Entre rosas, Shakespeare e iPods

A revolucionária contratação de professores de inglês terá impacto decisivo não só na língua, mas nas escolas, política e sociedade da Geórgia

Felix Marquardt e Raphael Gluksman,

29 de janeiro de 2011 | 16h00

Em 2003, a Revolução das Rosas levou uma nova geração ao comando da pequena República Caucasiana da Geórgia. Os jovens que derrubaram a elite governante pós-soviética, homens e mulheres na maioria no início dos 30 anos, ou ainda mais jovens, tinham como objetivo transformar o país (parte de uma região conhecida pela corrupção e por abastecer as fileiras da KGB) num laboratório de reformas políticas de nível internacional.

Esses ativistas georgianos haviam estudado principalmente em universidades europeias e americanas e eram quase todos poliglotas. O que levou comentaristas do Ocidente a denominar seu governo - por simpatia ou ironia - "o governo Erasmo", aludindo ao programa da União Europeia que financia os estudos de jovens europeus no exterior. Tendo herdado um país falido, ao assumirem seus cargos eles lançaram um espetacular programa de reformas.

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Demitiram num único dia toda a polícia de trânsito; substituíram todos os funcionários da alfândega; baixaram os impostos em 60%; multiplicaram por dez a receita; e trataram sem piedade a máfia (a Geórgia fora chamada "a Palermo da União Soviética"). Promoveram um programa de ação afirmativa num país em que as tensões étnicas e religiosas eram enormes e começaram a descentralizar o poder (uma decisão recente foi transferir o Parlamento da capital, Tbilisi, para a segunda maior cidade do país, Kutaisi). Concederam autonomia à direção das escolas, que passou a ser eleita.

Evidentemente, cometeram erros - a ordem era arriscar. Mas graças às reformas, a polícia da Geórgia é a terceira menos corrupta do mundo, segundo a Transparência Internacional, e o país foi considerado pelo Banco Mundial o mais reformista no campo da economia, de seis anos para cá - subiu do 147º para o 12º lugar como nação com a qual é interessante fazer negócios. Em análise recente do "laboratório georgiano", a revista britânica The Economist rotulou as mudanças no país como nada menos que "revolução mental".

A última ideia do jovem "governo Erasmo" é talvez a mais estranha: o lançamento do programa Ensinar e Aprender com a Geórgia (EAG), que prevê a contratação de milhares de professores estrangeiros de língua inglesa para todo o país. O programa já atraiu mais de 1.000, e até setembro, as autoridades esperam que outros 500 estejam dando aulas, atendendo todas as escolas. Esses professores moram com famílias georgianas, não pagam aluguel e recebem um salário mensal de cerca de US$ 275. Quase todos são provenientes de países ricos do Ocidente e claramente motivados pela generosidade ou pelo gosto da aventura. Uma forma de messianismo, diriam os críticos. Um sentimento de universalismo, diríamos nós.

O projeto vai muito além do aprendizado da língua de Shakespeare, a língua franca destes tempos globais. Ele visa a introduzir novos métodos e processos mentais em um sistema de educação que ainda luta para superar o legado soviético da verticalidade, a decoreba e o autoritarismo. Se o objetivo de chamar 10 mil professores nos próximos três ou quatro anos for alcançado, terá um impacto decisivo não apenas nas escolas, mas também na vida social, cultural e política dos lugares mais remotos dessa nação montanhosa de 4,5 milhões de habitantes.

Enquanto a ameaça da xenofobia cresce na Europa e em outros lugares, a Geórgia é um exemplo de otimismo e abertura. Num país que foi invadido em 2008 - 20% do território georgiano continua ocupado por tropas russas -, a mensagem do programa EAG é eloquente: recebemos os estrangeiros que venham com iPads e livros escolares, não com Kalashnikovs e tanques.

Como toda inovação social e pedagógica, o programa gerou certa preocupação, principalmente nos círculos conservadores. Mas nós a consideramos um novo motivo para prestar atenção ao laboratório georgiano de reformas. O falecido primeiro-ministro georgiano Zurab Zhvania disse certa vez: "Sou georgiano, portanto, europeu", mostrando o desejo do povo georgiano de fazer parte da família europeia e da comunidade transatlântica. A Geórgia da atualidade quer dar um sentido ainda mais amplo a essa afirmação, declarando: "Somos cidadãos do mundo, portanto somos georgianos". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Felix Marquardt é fundador e presidente do Fórum Glbal The Atlantic Dinners

Raphael Glucksman é conselheiro do presidente georgiano, Mikheil Saakashvili

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