Engenheiro mudou estilo de vida para enfrentar sobrepeso

Engenheiro mudou estilo de vida para enfrentar sobrepeso

"Eu era rato de padaria", relembra João Sabadell, 53 anos

Estêvão Azevedo, O Estado de S. Paulo

14 Novembro 2016 | 07h00

Até os dez anos de idade, o paulista João Alberto Sabadell da Silva pesava o que se esperava para um garoto de sua idade. Magricelo, até, como é comum a moleques saudáveis e felizes. A partir dali, no entanto, teve início uma luta severa dele contra a balança, e que se estenderia pela vida toda, com desdobramentos sérios para a saúde do engenheiro químico, hoje com 53 anos. Sabadell transformou-se em um "gordinho sedentário" - como ele próprio define - ainda na adolescência, e viu os 86 kg da juventude se transformarem em perigosos 136 kg.

Ele conta que a escalada foi gradativa e aconteceu praticamente ao longo de uma década. Aos 25 anos, quando subiu ao altar com a mulher, ele pesava 86 kg. "Voltei da lua de mel com 91 kg", relembra ele, que admite ter apelado, inclusive, para soluções malucas, daquelas que prometem resultados milagrosos em curtos períodos de tempo. "Fiz todas as dietas que você pode imaginar. Existia uma que a gente ia a uma clínica e tomava injeções na barriga. Cheguei a perder 5 kg em uma semana".

Segundo Sabadell, em março de 2001 ele atingiu seu limite emocional e se deu conta de que, na batalha do peso, ele não tinha mais como ser o vencedor. Acabou optando pela cirurgia bariátrica - também chamada de gastroplastia ou redução do estômago. "Era a única saída. Caso contrário, não estaria aqui conversando com você", admite. Após breves reuniões e a aprovação do convênio médico, o engenheiro submeteu-se à operação em março de 2001, quando já ultrapassava a barreira dos 130 kg. "Quase não houve preparo. Prefiro as coisas mais rápidas e simples", explica.

Como os médicos mencionavam que havia 1% de chances de óbito na mesa de cirurgia, Sabadell confessa que sentiu medo de morrer. Mas, seguindo o prognóstico dos 99% restantes, ele sobreviveu e deu início à reeducação alimentar obrigatória após este tipo de procedimento médico. Ao longo de um mês, só tinha autorização para ingerir líquidos e, no máximo, alguns tipos de papinhas. Aos poucos, evoluiu para uma alimentação sólida, mas não sem contratempos comuns a pacientes de gastroplastia.

"Muitas vezes, entupi o anel e provoquei vômitos", conta, referindo-se à peça plástica de silicone que, após instalada durante a operação, comprime o estômago, reduzindo-lhe o tamanho e forçando a mudança nos hábitos. "Mas o organismo se adapta rapidamente à falta de comida. E você perde peso durante um ano, e estabiliza". No caso dele, demorou apenas três meses até que começasse a emagrecer sensivelmente, chegando, com satisfação, aos 88 kg um ano após ter encarado o centro cirúrgico. 

Aos 49 anos, largou definitivamente o cigarro, depois de várias tentativas anteriores - "força de vontade", atribui. Aprendeu técnicas de ingestão de líquidos junto com a comida durante as refeições, o que, segundo ele, "facilitava a passagem do alimento pelo anel". Não precisou apelar para dietas, e foi tocando a vida de maneira otimista, ao lado da família, que ele define como seu "porto seguro". 

Quando tudo parecia ir bem, no entanto, Sabadell se deparou com uma surpresa. Dois anos atrás, seu peso estava estabilizado em 100 kg, mas seus exames, infelizmente, apontavam que sua saúde estava em risco novamente. "Fui diagnosticado com pré-diabetes, pois estava com quase 105 de glicemia. Durante alguns meses, me afastei da médica, deixei de tomar a medicação e minha glicemia, então, foi a 130, e meu peso, a 105 kg", revela.

Há poucos dias, o engenheiro recebeu outro diagnóstico definitivo de diabetes tipo 2, forma da doença responsável por 90% dos casos no mundo, e que afeta a forma como o corpo metaboliza a glicose, principal fonte de energia do corpo. Neste 14 de Novembro, celebra-se o Dia Mundial do Diabetes, quando organizações do mundo todo procuram aumentar a conscientização da população em relação à doença. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, atualmente existem 422 milhões de diabéticos no mundo, sendo que a obesidade é um dos maiores fatores de risco.

"Nem todo obeso tem diabetes, mas eles têm, sim, uma chance muito maior de desenvolver a doença", confirma Levimar Rocha Araújo, vice-presidente nacional da Sociedade Brasileira de Diabetes e professor de Fisiologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. "O sobrepeso está relacionado a uma resistência à ação do hormônio insulina, que coloca a glicose para dentro da célula. Quando a pessoa tem essa gordura, sobretudo na região abdominal, ela entope esses receptores, dificultando a entrada da glicose. A obesidade centrípeta aumenta essa resistência e, consequentemente, o pâncreas terá que trabalhar mais, podendo levar ao diabetes".

Sabadell conta que, logo que recebeu a notícia dos médicos, teve como primeira reação sentir-se frustado e aborrecido. No entanto, decidiu que conviver bem com a doença e cuidar de sua saúde eram decisões que estavam apenas em suas mãos, de modo que optou por adaptar-se à nova rotina e aceitar as mudanças que seriam necessárias daqui para frente. Deu início a uma programação de alimentação saudável, e, em 15 dias, livrou-se de 15 kg.

"Cortei o açúcar branco, parei de comer doces em excesso e de me alimentar fora dos horários. Era rato de padaria. Comia pão de queijo todo final de tarde", enumera. "Agora, almoço e janto salada com proteína, como pão integral e café com leite no café da manhã. Só como doces diet e bebidas diet só tomo em pequenas quantidades, aos finais de semana ou em eventos. Pratico spinning e musculação três vezes por semana e, quando vou para a praia, ando de bicicleta por uma hora. Ganhei 1,6 kg de massa magra, e perdi quase 3,6 kg de gordura".

Araújo explica àqueles que se preocupam em evitar doenças como o diabetes que um estilo de vida saudável, a exemplo do que o engenheiro adotou após o diagnóstico, já são um bom caminho na prevenção. "Pessoas que têm história de diabetes na família, ou que possuem outras comorbidades como hipertensão e sobrepeso, além de mulheres que tiveram bebês com mais de 4 kg, ou abortos inexplicáveis têm mais chances de desenvolver o diabetes. Uma maneira de prevenir a doença é se alimentar na hora certa, praticar atividade física por ao menos 150 minutos semanais, reduzir do peso e distribuir a ingestão de alimentos saudáveis ao longo do dia".

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