Entre gourmets, críticos e receitas

Um gourmet flana por Tóquio. Um crítico de restaurantes prestes a dar seu último suspiro sonha com um sabor. Um autor tomado por inspiração diabólica escreve um dicionário culinário, só de mentiras. Esse tipo de leitura dá uma fome...

25 Junho 2009 | 10h21

O GOURMET SOLITÁRIO VAGUEIA COMENDO POR TÓQUIO Ele não é um herói, trata-se de um ocidental comum, terno e gravata banais e fisionomia neutra. Em cada episódio destas aventuras o homem, um importador, aparentemente com muito tempo livre, flana por bairros e restaurantes de Tóquio e arredores. Parece ter sempre "a barriga vazia", preocupa-se com o valor das contas e, embora aprecie a comida, não mostra enorme entusiasmo nem decepção. É mais um guloso que um gourmet. Não bebe álcool, por não gostar, e está sempre com um certo deslocamento social, olhando a sociedade de fora. Sem dramas, termina achando tudo "gostoso". Apesar de um clima de expectativa, cada refeição acaba singelamente, ele paga, vai embora. Só que a repetição e a "aventura" (que o autor Taniguchi descreve no posfácio, como a imensa coragem necessária para entrar num ambiente desconhecido, como são restaurantes e bares) causam, sim, emoção. A estranheza do personagem, seu desconforto na paisagem, sua aparente falta de estímulos que não sejam os da fome, transformam o mangá numa história moral e pedagógica, mostrando em detalhes de desenhos esquemáticos, pratos fascinantes. Os elementos aparecem com vagar, a namorada deixada em Paris (será ele francês?), a igualmente vaga natureza do seu trabalho, o tédio da repetição no seu cotidiano. O senhor Inogashira (seu nome real? Mas ele não é japonês!) é um homem misterioso no modo existencial e não épico. Talvez todo livro sobre comida seja um romance policial, mesmo que não haja assassinato, violência ou ação. Gourmet, Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi, Ed. Conrad, R$ 24,90. COZINHA DE SIMPLICIDADE E SABOR Receitas da Mazzô (Bei, R$ 30) não tem capa dura, fotos coloridas e visual modernoso. Dispensa introduções palavrosas e vale-se de uma apresentação carinhosa e direta, assinada pela culinarista Bettina Orrico. A partir daí, é só virar a página para ter a sensação de estar na cozinha da Mazzô França Pinto. Cozinheira experiente, ela sabe que é preciso ter na cabeça, antes de encarar a receita e começar a cozinhar, alguns elementos básicos, que, de tão básicos, escapam facilmente. Tudo bem, aqui está Mazzô para lembrar que refogar cebola e alho na gordura ainda fria intensifica aromas e sabores. Que a massa folhada abre em número maior de camadas se for ao forno gelada. E que frutas como abacaxi e kiwi só deixam a gelatina endurecer se tiverem sido rapidamente fervidas.Pragmática, ela tampouco esqueceu a tabela de equivalências de pesos e medidas. Afinal, quanta gente já desistiu de cozinhar por não saber exatamente quanto pesa 1/4 de xícara de farinha de trigo? Publicado originalmente em 1998, esse livro é dirigido a quem realmente quer cozinhar. As 83 receitas são divididas por capítulos dedicados a aperitivos, sopas, entradas frias, ovos, molhos para massas, tortas e acompanhamentos, carnes, aves, frutos do mar e sobremesas. Todas as receitas - dos aperitivos aos pratos mais elaborados - são muito bem descritas. Algumas receitas são bastante simples e extremamente convidativas, como é o caso do suflê de pão e das trouxinhas de espinafre com ricota. Em quase toda a receita, uma notinha de rodapé ajuda a substituir ingredientes e dá dicas preciosas do gênero: acompanhe o picado com cebolinha e nozes ou com cenoura e couve-de-bruxelas. Ou, se não quiser usar o vinho do Porto na receita de peito de pato, experimente substituir por suco de pitanga. OS SABORES FINAIS DO "CRÍTICO" Não é um spoiler, mas como o título diz, o gourmet vai morrer. Sua biografia é o tema do livro, contada por algumas de suas "vítimas", a mulher ainda apaixonada, os filhos brutalizados por seus humores agressivos, o gato, chefs exaltados ou destruídos por suas idiossincrasias. O personagem, o mais poderoso crítico da França, está ocupado demais para ouvir estas vozes, está morrendo e quer recuperar o sabor mais decisivo da sua vida, o que teria marcado a existência nas boas mesas. A reflexão com tintas filosóficas é meio pesada, palavrosa demais, fosse uma receita, teria demasiado chantilly. A autora exagera na piada única, que demora muito a contar e nem tem tanta graça. Há boas frases sobre a tarefa de escrever críticas, como a melancólica constatação: "degustar é um ato de prazer, descrever este prazer é um fato artístico, mas a única verdadeira obra de arte, definitivamente, é o festim do outro". A Morte do Gourmet, Muriel Barbery, Cia. das Letras, R$ 32. NESSE DICIONÁRIO É TUDO MENTIRA O projeto original do escritor canadense Barry Foy era escrever uma paródia dos livros de receitas com um pequeno dicionário. O autor começou pelos verbetes e mostrou aos amigos. O sucesso foi tamanho que ele desistiu das receitas e embarcou de vez no glossário. Assim surgiu o livro The Devil’s Food Dictionary - A Pioneering Culinary Reference Work Consisting Entirely of Lies (Frogchart Press; www.amazon.com, 17 dólares). Declaradamente inspirado no Dicionário do Diabo, obra cáustica do americano Ambrose Bierce (1842-1914) - ele próprio um bom garfo que considerava os molhos "um infalível sinal de civilização" -, o livro de Foy tem mais de mil verbetes culinários, todos eles muito mentirosos, sarcásticos e engraçados. No final, o autor esclarece: "Nenhum mangostin foi machucado durante o processo de escrita, impressão e venda deste livro." Traduzimos, com exclusividade, alguns verbetes. À mesa, boas maneiras Um convidado gentil irá comer o que estiver diante dele. Se o prato é absolutamente intolerável ou representa uma ameaça à saúde, ele poderá, discretamente, virar a cadeira alguns centímetros, à direita ou à esquerda, até que o prato não esteja mais diante dele. Chef, celebridade Um chef competente, cuja comida atingiu preços tão altos, é forçado a apresentar séries de TV, aparecer em cruzeiros gastronômicos e abrir restaurantes em Las Vegas para evitar a estagnação dos lucros. Acredita-se que chefs celebridades façam sexo com mais frequência que chefs comuns. Expresso Café preto muito forte servido em pequenas porções. "Espresso" vem do italiano e quer dizer "entrega especial", assim batizado porque a única maneira que norte-americanos têm de obter uma xícara decente de café é fazer alguém enviar a bebida, muito quente, diretamente de Bolonha.

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