Em um sobrado, a alma do Japão

Após 60 anos, a sede da Associação Japonesa de Santos volta às mãos da comunidade

Tatiane Matheus,

27 de outubro de 2007 | 19h21

Com flores nos cabelos e nas mãos, jovens vestidas de vermelho apresentavam uma dança delicada. Era manhã do dia 9 de dezembro de 2006 e elas estavam ali com seus quimonos para comemorar: após 60 anos, a sede da Associação Japonesa de Santos estava finalmente voltando às mãos da comunidade.   - Ela tinha 13 anos. E muito medo   Mais do que valor imobiliário, aquele casarão amarelado no número 29 da Rua Paraná, no bairro Vila Mathias, tem significado afetivo e histórico para os descendentes de imigrantes que vivem na cidade. Foi ali que muitos dos seus aprenderam a cantar dois hinos nacionais - o japonês e o brasileiro - e se reuniram nos bons e nos maus momentos.   O atual pode ser descrito como um bom momento. No início do mês, a associação entrou com um projeto no Ministério da Cultura para reformar o casarão, preservando as características originais do imóvel. A intenção é que o prédio passe a abrigar o acervo documental e de consulta sobre a imigração japonesa.   O projeto ficaria completo com uma nova edificação, anexa, ampliando o espaço para permitir a realização de cursos de japonês, atividades culturais e ações para aumentar o intercâmbio entre as cidades-irmãs de Santos, Nagasaki e Shimonoseki. Apesar de o plano ainda não ter saído do papel, os responsáveis pela associação esperam inaugurar tudo a tempo de comemorar o Centenário. "A iniciativa vai ajudar a resgatar a história daqueles que só lembram de sua origem quando se olham no espelho", explica Sadao Nakai, assessor do presidente da entidade.   Criada pelos primeiros imigrantes, a associação adquiriu sua sede em 1928. Enquanto os pais saíam para trabalhar, sempre havia alguém no casarão para cuidar das crianças e ensinar as primeiras lições. A fundação oficial só viria a ocorrer bem depois, em 1939. No ano seguinte, mudou de nome para Sociedade Instrutiva Vila Mathias.   A alteração não impediu o pior. Em 1942, o presidente Getúlio Vargas assinou um decreto que proibia no País qualquer manifestação cultural de japoneses, alemães e italianos - países inimigos do Brasil na Segunda Guerra. No ano seguinte, o caos: por questões de segurança nacional, os japoneses tiveram apenas 24 horas para deixar Santos.   Desde 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra decretou o imóvel um bem da União, a comunidade estava longe de seu casarão. E lutava para ter sua sede de volta. "No início, políticos articulavam em favor da devolução. Mas o processo só ficou mais coeso quando as pessoas da associação se aproximaram", conta Nakai.   Em agosto do ano passado, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, assinou o decreto que prevê a cessão, por tempo indeterminado, do imóvel para a associação. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou da solenidade. "Ainda há problemas jurídicos e administrativos, mas se batêssemos na mesma tecla, não estaríamos aqui", diz Nakai.

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