ENTREVISTA-A.Latina precisa de nova estratégia antidrogas--FHC

A América Latina precisa ir alémdas fracassadas políticas antidrogas dos EUA e encontrar umanova estratégia contra o narcotráfico, que já chega a ameaçar ademocracia na região, disse na quarta-feira o ex-presidenteFernando Henrique Cardoso. Em entrevista à Reuters, ele afirmou que o aumento noconsumo de drogas no Brasil e em outros países é mais uma razãopara que haja uma melhor cooperação regional e políticasvoltadas para soluções que vão além do binômiorepressão/punição. "[A política antidrogas dos EUA] não está bem-sucedida.Estão gastando cada vez mais, e os resultados são frustrantes",disse FHC, de 76 anos. O foco principal da política antidrogas dos EUA é prender eextraditar grandes traficantes e tentar impedir a produção decocaína nos países andinos. "Não estou dizendo que é necessário parar a repressão.Precisamos controlar, mas não basta", disse o ex-presidente."Não é só uma questão da dependência de drogas, é também umproblema político, porque está ameaçando a crença nasinstituições." Apesar dos bilhões de dólares em ajuda dos EUA para ocombate às drogas nos países latino-americanos, o fluxo decocaína e outros narcóticos em direção ao mercadonorte-americano permanece praticamente inalterado. Na opinião de especialistas, o narcotráfico é uma ameaça àsegurança nacional dos países produtores e intermediários --como demonstram as guerras entre quadrilhas no norte do Méxicoe no Rio, e a atividade da narcoguerrilha Farc na Colômbia. Além disso, as redes do narcotráfico são cada vez maisinternacionais -- quadrilhas mexicanas já fincaram bases noPeru e Bolívia, por exemplo --, em parte para atender à demandainterna de países como Argentina e Brasil. "É hora de desenvolver uma política latino-americanaadequada, desligada da ideologia que foi comum na última décadapor parte dos EUA", disse Martin Jelsma, especialista emnarcotráfico no Instituto Transnacional, da Holanda. "Pode ser um bom momento para tentar, porque politicamentehá mais distância agora numa parte cada vez maior da AméricaLatina em relação às políticas dos EUA e à dominação dos EUA emgeral", acrescentou. Fernando Henrique disse que a América Latina pode aprendercom a abordagem de alguns países europeus, que enfatizam asaúde pública e o tratamento da dependência. "Eles têm umconjunto diferente de alternativas", disse. O ex-presidente disse ainda que a atitude da opiniãopública precisa mudar, já que na América Latina os dependentese as pessoas ligadas ao tráfico costumam ser demonizadas pelapolícia e a imprensa. Neste mês, depois de uma ação contra traficantes que deixounove mortos, um comandante da PM fluminense disse que o Bope(força especial) é "o melhor inseticida social" que existe. Adeclaração teve pouca repercussão na imprensa brasileira. "A mídia tem um papel importantíssimo, não só em salientara violência, mas em apresentar alternativas, em motivar aspessoas a se comportarem com solidariedade em relação aosdependentes de drogas", disse Fernando Henrique. Ele discursou durante a reunião inaugural, no Rio, daComissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. O eventoteve também a participação dos ex-presidentes César Gaviria(Colômbia) e Ernesto Zedillo (México, por videoconferência). O objetivo do encontro é definir uma posição conjunta daAmérica Latina em relação ao narcotráfico, a ser levada parauma reunião da ONU em 2009 que vai avaliar os esforços nestecampo na última década. "A questão para nós é se há uma perspectivalatino-americana diferente, não para substituir [a dos EUA],mas para ser acrescida à discussão nas Nações Unidas", afirmouo ex-presidente.

STUART GRUDGINGS, REUTERS

30 de abril de 2008 | 18h46

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