Em Davos, empresários alertam que regulação pode afetar retomada

Líderes empresariais alertaram os governos ocidentais nesta quarta-feira de que sanções severas sobre a indústria financeira podem dificultar a recuperação da pior recessão desde os anos 1930.

BEN HIRSCHLER E PAUL TAYLOR, REUTERS

27 de janeiro de 2010 | 12h56

A resposta preocupada aos planos do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de taxar e restringir grandes bancos e à ofensiva da Grã-Bretanha sobre pagamentos de banqueiros, se deu no encontro de cerca de 2.500 líderes empresariais e autoridades econômicas no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Pesquisas realizadas para a conferência anual mostraram confiança econômica global em alta após a depressão de 2009 e um retorno cauteloso à criação de empregos, especialmente nos mercados emergentes.

Mas a sombra de uma regulação pesada e da intervenção governamental paira sobre o horizonte de muitos líderes empresariais. Incertezas sobre se a China vai reter seu rapido ritmo de crescimento e preocupacoes sobre como a Grecia vai lidar com a sua crise de divida tambem pesam.

Obama sacudiu os mercados na semana passada com propostas de fazer os bancos comerciais cortarem ligações com hedge funds e fundos de private equity e pararem com algumas operações de tesouraria ("proprietary trading"), além de pagarem pelo auxílio governamental recebido durante a crise.

"Seria infeliz se as futuras reformas regulatórias se baseassem em uma mensagem populista", disse Dennis Nally, presidente global da PricewaterhouseCoopers (PwC).

O presidente do Barclays, Bob Diamond, desafiou os esforços de Obama para limitar o tamanho dos grandes bancos e restringir a exposição a risco, dizendo na sessão de abertura do fórum: "Eu não vi nenhuma prova que sugira que encolher os bancos e fazer todos os bancos menores ou mais limitados seja a resposta".

"Se você der um passo para trás e afirmar que grande é ruim, e passarmos a um setor bancário menor, o impacto disso sobre os bancos e sobre o comércio global, sobre a economia global, seria muito negativo", acrescentou.

O presidente-executivo do banco Standard Chartered, Peter Sands, afirmou que há um risco crescente de que iniciativas regulatórios fragmentadas possam "criar quantidade enorme de complexidade" e encorajar companhias financeiras a arbitrar entre os diferentes reguladores.

RETOMADA DA CONFIANÇA

Um estudo da PwC mostrou que a confiança empresarial está em recuperação após a maior queda da atividade econômica desde a Segunda Guerra Mundial, levando mais líderes industriais a voltar a contratar.

A pesquisa com 1.200 presidentes-executivos em 52 países mostrou que 39 por cento pretendem contratar mais funcionários em 2010, enquanto 25 por cento planejam mais cortes de postos de trabalho. No ano passado, quase a metade deles pretendiacortar empregos.

Mas a criação de emprego será moderada e acontecerá mais nas economias emergentes, como China e Índia, que no mundo desenvolvido, acrescentou o relatório.

As restrições propostas por Obama sobre Wall Street ganharam apoio cauteloso de governos europeus, mas podem complicar os esforços para construir um consenso global em regulação financeira no âmbito do G20.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, amenizou as diferenças com os EUA, dizendo ao Wall Street Journal que as reformas propostas pelo presidente norte-americano são "relevantes e interessantes" e que têm os mesmos objetivos que as medidas europeias.

"Elas vão na mesma direção da nossa própria posição, que é de assegurar que o setor bancário se concentre em financiar a economia real, que é seu papel fundamental", disse. Mas Trichet pediu coordenação internacional para evitar a criação de buracos no sistema financeiro internacional.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, campeão de regulação e política industrial estatal e que exigiu a "moralização do capitalismo", ainda deve falar sobre o assunto.

O economista norte-americano Nouriel Roubini, que alertou sobre o surgimento da crise de 2008, disse que a política monetária afrouxada está alimentando bolhas de ativos que causariam a próxima crise.

"Isso se tornou muito grande, muito rápido... e a política monetária dos Estados Unidos está sendo exportada para o resto do mundo", disse Roubini em uma sessão do fórum.

Em contraposição a muitos empresários, ele disse que não está preocupado com o excesso de regulação mas com um retorno das condições normais de negócios.

Jonathan Nelson, diretor-gerente da empresa norte-americana de private equity Providence Equity Partners, pediu ao governo e ao setor financeiro que parem de se acusar.

"Nós precisamos sair do jogo de acusações. Todos nós temos responsabilidade sobre o que aconteceu aqui... Houve a concessão de credito descuidada, houve a tomada de empréstimos descuidada também, tudo diante de um pano de fundo de políticas públicas que tornaram isso desejável", afirmou.

Alguns dos principais banqueiros, como o presidente-executivo do Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, e do JPMorgan, Jamie Dimon, não vão participar do fórum neste ano.

Mas os presdientes de dois grandes bancos dos EUA socorridos durante a crise --Vikram Pandit do Citigroup e Brian Moynihan do Bank of America-- devem comparecer.

Tudo o que sabemos sobre:
DAVOSREGULACAOEMPRESAS*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.