Encunhalados: o legado de Eduardo Cunha à política brasileira

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Lucas Pereira Rezende*, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2015 | 14h44

Desde que assumiu a presidência da Câmara dos Deputados, em fevereiro desse ano, Eduardo Cunha protagoniza episódios de amor e de ódio na cena política nacional. Ídolo além-partidário dos conservadores, o deputado do PMDB travou, desde o início, uma disputa pessoal por protagonismo político com a presidente Dilma Rousseff. Roubou a cena de seus colegas de partido, o presidente do Senado Renan Calheiros e o vice-presidente da República Michel Temer, e se tornou a manchete principal vinda de Brasília.

Seu momento ‘pop’, que incluiu de pautas-bomba contra o governo a ‘canja’ de bateria em programas de TV, chegou ao auge quando, formalmente, anunciou seu rompimento com o Planalto e sua ida para a oposição. Coroava-se ali o rei que conduziria, de forma ágil e sorrateira, o processo que levaria à deposição da presidente da República - ao menos era o que esperava a oposição. 

As denúncias de corrupção contra Cunha no escândalo da Petrobrás colocaram, ao menos por ora, um freio no que parecia ser o inevitável fim da administração petista no governo federal. Mas o fato é que, de fevereiro para cá, Eduardo Cunha foi - e continua sendo - a figura central do jogo político nacional. O mais interessante nesse jogo de encunhalados é a incrível habilidade do deputado de ser, ao mesmo tempo, afagado por governo e por oposição, mesmo em seu momento de crise. 

Eduardo Cunha é não apenas um exemplo, ele personifica o que há de mais sórdido e sujo na política nacional. Cunha é o ‘toma lá, dá cá’, e a prova disso é o absoluto pavor de todos - governo ou oposição - em formalmente romperem com ele.

Do lado do governo, os recados são múltiplos. Em um momento em que a maior preocupação de Dilma Rousseff é permanecer no cargo, precipitar a queda de Cunha é dar tempo para o ajuste fiscal funcionar - o que daria tempo para a presidente recuperar parte de sua popularidade perdida. Por outro lado, não é novidade que o deputado tem alardeado em Brasília que não cairá sozinho. Ou seja: ameaça que, ao cair, levará em seu encalço muito mais gente - o que segue incluindo a presidente Dilma. 

Em sua reforma ministerial, Dilma acenou para um afago a Cunha. Mesmo ele negando querer fazer parte do governo, cedeu-se o ministério da Ciência e Tecnologia para o deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), aliado do presidente da Câmara. Ao mesmo tempo, a presidente Dilma segue não fazendo questão de esconder seu desagrado pessoal com Cunha, como no recente bate-boca envolvendo autorias de corrupção. 

O aceno favorável por parte do governo vem também de um PT temerário de perder o governo federal. O ex-presidente Lula volta à cena como grande articulador do partido em uma tentativa de salvar o mandato de Eduardo Cunha e, em seu encalço, também o da presidente Dilma. É um aceno máximo que o governo tentará minimizar as escaras de uma eventual queda do deputado.

Na oposição, o tratamento não é diferente. Desde que foi eleito presidente da Câmara, à revelia do governo, Eduardo Cunha transita confortavelmente entre oposicionistas. O objetivo de queimar a qualquer preço o governo federal fez os partidos oposicionistas aderirem às pautas-bomba de Cunha. Foi apenas com o apoio da oposição que Cunha conseguiu derrotar praticamente todas as pautas do governo até agora no Congresso Nacional. Em seu discurso-brilho voluntário à CPI da Petrobrás, em 12 de março, Cunha foi defendido amplamente pelas bancadas do PSDB, DEM, Solidariedade e PSB - e até mesmo por alguns do PT.

O medo em formalmente retirar o apoio a Eduardo Cunha é visto no jogo de cena do senador Aécio Neves, que diz que o deputado deve responder pelas graves acusações, mas, ao mesmo tempo, instrui os deputados do PSDB a não assinarem o pedido de investigação de quebra de decoro parlamentar do presidente da Câmara. 

As notas emitidas pela oposição retirando o apoio ao deputado tentam salvar a biografia de seus ex-recente aliados, nada além disso. Nenhuma das siglas da oposição assumiu o papel de protagonista na queda de Eduardo Cunha.

A falta de uma cara 'protagônica' para encabeçar a saída do cargo e condenação política e jurídica do presidente da Câmara mostra que o câncer político chamado Eduardo Cunha é, na verdade, metástase, e atinge a tudo e a todos. Cegos por suas ambições de poder, governistas e oposicionistas deflagram uma guerra pelo pódio, deixando de lado o interesse pela gestão pública, ética, legalidade ou justiça. 

Nas redes sociais, aqueles pró-governo acusam os oposicionistas de terem dado palco e respaldo político para que Eduardo Cunha fosse eleito presidente da Câmara e tocado adiante as derrotas ao governo. Argumentam que o deputado foi eleito presidente da Câmara rompendo e indo contra o governo, o que mostra que ele não era aliado da administração petista. Contudo, silenciam sobre a atuação desesperada de Lula e de parte do PT para não protagonizar o ocaso de Cunha, evitando, assim, perder o poder. 

Aqueles contra o governo, por sua vez, já começam a dizer que Eduardo Cunha era aliado de conveniência, e que, na verdade, nunca foram assim tão próximos do deputado. Acusam os governistas de confortavelmente deixarem de lado o fato que o deputado pertenceu à base aliada formal do governo desde 2003. Todavia, deixam de reconhecer que o cometa Eduardo Cunha só aconteceu pela forte sustentação dada pela oposição ao deputado e às suas pautas-bomba contra o governo. Ignoram a sua responsabilidade na condução do retrocesso político que o parlamento brasileiro entrou na era Cunha e em todas as pautas aprovadas por ele nesse período.

Que a queda do presidente da Câmara agora é só uma questão de tempo, todos já sabemos. Mas o que talvez nunca saibamos é o preço dessa queda, confortavelmente acolchoada por Lula, Aécio e companhias ilimitadas. Não faltarão ombros de consolo a Cunha. 

Nesse triste último ato, o mais vergonhoso para a cena política brasileira é ver que o câncer Eduardo Cunha pode até ser retirado, mas sua metástase permanece em todos os principais partidos políticos do país, sejam eles do governo ou da oposição.

* Lucas Pereira Rezende é cientista Político e professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina. Autor de ‘Sobe e Desce: Explicando a Cooperação em Defesa na América do Sul’ (Editora UnB, 2015)

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