Em defesa do autor

20.11.1965

Osman Lins,

10 Junho 2011 | 19h12

Estranhavel, sob varios aspectos, as declarações da empresaria e atriz Cacilda Becker, prestadas a este jornal (edição de 24-10-65), justificando a inauguração de um "teatrinho" domestico, em sua propria residencia, com o objetivo de testar a eficacia cenica de textos nacionais, principalmente de autores novos.

Informa a sra. Cacilda Becker que a idéia desse "studio" para autores brasileiros nasceu de uma conversa com o dramaturgo Jorge Andrade, sobre as dificuldades que encontram nossos autores teatrais, para interessar os grupos profissionais em suas peças. Lembra, também, que a lei de proteção do autor nacional mal pode vigorar, porque as produções quase sempre são isoladas, havendo poucos elencos estaveis que se submetam á exigencia de exibir uma peça brasileira para duas estrangeiras. "Por outro lado (são palavras textuais da entrevista) o teatro encareceu de tal modo que se teme o risco de um grande empate de capital, quando nossa literatura dramatica é ainda incipiente e poucas vezes propicia um exito comercial". Acrescenta que o teatro amador deveria preencher a tarefa de lançar os jovens valores brasileiros, muitos dos quais "estão numa fase de busca, de pesquisa", o que significa uma incognita do ponto de vista do publico. Assim, a leitura, em seu "teatrinho" domestico, de textos brasileiros, leitura a ser realizada com efeitos de iluminação, marcações etc., e á qual deverão comparecer empresarios, diretores, criticos e atores categorizados, aproximando-se portanto de um espetaculo normal, ou melhor, de um ensaio, constituirá uma especie de amostra, através da qual se poderá ajuizar sobre a teatralidade da obra. "Deve-se conseguir, assim - diz a interprete de Mary Stuart - uma atmosfera de estréia, capaz de ser util ao dramaturgo".

Sendo autor encenado por duas companhias profissionais, e ao mesmo tempo arcando com dificuldades para interessar amadores e profissionais em outros textos, acho-me numa posição que me permite falar do assunto com autoridade e sem constrangimento. Nem sou autor requestado, a ponto de menosprezar as boas graças de empresarios e atores como a sra. Cacilda Becker e o sr. Walmor Chagas; nem me disponho a comentar as declarações da atriz movido pela razão que se costuma em tais casos invocar: ressentimento de autor inedito. Posso testemunhar ainda, com base em minha experiencia, que os pontos de vista da grande estrela nacional refletem opiniões dominantes nos circulos empresariais, e mesmo entre os diretores e atores do teatro nativo, para os quais o autor brasileiro é sempre qualquer coisa de incomodo e cujo proverbial complexo de culpa (a culpa hipotetica de ser o responsavel por todos os "deficits" do teatro no Brasil) é preciso agravar não importa por que meios. Repisa-se, com insistencia não raro desmentida pelos fatos, que, para um empresario, a maior das aventuras - e também a maior das magnanimidades - é encenar um original brasileiro. Se o fazem e a receita não alcança a expectativa, a culpa, invariavelmente, é do escritor; mas se o insucesso diz respeito a alguma peça estrangeira, o culpado é o publico, que não apoia as grandes iniciativas...

A sra. Cacilda Becker expressa-se também como autentica representante de sua classe quando alude ao sistema de produções isoladas, o que acoberta os produtores de obedecer á Lei 1.565, de 3-3-52, que os obriga a encenar um texto brasileiro para dois estrangeiros. Tais produções, com não pouca frequencia, são isoladas apenas na aparencia, com a introdução ou substituição de um socio, recurso este cuja meritoria finalidade é exibir varios textos estrangeiros, não importa se bons ou maus, contanto que não se fale de Brasil.

