Em Portugal, a hora é dos brancos

Um brinde com Maria João de Almeida

O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2011 | 00h39

Em Portugal há quem se queixe, e bem, de que não existem estudos sobre a evolução dos vinhos com castas portuguesas. Fala-se sobre as fantásticas características de determinadas castas, dos seus possíveis potenciais de envelhecimento, mas quando toca a saber na realidade se existe um vinho da casta A ou casta B que tenha evoluído bem durante décadas, é difícil encontrar registros.

Os vinhos brancos portugueses nunca se aguentaram durante muito tempo, salvo raras exceções, dadas a conhecer por algumas entidades oficiais como o Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, o Instituto da Vinha e do Vinho ou ainda alguns produtores que, a título particular, organizam provas para ver como evoluíram alguns dos seus vinhos (na maioria, tintos). De todas as provas de que participei, foram os vinhos da casta Encruzado, do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão, que mais se destacaram. Vinhos do início da década de 50 que ainda se encontravam em excelente estado de conservação, não fosse a Encruzado uma das castas brancas portuguesas que melhor envelhece. Como é bastante equilibrada em açúcar e acidez, permite a elaboração de vinhos com grande frescura e uma longevidade fora do comum.

Os brancos, que só começaram a surgir em Portugal com um maior nível de qualidade durante a década de 90, depressa conquistaram o paladar do consumidor. A melhoria das técnicas na vinha, a modernização das adegas e a nova geração de enólogos que foi lá fora e regressou pondo em prática o que aprendeu contribuíram muito para a evolução qualitativa dos vinhos em todo o território nacional. E o caso dos brancos não foi exceção. Foi nessa época que começaram definitivamente a destacar-se pela qualidade.

Em poucos anos, observaram-se muitas mudanças e modas. Primeiro os brancos aromáticos e frutados. Mais tarde, brancos com madeira. Hoje, a tendência são os vinhos mais elegantes, com maior mineralidade e acidez. Neste momento, parece que os brancos (e outros vinhos, de um modo geral) encontraram finalmente o tão pretendido equilíbrio. Tanto nos vinhos mais leves como nos mais gastronômicos.

Em Portugal os vinhos brancos de guarda estão cada vez melhores. De norte a sul do país surgem exemplos interessantes. Dois que estão no grupo dos melhores brancos portugueses são, por exemplo, o duriense Redoma (de Dirk Niepoort) ou o Muros de Melgaço, um excelente Alvarinho da região dos Vinhos Verdes (do enólogo e produtor Anselmo Mendes).

No Alentejo, o clássico Pera Manca (da Fundação Eugénio de Almeida - Adega da Cartuxa) continua a dar cartas, elaborado a partir da Antão Vaz, casta tradicional da região, e da Arinto, que dá ao vinho uma boa acidez. Do Dão, chega-nos o Condessa de Santar, uma homenagem a Maria Tereza, atual proprietária da casa e do título de Santar. Sua cativante personalidade e rara beleza serviram de inspiração para esse elegantíssimo branco elaborado com as castas Encruzado, Cerceal branco e Arinto. Apaixonante! E o Quinta do Monte D"oiro Madrigal/Viognier, um branco de Alenquer, da região de Lisboa, do gastrônomo e apresentador de televisão José Bento dos Santos? Untuoso, envolvente, detentor de uma acidez equilibrada e muito elegante, é um grande branco da responsabilidade da enóloga Graça Gonçalves, sob a batuta técnica de Grégory Viennois, da famosa Maison M. Chapoutier. Esses e tantos outros são bons exemplos de como o panorama dos brancos está a mudar. E cada vez há mais e melhores.

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