Em um lugar longínquo, a chance de ser feliz

Para a centenária Sei Maeda, o Brasil representava a esperança de mudar de vida

Márcia Placa,

24 de maio de 2008 | 18h54

Sei Maeda fez 100 anos em outubro - e tem quase o mesmo tempo de batalha. Desde pequena, aprendeu com a mãe e a avó a arte do bashofu, tecido feito com a fibra de uma espécie de bananeira, tradicional do povo de Okinawa. Criativa, aos 16 anos ficou em segundo lugar num concurso de estampas e deixou a cidade natal, Kijoja, para estudar e trabalhar em Osaka. Foi assim que ajudou o pai a pagar uma dívida de tanomoshi (consórcio). Veja também:Para celebrar o Centenário da Imigração Japonesa Força e leveza em forma de poesia Uma apaixonante vontade de viver Voltar ao Japão? Nem a passeio No Brasil, para fazer a vida e fugir da guerra  Especial: Álbum da imigração Especial: A viagem inaugural  O casamento com Nobuji Maeda foi arranjado pela sogra, que era fã da jovem. O matrimônio, porém, não foi bem visto pela família dela, porque o noivo era de outra classe social. "Por uma infeliz trama do destino, meu pai foi recrutado pelo governo para criar colônias de hansenianos pelo país e a mamãe ficou sozinha", conta Alice, filha de Sei. "Depois, ele se envolveu com o Partido Comunista e continuou a viajar. A minha primeira irmã, Yoshiko, nasceu longe do pai."Para a batalhadora Sei, o Brasil representava a esperança de fazer o marido mudar de vida. "Ela viu nesse país distante uma oportunidade de ser feliz." Sei, Nobuji e a filha Yoshiko desembarcaram em Santos em 1933. Já tinham trabalho numa fazenda em Jaboticabal, arranjado por uma família conhecida. Ele dava duro na lavoura e ela vendia verduras na cidade. Os dias mais prósperos vieram em Marília, quando arrendaram terras e plantaram algodão. Mas voltaram a Jaboticabal e aos dias difíceis. Decidiram, então, se mudar para São Paulo.Na Capital, começaram como ajudantes em feiras livres. Sei ainda trabalhou em tinturarias, em pastelarias e em uma floricultura. Queria dar uma vida melhor aos filhos - hoje ela tem seis netos e nove bisnetos. Foi em São Paulo que Sei travou o primeiro contato com os uchinanchus (como os okinawanos se autodenominam). E foi convidada para secretariar o Funjikai, uma associação filantrópica.Nas reuniões da entidade, Sei aprendeu o odori, uma dança japonesa. "Ela se apresentou por três anos." A vida social do Funjikai era intensa. Sei recebia convites para festas e viagens. "Foram os anos mais felizes da minha vida no Brasil", lembra a imigrante.Sei Maeda tem boa saúde e adora feijoada. "Pedi a Deus para ver meus netos na escola e hoje recebo a graça de viver com meus bisnetos na universidade", conta. "Não sei se o que eu fiz pode servir de exemplo, mas sempre tive muita fé, respeito a Deus e ao próximo."

Tudo o que sabemos sobre:
Imigração japonesa

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.