Em meio a turbulência, Dilma revê relação com movimentos sociais

Um dia após promover uma profunda mudança na articulação política de seu governo com o Congresso, com a troca de seus líderes na Câmara e no Senado, a presidente Dilma Rousseff fez um gesto de reaproximação com os movimentos sociais ao dar posse ao novo ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, e reafirmar sua vontade de ampliar o diálogo com o setor.

REUTERS

14 Março 2012 | 16h49

A decisão de trocar o ministro Afonso Florence, cuja gestão considerava insatisfatória, foi tomada no final da semana passada, quando também resolveu tirar os líderes do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), e na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), depois de ter uma derrota com a rejeição de um indicado seu para a direção da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

No evento da manhã desta quarta-feira, a presidente reafirmou seu compromisso de trabalhar pela reforma agrária e valorizar a agricultura familiar e falou em "ambiente de paz e tranquilidade".

"Eu tenho certeza que o Pepe Vargas vai contribuir para a ampliação e para cada vez mais o estabelecimento desse ambiente de paz, tranquilidade e negociação com os movimentos sociais e o diálogo permanente e preservação dos direitos conquistados", afirmou a presidente.

Ela relembrou as conquistas na área social de seu governo e do de Lula. Em especial, falou dos avanços no campo. Estavam presentes, além de Florence, os dois antecessores de Pepe Vargas - Miguel Rossetto e Guilherme Cassel. O MDA foi criado na primeira gestão Lula para atender demandas de pequenos agricultores e do movimento dos sem-terra.

No discurso, Dilma elogia "a capacidade de diálogo e continuidade de paz" de Florence frente à pasta. Na semana passada, divulgou duas notas, uma para rebater informações de que ele teria sido demitido pelo baixo rendimento.

Além de enfrentar demandas no último ano dos movimentos sociais, como o ritmo lento nas desapropriações, Florence teve que lidar com o corte de recursos da pasta.

Durante a posse, integrantes dos movimentos sociais do campo externaram a esperança de que a mudança no comando seja uma demonstração de maior preocupação e investimento do governo na área.

O novo ministro chegou a citar, em discurso, que o MDA precisa ser tratado como um "ministério econômico", pela parcela importante de alimentos produzida pela agricultura familiar.

BAIXA DA BAHIA

Além de enfrentar críticas pelas mudanças políticas executadas na liderança do governo no Senado e na Câmara, a presidente também terá que tratar de algumas escoriações deixadas entre aliados na troca ministerial. Dilma trocou Cândido Vaccarezza (PT-SP) por Arlindo Chinaglia (PT-SP) na Câmara e Romero Jucá (PMDB-RR) por Eduardo Braga (PMDB-AM).

O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), ficou insatisfeito com a saída de Florence, seu indicado, em especial por não ter sido avisado da movimentação. Ele conversará com Dilma na tarde desta quarta-feira.

A bancada petista da Bahia reuniu-se na noite de terça para discutir as baixas no governo - além de Florence, eles contam como perda a saída de José Sérgio Gabrielli da presidência da Petrobras. A bancada de dez deputados se diz subrepresentada no governo.

Um ministro do PMDB, que pediu para não se identificar, atribuiu a troca de Jucá ao estilo de Dilma, que buscava renovar a interlocução do Planalto com o Senado. Entre idas e vindas, Jucá ocupava o posto havia mais de dez anos, desde o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2003). O mesmo ministro não acredita que a saída dele possa causar problemas com o PMDB.

"Quem será o relator do Orçamento? Não acho que é uma tarefa pequena ou de menor importância", disse ele, sobre a nova tarefa de Jucá na Casa.

Segundo um assessor da presidente, a troca é atribuída ao fato de um grupo, representado especialmente por Jucá e Renan, não controlar mais o partido como um todo. O novo líder, Eduardo Braga (AM), é de um grupo de oito senadores peemedebistas que contestam a liderança do partido.

(Ana Flor e Hugo Bachega)

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