em um artigo publicado no jornal Ta Nea, há poucas semanas.

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