Simona Caleo/Divulgação
Simona Caleo/Divulgação

Em plena sintonia

Design. Inspirados pela atmosfera romana, Fernando e Humberto Campana revisitam o barroco

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo,

04 Junho 2011 | 16h00

Mais do que um período da história da arte, alguns críticos preferem ver o barroco como um princípio em eterno retorno. Como uma forma de ver o mundo por meio de lentes densas e ampliadas. Lentes capazes de enfatizar luzes, distorcê-las e, não raro, revelar sombras. Como uma opção deliberada pela expressividade, sem a preocupação de se incorrer no exagero. Um confronto permanente com os ideais clássicos - e também recorrentes - de equilíbrio, controle e ordem.

 

Se assim o for, razões não faltam para, em pleno século 21, se reconhecer na obra dos brasileiros Fernando e Humberto Campana traços de uma legítima linhagem barroca. "Nestes objetos, perseguimos a imperfeição. Nossa intenção foi perturbar a harmonia natural que emana dos elementos clássicos. Deslocá-los de seu contexto original, sem pudores. Assim como procedemos em outros trabalhos", afirma Humberto, satisfeito com a mais recente investida da dupla: a coleção Barroco Brasileiro, lançada no fim de maio, em Roma.

 

Locação, aliás, que não poderia ser mais apropriada. Foi lá, em meio à grandiosidade da Galeria Cortona - no segundo andar do Palazzo Pamphili, sede da embaixada brasileira na Itália (ver box na pág. 11) - que a natureza neobarroca dos irmãos designers encontrou plenas condições de expressão. Além de revelar uma afinidade inusitada, mas perceptível, com a obra de dois gênios da arte italiana: o arquiteto Francesco Borromini, responsável pelos interiores do palácio, e o pintor Pietro de Cortona, autor de A história de Eneias, o magnífico afresco que recobre o espaço.

 

"Para nós esse convite foi um presente. Tudo aconteceu de forma absolutamente espontânea. No fundo, acho que Roma é um pouco como nós. Tudo na cidade é rico de imagens. Tudo nos inspirou: a tradição histórica, o barroco, a cultura popular", diz Fernando sobre a participação no projeto Privato Romano Interno (Interiores Romanos Privados).

 

Iniciativa que conta com a curadoria da crítica italiana Emanuela Nobile Mino e se propõe a confrontar espaços do passado com a obra de designers da atualidade. "Nosso objetivo é promover a cultura do design italiano, no que ela tem de mais particular: sua tradição no uso de determinados materiais e seu rico artesanato", explica a curadora, que, sob esse ponto de vista, vê na coleção dos irmãos brasileiros uma verdadeira ruptura com tudo o que eles vinham produzindo. "É a primeira vez que os vejo trabalhando materiais considerados nobres, como o bronze e o mármore de Carrara. A eles, Fernando e Humberto aplicaram todo o seu conhecimento acumulado ao longo dos anos, no trato de matérias-primas naturais ou de largo consumo", diz.

 

 

Materializada em um valioso acervo de mobiliário, a primeira incursão oficial dos designers nos domínios do barroco surpreende por seu impacto e atualidade. Se baseia, fundamentalmente, em inspiradas sobreposições de elementos históricos, livremente coletados em um vasto repertório iconográfico, que vai do século 17 ao 19. Inclui detalhes da vida em Roma, expõe suas extravagâncias arquitetônicas, passeia por diferentes períodos. Vista em perspectiva, porém, a sensação geral é de que cada móvel ou luminária parece ter estado para sempre ali. Dá a impressão de ser parte indissociável do próprio desenho da galeria Cortona.

 

Fruto da colaboração entre os designers e oficinas locais, especializadas na manipulação artesanal do bronze e do mármore, a coleção, composta por peças únicas, foi produzida especificamente para a exposição e o espaço em questão.

 

"Sempre nos agradou a ideia de tratar uma dada matéria-prima em direção oposta à sua natureza. Imprimir semitransparência ao bronze, por exemplo. Fazer dele um material mais maleável", explica Fernando citando as luminárias da coleção, com cúpulas elaboradas no material.

 

O outro material revisitado, o mármore, não era um ilustre desconhecido para a dupla de criadores. "Já tínhamos trabalhado a pedra, mas, neste projeto, fizemos um uso completamente novo. Trabalhamos com placas tão finas que nos foi possível tratá-lo quase como papel", comenta Humberto à respeito das mesas criadas para a coleção, que combinam fragmentos de rocha em seus tampos. "Intuitivamente, reproduzimos a pavimentação das antigas estradas romanas", acrescenta Fernando, a quem agradou a experiência de retrabalhar o material, que reaparece em dois emblemáticos candelabros.

 

Foi, porém, o tratamento dado ao bronze, na construção de intrincadas colagens tridimensionais que formam o corpo de cadeiras, lustres e luminárias, que a intuição, outro elemento lapidar no processo criativo dos designers, se fez notar com maior intensidade. "Procuramos maximizar cada elemento empregado. Criar uma superfície imperfeita, uma textura irregular, mas nunca de forma deliberada. Mais tarde, porém, é que percebemos as múltiplas semelhanças e afinidades entre eles. Enfim, sua dimensão onírica", conta Humberto.

 

Um pedaço do Brasil na Itália

Erguido em meados do século 17 pelo arquiteto Girolamo Rainaldi, na Piazza Navona, o centro da Roma barroca, o Palazzo Pamphili é uma das mais luxuosas sedes de embaixadas do País. Em 1960 o imóvel, com 20 mil m² de área, foi comprado pelo governo brasileiro, que o reformou em 2000. No início do século 20, o andar térreo teve uso menos nobre, ao ser alugado para lojas e oficinas.

 

 

* BARROCO BRASILEIRO, POR FERNANDO E HUMBERTO CAMPANA

EXPOSIÇÃO NA EMBAIXADA DO BRASIL EM ROMA, NA PIAZZA NAVONA - GALERIA CARTONA, PALAZZO PAMPHILI.

EM CARTAZ ATÉ O DIA 24.

ENTRADA GRATUITA.

MAIS INFORMAÇÕES: WWW.AMBASCIATADELBRASILE.IT

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