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Enfim, o fim

Ele estava no corredor da morte quando se apaixonaram. Ela relata o último dia

Lily Fury, O Estado de S.Paulo

01 Março 2014 | 16h08

Um dia antes da morte de Jonathan, caiu uma tempestade de gelo no Texas. O ar estava tão frio que era possível ver a própria respiração. Agulhas de gelo pendiam de cada galho das árvores e dos telhados, e as estradas estavam tão escorregadias que as escolas foram fechadas. A tempestade foi o motivo pelo qual nossos papéis de casamento nunca foram assinados. Jonathan pedira minha mão seis meses antes, e dias antes de ser informado da data da execução, ele tatuara meu nome nos dedos da mão esquerda.

Quando as estradas começaram a clarear pela manhã, me espremi no carro ao lado do pai de Jonathan e de sua melhor amiga, Devon. Viajamos 480 km para vê-lo pela última vez. Ficamos num hotel perto da prisão. Compramos umas bebidas e tentamos beber até perder a noção da realidade. E a realidade era que o homem que amávamos seria executado na noite seguinte.

Poucos dias antes, Devon e eu praticamente não nos conhecíamos. A partir de então, nos tornamos inseparáveis. Ansiosas demais para dormir, ficamos conversando, rindo e chorando até tarde. Morte, vida, escuridão, luz. Olhávamos para o relógio. Tínhamos medo do fim. Nos perguntávamos: será que ele está apavorado? Estará com frio? Conseguirá dormir?

Contei como conheci Jonathan. Eu escrevera para ele como parte de um serviço comunitário ordenado pelo tribunal, um programa que enviava material de leitura a presidiários. Aquela carta foi o começo de uma correspondência que durou quase um ano e me levou ao Texas num ônibus. Sua família me recebeu de braços abertos. O pai preparava chocolate quente para mim todas as manhãs, o irmão procurava criar uma atmosfera mais leve com seu bizarro senso de humor e as duas irmãs estavam sempre a minha disposição. Tudo aconteceu tão depressa que nem refleti sobre o significado do fim. Estava totalmente envolvida no vínculo que nos unia.

Os segredos não faziam parte de nosso mundo. Nossa relação era única e profundamente intensa. Contei tudo para ele: minha adolescência transcorrida numa série de adoções marcadas pela negligência e abusos. Contei que me viciara em heroína aos 16. Jonathan não me julgou: me encorajou a parar de desperdiçar minha vida.

Ele mal saíra da adolescência quando cometeu seu crime. Aconteceu quando estava ajudando sua então namorada a fugir do pai no meio da noite. Um policial de folga o parou abruptamente, sem se identificar como agente da lei. O policial pôs encostou um revólver na cabeça de Jonathan, que atirou nele várias vezes. Fez isso instintivamente, com medo de morrer, e tudo aconteceu em segundos. A vítima era Fabian Domínguez, de San Antonio. Segundo os autos, Domínguez estava uniformizado naquele momento, mas Jonathan me disse que ele usava um casaco preto que escondia quase totalmente sua figura e, na noite escura, mal conseguiu enxergá-lo. Na delegacia, Jonathan assinou uma confissão.

Ele era culpado, mas nunca achei que deveria ter morrido por aquele crime. A sentença foi muito severa; um dos condenados com ele, Paul Cameron, pegou prisão perpétua pelo simples fato de tê-lo acompanhado naquela noite. Jonathan morava num Estado conservador; não teve a chance de ser defendido por um bom advogado e, sem saber, tinha assassinado um policial. Não teve a menor chance.

Na manhã da execução, saímos rapidamente para ir ao centro Walls Unit, de Huntsville, onde até então haviam sido executadas 500 pessoas. Passei pelos detetores de metal e caminhei pelo corredor até uma gaiola envolta por uma grade metálica.

O sorriso de Jonathan era maravilhoso. Sentei e procurei olhá-lo em seus olhos castanhos. "Veja", ele disse, "desta vez não há vidros à prova de bala". Levantei a mão e toquei a sua. Foi uma das poucas vezes em que nossas células se roçaram. Pressionei os lábios contra a grade e nos beijamos, nossos hálitos se mesclando. Por um instante esqueci das grades, dos guardas, do vidro. Por um instante fomos apenas duas pessoas tremendamente apaixonadas.

Depois um guarda me puxou de volta para a cadeira, fiquei mais afastada de novo, olhando-o através de uma gaiola.

– Você dormiu esta noite?, perguntei.

– Fui obrigado. Confiscaram todas as minhas coisas.

– Por quê?

– Acharam uma lâmina de barbear.

