Emílio Ribas quer reunir ex-alunos

Instituto prepara encontro científico para troca de experiências entre gerações

Mariana Lenharo, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2012 | 03h05

O Instituto de Infectologia Emílio Ribas prepara um grande encontro científico que pretende reunir todos os 600 infectologistas que já fizeram residência na instituição. A reunião, inédita, terá representantes desde a primeira turma, que entrou em 1971, quando o centro de referência ainda se chamava Hospital de Isolamento Emílio Ribas.

A proposta do encontro é promover troca de conhecimento e experiências entre as várias gerações de ex-residentes, que se tornaram especialistas e hoje atuam em universidades, hospitais e clínicas de quase todos os Estados do País.

Ao longo de mais de 40 anos, esses infectologistas testemunharam o surgimento de novas doenças infecciosas, como a aids, e a emergência de questões que tiveram forte impacto na especialidade, como a resistência bacteriana. Isso sem contar as epidemias históricas: febre tifóide, meningite meningocócica, febre purpúrica, sarampo e a mais recente influenza H1N1.

"São infecções novas para especialistas velhos", diz a médica Marinella Della Negra, que fez parte da segunda turma de residentes do Emílio Ribas, que ingressou em 1972. Desde então, nunca mais deixou o instituto e só divide seu tempo com a atividade de professora da disciplina de infectologia da Faculdade de Medicina da Santa Casa. Ela conta que, na época em que decidiu ser infectologista, a carreira ainda estava "engatinhando".

"Naquele tempo, o Emílio Ribas tinha uma característica de isolamento. Era um hospital que servia para por o paciente com doença infecciosa. Só quem realmente queria fazer a especialidade ia para lá", conta.

Ela avalia que, na época, atuar no Emílio Ribas não tinha o glamour que veio a ter depois, quando a instituição passou a ser reconhecida pelo ensino e também pela pesquisa.

O surgimento da aids, segundo Marinella, foi um grande impulsionador das pesquisas na área. "Foi um marco. Com a aids, teve que se investir muito dinheiro nas pesquisas. Por meio desse investimento, foi possível avançar também no conhecimento de outras infecções."

Primeiros casos. O infectologista Carlos Brites, que ingressou na turma de residência de 1983, conta que presenciou os quatro primeiros casos de aids atendidos no Emílio Ribas.

"Era algo completamente novo. Não sabíamos ao certo o que estava acontecendo, como lidar com os pacientes. A gente entrava no quarto parecendo um astronauta, todo paramentado da cabeça aos pés", relata.

Segundo ele, no primeiro momento, alguns médicos se assustaram e houve uma época em que algumas residências em infectologia não tinham candidatos porque se pensava que a especialidade se resumiria à aids.

"Teve um momento de crise, de indefinição, mas isso não afastou os profissionais que tinham um interesse maior e verdadeiro pela área", diz.

Atualmente, Brites é professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde lidera grupos de pesquisas na área de retrovirologia. Ele também é responsável pela coordenação de um hospital privado em Salvador.

Quem também foi residente nessa fase foi o médico Fernando Ruiz, que ingressou no Emílio Ribas em 1984. Hoje, o professor da faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no câmpus de Sorocaba, que chegou a morar durante dois anos no instituto, lembra de outro acontecimento marcante na infectologia que ocorreu na época em que era residente: a morte do presidente Tancredo Neves por infecção hospitalar em 1985.

Para o infectologista David Jamil Hadad, ingressante em 1987, os marcos da infectologia desde que passou pelo instituto foram o surgimento de micro-organismos multirresistentes dentro do ambiente hospitalar, o reconhecimento da tuberculose como uma emergência mundial e as microepidemias hospitalares nos Estados Unidos por cepas de tuberculose multidrogas resistente. Hoje, ele atua como professor da Universidade Federal do Espírito Santo.

Grandes epidemias. Marinella lembra que foi o Emílio Ribas que cuidou dos pacientes de todas as grandes epidemias que atingiram o estado de São Paulo nas últimas décadas.

Ela lista, por exemplo, a epidemia de febre tifóide que atingiu a região do bairro Parque Edu Chaves em 1972, a de febre purpúrica em 1984 e a de meningite meningocócica, de 1971 a 1975. Desta última, ficou marcada na memória da médica uma cena que presenciou.

O hospital, que tinha apenas 400 leitos, recebeu mais de 1.300 infectados que precisavam de internação. Vendo um pai sentado no corredor com o filho doente, ela o orientou a levar o filho para outro hospital, que recentemente também tinha aberto leitos para a doença.

"Ele disse que dali ele não saía de jeito nenhum e que ficaria sete dias com o filho deitado em seu colo. Esse é o reconhecimento e a confiança da população pelo trabalho de um hospital."

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