Entre paus e pedras

Entre paus e pedras

Artigo originalmente publicado no Estadão Noite

Wagner de Melo Romão, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2014 | 13h03

Tem sido uma campanha dura. E já se tornou lugar-comum dizer que é a mais competitiva desde 1989, quando muitos de nós não éramos nascidos ou não havíamos despertado para a política. Aparecimento de uma terceira via, queda do avião e morte de Eduardo Campos, reforço da terceira via na candidatura fulminante de Marina Silva, fim do PSDB com Aécio em um distante terceiro lugar, desconstrução de Marina, desempenho impressionante de Aécio em São Paulo, reposição da polarização PT x PSDB: tudo aconteceu muito rápido e tudo foi especialmente intenso pela velocidade com que as notícias se avolumavam nos canais de TV e rádio, mas, sobretudo, nas telas dos computadores, tablets e smartphones.

No Brasil de 2014, cerca de 86 milhões de pessoas têm acesso à internet em sua residência e/ou em seu local de trabalho, segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil. Onde estas pessoas estão conectadas? Nas redes sociais, é claro! 77% dos usuários de internet a utilizam para acessar redes sociais, sendo que o Facebook é a preferida por mais de 90% destes. Isto é, certamente mais da metade dos eleitores brasileiros, especialmente aqueles mais jovens, mais escolarizados e de melhor renda, utilizam-se da rede para se comunicar uns com os outros.

O Facebook - certamente o leitor o sabe - é um mecanismo eletrônico pelo qual você se aproxima de pessoas que fizeram ou fazem parte de sua vida: seus amigos da escola, do pré-primário ao ensino médio ou à faculdade; seus primos e tias desde há muito não visitados; a turma do futebol; o pessoal da “firma”... Todos se reúnem desorganizadamente em sua timeline sem a menor cerimônia. Ali não há espaço para a ética familiar, aquela em que, por exemplo, não se pode discutir política na hora do almoço de domingo. Não há o decoro das hierarquias das empresas ou dos escritórios. Todos se acham abrigados pela intimidade de seu próprio terminal de rede e todos os freios que sustentam a vida em comunidade são suprimidos em compartilhamentos de imagens, vídeos e na desmedida do uso ilimitado de caracteres.

O que acontece em tempos de eleições tão competitivas e polarizadas como as que estamos vivendo? O Facebook se transforma em um depositório dinâmico de... propostas e debates sobre modelos de país? Infelizmente, não tem sido assim. Em tempos de tuítes de 140 caracteres, a alta velocidade de leitura nas telas dos smartphones e tablets não comporta textos mais densos e extensos. Para que programas de governo quando os memes dão conta de destruir os adversários? 

As redes sociais e a utilização que as equipes de marketing eleitoral e os militantes têm feito delas parece ter transformado as eleições. Por um lado, para melhor: antes do advento do Facebook, pouco sabíamos das preferências político-partidárias de nossos amigos, colegas de trabalho, parentes próximos e distantes. A campanha eleitoral, se está morna nas ruas, apresenta temperaturas elevadíssimas nas redes, sobretudo após os debates eleitorais. As informações sobre as candidaturas têm o potencial de atingir milhares, até milhões de internautas. Basta curtir e compartilhar!

Mas, por outro lado, o nível do debate é bastante baixo, raso mesmo. Poucos são os mártires que apontam diferenças de conteúdo entre as duas candidaturas. Poucos são aqueles que apresentam uma argumentação coerente sobre por que votarão em Dilma ou Aécio. Sempre haverá espaço para serem tachados de coxinhas ou comunistas por seus amigos ou parentes. As famílias entram em crise, os amigos não se falam mais, crescem as taxas de bloqueio e exclusão no Facebook.

Parece que no debate do SBT os candidatos frente a frente confraternizaram com o vale-tudo das redes sociais. Os ataques pessoais, a competição para se ver a quem cola mais a pecha da corrupção, as ironias, os golpes baixos, os dedos em riste: se a estratégia é “desconstruir” os adversários, de que vale a disputa por ideias, concepções de mundo, princípios, programas? O que os levará aos trend topics?

O debate público sobre as eleições e sobre a política precisa se esforçar para se colocar acima do senso comum, acima do debate raso, acima dos preconceitos, acima da intolerância. Parte das pessoas que conheço tem se afastado das redes sociais, por se recusar a cair no jogo fácil do denuncismo sem embasamento nos fatos ou das opções feitas a quente, em que as análises mais frias são substituídas pelo preconceito e pelos chavões dos marqueteiros. Trata-se, de certo modo, de um desafio civilizacional: como fazer e discutir política em tempos de Facebook, sem que precisemos de paus e pedras para nos agredir. 

* Wagner de Melo Romão é professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp

Mais conteúdo sobre:
Estadão Noite

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.