Em diálogo com Zubiri

José Antonio Marina é um dos mais reconhecidos pensadores espanhóis contemporâneos. Sua trajetória intelectual é surpreendente. Professor de filosofia, com interesses transdisciplinares, dedicou-se a diversas áreas de conhecimento: psicologia, linguística, neurologia e genética. Nascido em 1939, publicou seu primeiro livro "apenas" em 1992. A estreia tardia, contudo, parece tê-lo preparado para uma tarefa propriamente hercúlea, pois, desde então, escreveu mais de 30 livros!

João Cezar de Castro Rocha,

07 de outubro de 2011 | 20h12

Talvez a melhor forma de entender seu impulso criativo relacione-se ao método descrito em O Quebra-cabeça da Sexualidade: "Como em todos os meus livros, este é uma verdadeira investigação. Ao começar a escrevê-lo, não sei como será o seu final".

Vale dizer, a escrita é uma extensão do pensamento, um modo efetivo de estimulá-lo. O ato de escrever, então, ilustra a tese de um de seus mais importantes livros, Teoria da Inteligência Criadora: "A inteligência humana é uma inteligência computacional que se autodetermina". Nesse livro, aliás, o autor dialoga com a filosofia de Xavier Zubiri.

Uma breve palavra sobre a estrutura de Teoria da Inteligência Criadora, a fim de esclarecer a associação de Marina com a tradição espanhola de pensadores que encontraram uma linguagem toda própria, ensaística e mesmo poética, para tratar de questões filosóficas complexas - o leitor é levado e pensar, entre outros, em Miguel de Unamuno e José Ortega y Gasset.

A primeira parte do livro, Teoria da Inteligência Criadora, apresenta as hipóteses e os dados que podem comprová-las. Ela é atravessada pela figura fascinante de D. Nepomuceno Carlos de Cárdenas, "um racionalista caribenho, livre-pensador, barroco e dono de um grande engenho". Na verdade, o kantiano caribenho é uma criação ficcional do autor, ou seja, "uma possibilidade expressiva" - em suas palavras.

A segunda parte, Bibliografia Dialogada, encena um rico diálogo entre "Leitor" e "Autor". Marina imagina seu próprio leitor implícito e, através dessa "possibilidade discursiva", detalha argumentos e explicita conceitos, criando pontes com um público mais amplo, o "leitor comum", mencionado por Virginia Woolf.

Ponte cada dia mais urgente e que esclarece a importância da bela edição dos citados volumes de José Antonio Marina e ainda de Ética para Náufragos, todos publicados pela Guarda-Chuva.

João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura comparada da UERJ

O QUEBRA-CABEÇA DA SEXUALIDADE

Autor: José Antonio Marina

Tradução: Diana Araújo Pereira

Editora: Guarda-Chuva

(308 páginas, R$ 38)

TEORIA DA INTELIGÊNCIA CRIADORA

Autor: José Antonio Marina

Tradução: Antonio Fernando Borges

Editora: Guarda-Chuva

(320 páginas, R$ 42)

ÉTICA PARA NÁUFRAGOS

Autor: José Antonio Marina

Editora: Guarda-Chuva

Tradução: Antonio Fernando Borges

(244 páginas, R$ 40)

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