Imediatamente me lembrei de uma conversa que tivemos anteriormente, quando usávamos a linguagem de sinais para discutir planos de fuga. Ele costumava dizer que nos encontraríamos no Canadá, porque, mesmo que o achassem, o Canadá se recusa a extraditar detentos do corredor da morte. Aquele sonho me mantinha viva dia após dia, mesmo que se tratasse apenas de um mecanismo de defesa diante da realidade que ambos não podíamos aceitar. Ele falava de nós dois, vagando pelas florestas, buscando o caminho da liberdade.

"E se não der certo?", perguntei naquele dia. Ele pôs o telefone sobre a mesa por um instante, tirou o sapato, levantou a sola e puxou uma lâmina de barbear presa ao fundo com fita adesiva. Então colocou o dedo sobre os lábios, fazendo sinal para eu me calar. Não consegui. A gravidade da situação explodiu naquele momento, e eu desatei a chorar. "Amor", ele disse calmamente, "será melhor que do outro jeito."

O suicídio foi a solução escolhida por seu amigo, poucos meses antes. Faltava pouco tempo para a execução de Michael De Wayne Johnson, mas ele se recusou a deixar que o Estado lhe tirasse a vida. Na noite anterior, ele e Jonathan ficaram acordados embebedando-se com péssima bebida contrabandeada. Jonathan me escreveu uma carta naquela noite. Tremi quando a li:

"Querida Lily, são 2h. Eu e Michael fizemos farra a noite toda. É a última noite dele. 2h05, a festa está acabando; 2h10, Michael está se despedindo; 2h19, está sufocando, tossindo; 2h21, vejo sangue pelo buraco na parede; 2h25, ponho a mão contra a parede que nos separa; 2h27, disse a Michael que o amo; 2h30, não ouço mais nenhum ruído, nenhum movimento; 2h31, vejo o guarda fazer a vistoria, ele sai correndo; 2h35, os guardas põem Michael numa maca, balançando a cabeça. O lençol que cobre o seu corpo está coberto de sangue; 2h39, levam o corpo de Michael pelo corredor; 2h45, estou sozinho na cela. Meu melhor amigo se foi".

Agora era a vez de Jonathan assistir ao próprio fim. O plano A e o plano B tinham fracassado. Segurei seus dedos através da grade e o beijei de novo. "Me dê um pouco do seu pelo", disse. (Ele chamava meu cabelo de "pelo" e minhas mãos de "patas". E me dera o apelido de Chinchila). Arranquei um pouco dos meus cabelos e os passei pela porta. Ele os colocou na boca. "Agora tenho um pedaço de você dentro de mim."

Jonathan olhou para o relógio. Colada ao relógio havia uma minúscula foto de nós dois. Agora era o tempo que o governava, cada segundo.

– Ei, vamos viver este momento. Estou aqui com você.

– Sonhei com você, ele disse, sorrindo. Se eu estivesse aí fora, nós teríamos um monte de pequenas Lilys correndo por aí.

– O tempo acabou, interromperam os guardas.

– Vão pro inferno, respondi, e me virei para Jonathan. Você poderia conseguir um adiamento. Falaram isso nos jornais; por causa do mau tempo você poderia conseguir um adiamento da execução.

– Não aposte nisso, meu amor.

– Dona, você precisa ir mesmo, interromperam os guardas novamente.

Subi na cadeira para beijá-lo pela última vez, mas não alcancei seus lábios. Os guardas me levaram embora pelos braços. Os olhos dele se encheram de lágrimas. Voltei para o carro e tive a sensação de que o mundo inteiro tinha desabado ao meu redor.

Mais tarde, a família e os amigos de Jonathan se reuniram na "casa da hospitalidade", mantida por cristãos, onde o capelão falou sobre o que nos esperava como testemunhas de uma execução. Abracei Devon. Choramos enquanto o capelão descrevia o procedimento com detalhes macabros. Na parede, havia fotos de todas as pessoas que haviam sido executadas no Texas nos últimos 20 anos. A última foto era a de Carlos Granados, morto uma semana antes.

Um telefone tocou. Era Jonathan: "Foi tão bom beijar você, cabeludinha". Ao ouvir sua voz, um sorriso iluminou meu rosto. Só conseguimos falar umas bobagens. Esqueci o que conversamos.

– O que acontece depois da morte?

– Vou descobrir.

O telefone passou de mãos em mãos. Fui ao banheiro chorar. E o telefone acabou voltando para mim. "Preciso desligar logo", disse, e ficou quieto. "Quero que você saiba que entrou em minha vida no momento mais perfeito. Não poderia esperar uma mulher melhor para mim. Sem você, teria morrido sozinho, incompleto."

– Prometa que a gente vai se ver mais uma vez. Depois desta noite. Você acredita que vamos poder?

– Acredito, ele respondeu. E disse para eu ficar um tempo em San Antonio com sua família. E para ficar longe da heroína. Mais uma vez disse que me amava. E depois se fez silêncio do outro lado da linha. Foi a última vez que Jonathan Bryant Moore ouviu a minha voz.

