Encontro marcado

Bienal Internacional de Veneza, dirigida pela japonesa Kazuyo Sejima, busca aproximar a arquitetura das pessoas

Marcelo Lima, O Estadão de S. Paulo

29 de setembro de 2010 | 11h00

Um dos pavilhões do complexo Arsenale, que tradicionalmente abriga a Bienal

 

Tendo como cenário a mais idílica das cidades, Veneza, a Bienal Internacional de Arquitetura é uma rara oportunidade de conferir, em escala global, algo que os arquitetos não se cansam de exercitar: a capacidade de sonhar. Para além das preocupações cotidianas e da rigidez dos orçamentos, a Bienal 2010 tem como objetivo difundir o pensamento novo sobre a arquitetura. O que, convenhamos, não é pouca coisa.

 

Como pontuou sua atual diretora, a japonesa Kazuyo Sejima, montar uma exposição de arquitetura é uma operação conceitualmente complexa, uma vez que edifícios reais não poderiam jamais ser exibidos. Ainda assim - e mesmo em face de um momento de acentuada contenção econômica e ambiental -, a Bienal chega a sua 12ª edição exibindo uma vitalidade impressionante, além do desejo expresso de aproximar ainda mais a arquitetura das pessoas.

 

Assim, após anos sob a direção de críticos de arte e historiadores, a mostra volta - em tempo - a ser pensada por um arquiteto. Ou melhor, por uma arquiteta. No caso, a primeira mulher a assumir o cargo em toda a história da Bienal e umas das poucas já agraciadas com o prestigiado Pritzker Architecture (uma espécie de Oscar da arquitetura internacional) conquistado este ano em conjunto com seu sócio no escritório Sanaa, Ryue Nishizawa.

 

Reunindo 53 países, o Brasil incluído, a mostra, que vai até o próximo dia 21 de novembro, está estrategicamente espalhada por toda a cidade: além dos palácios oficiais de cada delegação, distribuídos pelo jardim público local, e do complexo de galpões conhecido como Arsenale, este ano, um prédio público central, o Ca’Giustinian, de 1930, foi adaptado para funcionar como sede de encontros e conferências.

 

"O século 21 está apenas começando e muitas mudanças radicais estão ocorrendo", diz Sejima, no painel que abre a exposição. "Neste sentido, acredito que a Bienal de Arquitetura deve, antes de tudo, refletir este momento de perplexidade: estamos mais conectados do que nunca. Nossa cultura, assim como nossa economia, tornou-se global. O que a arquitetura tem a dizer diante destas questões?"

 

Aparentemente convencida de que a pluralidade de pontos de vista é a melhor das respostas, Kazuyo destinou espaços independentes para cada um dos participantes, com o objetivo de possibilitar aos arquitetos um aprofundamento maior em seus temas. O que, em última análise, determina uma abordagem que aponta para o essencial. Não, por certo, para uma concepção austera e rudimentar do projeto. Mas, definitivamente, mais depurada e elementar. Caem por terra, por exemplo, as recorrentes alusões ao universo cibernético que caracterizaram as últimas edições. Ou a frequente tentação de se criar cápsulas enclausuradas, alheias à atmosfera ancestral dos galpões venezianos.

 

Em seu lugar, a atenção dos arquitetos parece se voltar para os quatro elementos - água, ar, fogo e terra -, para padrões de interação com o público estabelecidos no espaço físico real, sem intermediários. Caso, por exemplo, da beleza instantânea e estroboscópica produzida pelo artista dinamarquês Olafur Eliasson, que concebeu um espaço cavernoso, onde flashs de água, se contorcendo como cobras, sugerem estruturas espaciais e formatos incertos.

 

 

Em Veneza, caem por terra as alusões ao espaço cibernético, que caracterizaram as últimas edições

 

 

Masp. Afinado com a proposta da Bienal deste ano - People Meet (in) Architecture - e também com a ideia de que podemos, realmente, fazer mais com menos, o trabalho de Lina Bo Bardi, destaque na representação brasileira, é digno de nota. Sobretudo em seu momento mais sensível: o imenso painel que exibe uma manifestação popular sob o vão livre do Masp.

 

"É a arquitetura se relacionando com as pessoas. E as pessoas se relacionando com a arquitetura", diz Kazuyo Sejima, citando, como exemplo, a enorme nuvem artificial que se espalha por um pavilhão inteiro da exposição, construída a partir de diferenças de temperatura e pressão, por Matthias Schuler, da Transsolar, em colaboração com Tetsuo Kondo.

 

Uma das mais impactantes instalações apresentadas, denominada Cloudscapes, propõe aos visitantes uma nova leitura do espaço. Nela, a dupla Tetsuo e Schuler convida a todos para subir delicadas rampas de aço, atravessar uma nebulosa e, finalmente, ultrapassá-la. A sensação é, literalmente, a de ter a cabeça nas nuvens. Só que dentro de um edifício.

 

Os japoneses - de novo eles - marcam presença no espaço criado por Junya Ishigami: uma imensa cidade em miniatura, construída a partir de fios muito finos de aço, dificílima de ser fotografada e que só pode ser compreendida de perto. Uma instalação, como a das nuvens, tão delicada quanto efêmera, com pouca ou nenhuma relevância prática sobre o futuro do que construímos. Mas ainda assim capaz de emocionar por sua rara espacialidade e beleza. O que, em última análise, tem tudo a ver com a arquitetura. Ou não?

 

(marcelog.lima@grupoestado.com.br)

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