Entenda a crise no Paquistão

Presidente Musharraf declarou estado de exceção e suspendeu Constituição.

BBC Brasil, BBC

28 de novembro de 2007 | 09h15

O Paquistão vive uma crise política desde que o presidente Pervez Musharraf decretou um estado de emergência no país no dia 3 de novembro.Musharraf permitiu que o ex-premiê Nawaz Sharif retornasse do exílio para o Paquistão e Benazir Bhutto, outra ex-premiê, já estava de volta ao país desde outubro.Veja abaixo uma lista de perguntas e respostas preparadas pela BBC para explicar a situação no Paquistão e o significado das medidas adotadas pelo governo.Pervez Musharraf permitiu que seus dois principais adversários políticos voltassem ao país num momento em que o presidente paquistanês enfrenta pressões domésticas e de outros países.Correspondentes afirmam que a decisão de encerrar o exílio de sete anos de Sharif parece ser uma medida para reduzir as chances eleitorais do partido de Benazir Bhutto, o Partido do Povo do Paquistão (PPP), o maior do país, nas próximas eleições.Sharif, o primeiro-ministro derrubado do poder pelo general Musharraf em 1999, foi enviado ao exílio no ano seguinte. Ele tentou voltar para o Paquistão recentemente, em setembro, mas foi deportado.No mês de setembro Musharraf ainda estava negociando um acordo de divisão de poder com Bhutto.Observadores afirmam que o governo do país teme que Bhutto conquiste poder demais e precisa que Shariff impeça que o PPP consiga muitos votos na província do Punjab, que é importante no quadro eleitoral do país.Outras informações afirmam que a Arábia Saudita, onde Shariff estava exilado, pressionou Musharraf para que permitisse sua volta.São a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, o ex-premiê Nawaz Sharif e o juiz suspenso da Suprema Corte Iftikhar Chaudhry.Bhutto, que governou o país de 1988 a 1990 e de 1993 a 1996, foi considerada como um símbolo de modernidade e democracia do país ao ser eleita premiê, mas depois disso sofreu acusações de corrupção.Ela retornou ao Paquistão no dia 18 de outubro depois de um exílio voluntário de oito anos prometendo restaurar a democracia e liderar seu partido, o PPP (Partido do Povo do Paquistão) nas eleições parlamentares previstas para janeiro.O PPP vinha negociando com assessores de Musharraf, e alegações de corrupção contra Bhutto foram arquivadas - um passo vital para suas ambições de voltar a ser primeira-ministra. Atualmente, um acordo entre Bhutto e Musharraf parece estar paralisado.Bhutto se opôs publicamente à suspensão da Constituição e, por duas vezes, foi colocada em prisão domiciliar, para que ela não liderasse manifestações do PPP.Nawaz Sharif, que também foi premiê durante dois períodos (1990-1993 e 1997-1999), foi derrubado em um golpe de Estado liderado pelo general Musharraf em 1999.Sharif foi preso e deportado do Paquistão em setembro passado, pouco após retornar ao país de seu exílio de sete anos na Arábia Saudita. O ex-premiê contestou a deportação na Suprema Corte do Paquistão, que havia antes decidido que ele tinha o direito de voltar ao seu país.Ao contrário de Bhutto, que buscava uma negociação com Musharraf, Sharif organizou uma aliança de partidos de oposição para enfrentar Musharraf, reemergindo assim como uma figura de importância na política local.O juiz Itfikhar Chaudhry havia ganho elogios por sua bravura como o primeiro magistrado a enfrentar e vencer um governo militar.Musharraf tentou suspendê-lo em março, mas a decisão provocou uma onda de protestos de advogados e partidos de oposição. A Suprema Corte determinou que ele fosse reencaminhado ao cargo.Chaudhry acabou sendo afastado novamente após a decretação do estado de emergência.Muitos observadores dizem que sua batalha legal com o governo militar deixou o judiciário mais independente e advogados cada vez mais unidos em suas exigências para a restauração do Estado de direito.O presidente suspendeu a Constituição por conta do que classificou como "ameaças" que a nação enfrenta. Ele justificou a medida citando níveis supostamente sem precedentes de violência promovida por extremistas islâmicos. O estado de exceção foi decretado no dia 3 de novembro.Mas analistas avaliam que seu principal objetivo teria sido atingir o Judiciário, a quem Musharraf acusa de interferir nas políticas do governo e de enfraquecer a luta contra os extremistas.A Suprema Corte havia anunciado em 2007 várias medidas contra o governo, o que já havia levado o presidente a tentar suspender o juiz da Suprema Corte Iftikhar Chaudhry, em março.Outra questão importante é o fato de que a Suprema Corte estava prestes a anunciar um veredicto em sua análise sobre a legalidade da reeleição de Musharraf à Presidência, em outubro. Havia o temor de que o tribunal anunciasse uma decisão contra ele, cancelando sua reeleição.Após decretar o estado de emergência, Musharraf disse que manteria a realização das eleições parlamentares em janeiro, como estava inicialmente programado.Milhares de advogados, juízes e políticos de oposição ao governo foram detidos e a imprensa foi censurada. O governo afirma que mais de 3 mil detidos foram libertados. Mas muitos ainda estão presos.Como era esperado, a medida foi universalmente condenada pelos rivais políticos de Musharraf no Paquistão, que acusam o presidente de desrespeitar a constituição.Fora do país, a reação também foi negativa, mas mais sutil. Tanto os Estados Unidos quanto a Grã-Bretanha manifestaram preocupação com os desdobramentos, afirmando que gostariam de ver eleições livres e limpas no Paquistão.Mas os dois governos também acham que Musharraf ainda é a melhor aposta para combater os extremistas no país, e de acordo com analistas, é improvável que isso mude no curto prazo.Os Estados Unidos têm uma grande influência sobre o Paquistão, pois vem injetando no país milhões de dólares desde que Musharraf se juntou à chamada "guerra contra o terror", lançada pelo governo americano depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.Mas os Estados Unidos têm dado sinais de preocupação com a instabilidade política no Paquistão, com a incapacidade das forças do governo na luta contra militantes islâmicos e com as contínuas alegações de que militantes usam o Paquistão como base para atacar soldados americanos e de outros países que estão no Afeganistão.Alguns analistas acreditam que a preferência de Washington é que Musharraf continue no controle das operações militares no Paquistão dentro de um governo liderado pela ex-primeira-ministra Benazir Bhutto.O presidente deve muito de sua influência do Exército, que domina as instituições no Paquistão e, com isso, a política no país.Observadores estão atentos para tentar detectar possíveis sinais de divisões no apoio do Exército a Musharraf.Membros dos serviços de inteligência são acusados de apoiar militantes pró-Talebã e de estarem insatisfeitos com a política do país para a região da Caxemira, disputada com a Índia.Musharraf deixou o comando das Forças Armadas do país. Como líder civil, Musharraf ainda terá grande poder, inclusive o de destituir um governo civil.Segundo correspondentes da BBC no Paquistão, ainda não está claro quando Musharraf irá pôr fim ao estado de emergência decretado no dia 3 de novembro.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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