Outras declarações da atriz, igualmente endossaveis por quase todos os que movimentam a cena brasileira (exceção feita, naturalmente, dos dramaturgos), são mais delicadas e exigem discussão mais seria. Não é verdade, como assegura, implicitamente, a sra. Cacilda Becker, ter relação com o êxito comercial de uma obra o fato de o seu autor pertencer a um país cuja dramaturgia seja apoiada por uma longa tradição. Se tal tradição assegurasse o êxito comercial aos autores que se beneficiam de sua existencia, bastaria, par encher os teatros em qualquer parte do mundo, encenar Durrenmatt ou Bernard Shaw. E a sra. Cacilda Becker, melhor do que ninguém, sabe que tal formula não é infalivel. Também não é certo que os êxitos comerciais de peças brasileiras sejam tão raros quanto se afirma. Levando-se em conta a exigua proporção de espetaculos realizados com textos nacionais, vemos que os sucessos são relativamente numerosos. O proprio T.C.B. conheceu alguns de seus melhores dias, no que tange a resultados financeiros, com peças de Abílio Pereira de Almeida. De Ariano Suassuna. De Lauro César Muniz. Tomando mais uma vez como exemplo o T.C.B. (o que torna a argumentação um pouco mais convincente), julgo oportuno lembrar que, em contrapartida, dois dos maiores desastres financeiros dessa companhia, segundo consta, foram "A Visita da Velha Senhora" e "César e Cleópatra", peças estrangeiras de dramaturgos nada incipientes e nas quais foi jogado um capital com que não poderia sonhar nenhum dos autores brasileiros vivos ou mortos. Encerrando esta breve discussão em torno de nossa presumivel incipiencia (que implica em ineficiencia artesanal, em falta de maturidade e de meios expressivos), vejo-me constrangido a dizer que a Sra. Cacilda Becker, em que pese a sua importancia como atriz, e a sua longa, respeitavel e gloriosa carreira teatral, não é bem a pessoa indicada para ajuizar, e com tanta segurança, sobre a incipiencia da dramaturgia brasileira. Essa afirmativa, além do mais, é injusta e mesmo desrespeitosa, quando vemos autores brasileiros como Ariano Suassuna e Jorge Andrade projetarem-se com vigor crescente em paises de solida formação cultural. Com base no que conheço de espetaculos norte-americanos e europeus, e também argentinos, as montagens brasileiras é que me parecem, em sua maioria, se não incipientes, pelo menos aquém do que normalmente se faz em outros centros (inclusive em Buenos Aires, onde os ingressos para teatro custam metade do preço que se paga em São Paulo e na Guanabara) e bem longe do nivel que nós, autores, desejariamos para as nossas peças.

Há ainda outro ponto bastante discutivel nas declarações da Sara. Cacilda Becker: a tarefa que, segundo ela, deveria ser preenchida pelos grupos amadores, de lançar os jovens valores brasileiros. A alternativa real é esta: ou um texto é valido ou não é. Se é, deve aspirar a uma encenação regular, montada por conjunto profissional e da qual o autor aufira direitos; se não é - e quando uso a expressão valido não estou pensando em trabalhos de nivel excepcional - torna-se dificil ver por que os conjuntos amadores, que já enfrentam a desvantagem inicial de serem olhados com desconfiança pelo publico, haverão de arcar ainda com esse gravame: o de encenarem textos imaturos. Ligar o autor nacional, jovem ou não, a essa especie de fatalidade, sugerindo que o horizonte de suas ambições deve circunscrever-se ás fronteiras do amadorismo, é uma atitude que só deve merecer, de todos que escrevemos, maiores e menores, um protesto firme e rigoroso. E'´ certo que bem poucos dentre nós, podendo escolher entre a maioria de nossos grupos profissionais e uma equipe de amadores como a do Teatro da Universidade Católica, que vem encenado, com amor e com um nivel artistico raramente alcançado no Brasil, "Morte e vida Severina", do incipiente poeta João Cabral de Melo Neto, provocando no publico uma resposta calorosa e unanime (o que vem demonstrar, também o interesse dos nossos espectadores pelos textos nacionais, fato que se configura ainda mais notavel se se leva em conta a seriedade da peça), bem poucos dentre nós, dizia eu, deixaria de optar pela segunda hipotese, isto é, pelo grupo estudantil. Tais casos, porém, são bastante raros. Em regra, não é sendo encenados por conjuntos de amadores, e muito menos resignando-nos a ter lidas a nossas peças em salas domesticas, ante um publico de 60 pessoas, na maioria "blasées", que atingiremos nossos objetivos.

Sabemos que o teatro encareceu muito, mas o risco faz parte de qualquer negocio, e no teatro esses riscos são atenuados com as subvenções oficiais, que, por sinal, só deveriam ser concedidas para a encenação de originais brasileiros. E não são apenas os textos excepcionais que devem ser encenados. Um teatro vive também de seus autores mediocres. Ou melhor: não pode existir sem autores mediocres. O genio de Shakespeare ergue-se sobre um acervo de mil peças, que é o espolio do teatro elizabetano. Ele jamais surgiria sem essa base, sem esse substrato. E', portanto, dever de todos os que fazem teatro no Brasil criar condições propiciais e encorajadoras para o aparecimento de nossos dramaturgos. E a atitude protetora, maternal, limitadora, da grande atriz paulista, não está nesse caso.

O SUPLEMENTO LITERÁRIO CIRCULOU NO ESTADO ENTRE 1956 E 1974. FOI MANTIDA AQUI A ORTOGRAFIA ORIGINAL DO ARTIGO.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.