Em torno do jacarandá

Sempre achei curioso o jeito portenho de os restaurantes (os mais tradicionais) receberem seus comensais. Com beijos, abraços, perguntas sobre a família, afirmando um estilo de acolhimento que tem mais a ver com o cultivo de uma freguesia do que com uma clientela - pois há diferenças. O Jacarandá, nova empreitada da argentina Ana Massochi, alimenta algo dessa atmosfera, já que a maioria ali parece se conhecer. São, em geral, habitués do Martín Fierro e do La Frontera, que também pertencem à anfitriã.

Luiz Américo Camargo, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2012 | 02h10

O Jacarandá - há uma árvore dentro do restaurante, definindo uma espécie de centro magnético do salão - tem fachada discreta, não tem hostess nem apresenta configuração das mais usuais. Lembra uma residência interiorana (a construção é dos anos 1960), como é típico de muitas das casas que sobreviveram aos prédios em Pinheiros. Ao entrar, o visitante se depara com um pequeno jardim; depois passa por um empório, com produtos brasileiros certificados, como queijos mineiros, pimentas da Amazônia, baru e pequi do Cerrado, etc; para aí chegar ao comedor principal, ao fundo.

Existe uma coerência entre atmosfera - informal, rústica - e cardápio, curto e objetivo. O tom geral é o da descomplicação e muitas das opções evocam as cartas do Martín Fierro e do La Frontera. Mas a cozinha, a cargo do uruguaio Gastón Yelicich, se diferencia nos detalhes, como um submenu dedicado aos ovos, com seis possibilidades. Entre elas, pedidas apetitosas como a omelete de queijo canastra (R$ 12) e o ovo à milanesa com bacalhau e grão-de-bico (R$ 10). Falando ainda de entradas, as empanadas, de queijo e carne, também são ótimas.

Os pratos destacam sugestões como costela de porco com batata-doce (R$ 38) e matambre (a capa da costela bovina, R$ 32) cozido no leite com purê de mandioquinha - boas, mas carentes de um pouco mais de profundidade de sabor. Gostei mais do coelho assado (R$ 45), úmido e macio, guarnecido por polenta, e do arroz de pato (R$ 54), servido com confit e com grãos mais soltos, sem caldo, que nem está no cardápio. E, já que estou estabelecendo hierarquias, a merluza frita com batatas ao murro (R$ 32) foi a menos expressiva. Embora nada seja desequilibrado, carregado, eu diria que, com predominância de ovos e queijos curados, sobremesas como o pudim de doce de leite (R$ 12) e o bolo de chocolate com nata (R$12) encerram bem a jornada.

Depois de uma fase de soft opening, agora o restaurante abre para almoço e jantar. E, para breve, a proprietária promete inaugurar o Tatu, um bar com música ao vivo, no subsolo. O que confirma a intenção da casa de não seguir padrões. Um jacarandá, sozinho - estou falando da árvore -, talvez não seja capaz de oxigenar o microecossistema da Rua Alves Guimarães. Mas o Jacarandá - agora, me refiro ao estabelecimento -, como programa, como ideia de restauração, é uma possibilidade de respiro.

Por que este restaurante?

Porque é uma novidade interessante.

Vale?

Gasta-se abaixo de R$ 100/cabeça. Água de jarra e pão são cortesia. Vale.

Onde fica

R. Alves Guimarães, 153, Pinheiros, 3083-3003.

Diariamente, 12/0h. Cc.: D, M e V. Manob.: R$ 12.

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