Entre tapas e beijos...

Faço aqui, publicamente, um apelo a Ana Maria Moretzsohn, autora da novela Luz do Sol (Record): acabe com a paz entre Tom e Verônica! Os personagens vividos (bem) por Petrônio Gontijo e Paloma Duarte passaram capítulos e mais capítulos rosnando um para o outro - e era ótimo assistir a cenas que lembravam os filmes dos anos 40, com diálogos mordazes, rápidos, certeiros. Agora, estão no maior love, abraços e beijinhos sem ter fim. E sem graça. Que se espalhe a cizânia entre Verônica e Tom, com urgência.Porque, em novela - e só em novela -, casal bom é casal que bate boca, arma um barraco, dá vexame. Tudo bem, a gente está careca de saber que eles vão trocar um beijão definitivo lá pelo segundo bloco do último capítulo, mas o que interessa é vê-los feito gato e rato ao longo de centenas de dias.Pense nos casais mais legais das novelas brasileiras. Julião Petrúquio (Du Moscovis) e Catarina (Adriana Esteves) fizeram muita gente rir com suas confusões em O Cravo e a Rosa (2000/2001). Paulo Autran e Fernanda Montenegro protagonizaram aquela que talvez seja a cena mais hilária das novelas, o café da manhã totalmente pastelão de Guerra dos Sexos (1983/1984). Atualmente, temos vários outros casais beligerantes. Gabriela Duarte e Marcelo Novaes trocam farpas em Sete Pecados. Marco Ricca e Isabela Garcia também não deixam pedra sobre pedra em sua relação tumultuada, em Paraíso Tropical.Por que será que a gente gosta tanto desses bate-bocas? Em geral, eles são bem escritos, o que facilita muito. Os textos são venenosos, as provocações são ilimitadas. E eles conseguem aquilo que nós, nas nossas vidinhas comuns, nunca conseguimos: a resposta certa e arrasadora, no calor do momento. Morremos de inveja desses tons e jerrys, porque sabe-se que, depois de tanto bafafá, vai rolar um beijinho bacana. Casais briguentos não nasceram na TV. Aristófanes já tinha os seus, em Lisístrata, escrita quatro séculos antes de Cristo. Shakespeare mandou ver em Muito Barulho por Nada e A Megera Domada (fonte de O Cravo e a Rosa). E o final, sempre feliz. Claro. Essa história de casal que briga e sai cada um chorando pra um lado só dá certo em novela do Manoel Carlos.

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