Houve uma batida na porta. "Lily, está na hora", disse o capelão. Voltamos para a prisão da execução. Senti enjoo quando chegamos. Passei pelos repórteres, pelas câmeras e por dezenas de policiais que estavam lá, achando que aquilo era "justiça". A polícia de San Antonio tinha fretado um ônibus para a execução de Jonathan. Do outro lado da rua, um grupo de ativistas fazia uma pequena vigília contra a pena de morte.

Havia duas salas para as testemunhas da execução: uma para a família da vítima, e outra onde nós poderíamos ficar. Um telefone tocou. Tive uma falsa esperança: talvez fosse o governador, telefonando para parar aquela loucura. Mas era o diretor da prisão, avisando que estavam nos esperando.

Eu nunca poderia estar preparada para assistir àquilo. Os braços do meu amor foram amarrados, um tubo já estava em sua veia, um lençol branco o cobria até o peito. Doeu ver sua humanidade tão menosprezada, incapaz de se mover, saber que seus últimos instantes estavam sendo gravados e observados. Ele virou a cabeça e olhou nos meus olhos. Sabia que não poderia me ouvir, mas ele leu meus lábios quando eu disse "eu te amo" – e repetiu. Abri meu agasalho para mostrar que estava usando a camisa do seu uniforme de detento em solidariedade. Ele acenou com a cabeça. Perguntaram se ele queria dizer algumas palavras. "Quero", respondeu. Olhou para o outro lado do vidro. "Jennifer, onde você está?", disse, procurando a viúva do policial. Os lábios dele tremeram. "Quero que você saiba que sinto profundamente sua perda. Fiz aquilo por medo, estupidez, imaturidade, não conhecia o homem que matei e só me dei conta do que tinha feito depois de anos na prisão. Sinto por toda sua família e pela minha falta de consideração. Ele não merecia aquilo."

Então ele olhou para mim. "Lily, fique longe da heroína. Faça isso." Disse à família que a amava. "Pare de se autodestruir, Lily", disse mais uma vez. "OK, carcereiro, estou pronto."

Senti tontura. Devon me abraçou com força enquanto eu temia não ser capaz de ficar de pé. Ela sussurrava ave-marias incessantemente. Primeiro foi a anestesia. Jonathan começou a dizer algo mais uma vez, mas sua boca congelou conforme as drogas assumiam o controle do corpo. A segunda droga fez seus pulmões se fecharem, e todos ouvimos um pesado exalar. A terceira parou seu coração.

Tudo durou dez minutos, mas foi uma eternidade para que ele morresse. Os olhos ainda estavam abertos. O tubo se encheu de sangue, e todos engasgamos enquanto sua pele foi perdendo a cor. Senti uma incrível energia atravessar meu corpo enquanto ele morria. Eu o senti morrer.

A morte foi confirmada às 18h21. Cobriram sua cabeça com um lençol e as portas foram abertas. Nós nos demos as mãos e caminhamos no frio da noite, passando pelas câmeras. Vi dúzias de policiais uniformizados agitando bastões luminosos azuis. Devon e eu sentamos no carro em silêncio, olhando pela janela o céu gélido sem estrelas. Eu tinha 20 anos, e tinha acabado de assistir ao homem que amava profundamente ser morto na minha frente.

"Acho que ele está bem", disse Devon, finalmente. "Acho que está com Bobbi." Bobbi era a mãe dele, uma mulher toda tatuada, especialista em sobrevivência na selva e motoqueira, jardineira, descendente de americanos nativos, que acreditava em espíritos e abria a casa e o coração para animais perdidos e crianças abandonadas. Dizem que ela morreu de depressão. Nunca mais foi a mesma depois que trancafiaram o filho. No julgamento, ela disse ao promotor e ao júri que tudo aquilo era mentira. Não a conheci, mas a lembrança dela me ajudou a caminhar quando não consegui mais andar naquela noite. Se existe um outro lado, espero que estejam juntos lá.

Muitas noites não consigo dormir. Fico acordada, com o mesmo sonho triste: Jonathan amarrado na sala de execução, atrás do vidro. Quero tocá-lo, mas não posso.

Em outros momentos sou dominada pela força para continuar, para "deixar de viver ao sabor do acaso e começar a viver com um propósito", como Jonathan diria. E é o que farei. Em nome do menino com uma arma na mão e outra apontada para sua cabeça. Pela menina com picadas de agulha nos braços e cicatrizes no coração. Por nós dois, que encontramos esperança quando ela parecia impossível, e também o amor, após uma vida de erros. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA E AUGUSTO CALIL

* LILY FURY É PSEUDÔNIMO DE UMA ESCRITORA QUE VIVE EM NOVA YORK. ELA ESCREVEU ESTE TEXTO PARA A REVISTA ELETRÔNICA SALON

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