ENTREVISTA-Brasil obtém resultado inédito com células-tronco

O Brasil desenvolveu pela primeira vez uma linhagem de células-tronco embrionárias, o que deve gerar um impulso no desenvolvimento deste tipo de pesquisa no país, segundo a geneticista que liderou o estudo. A linhagem, grupo de células-tronco oriundas de um único embrião capazes de replicação in vitro, foi alcançada após dois anos de pesquisa na Universidade de São Paulo (USP). A primeira linhagem publicada foi em 1998, nos Estados Unidos. "Não sei ainda, do ponto de vista científico, se isso é um impacto grande. Nossas formas de estabelecer (a linhagem) tiveram pequenas variações do que já foi publicado e ainda vai ser submetido a revistas científicas. Mas acho que o maior impacto disso é dentro do desenvolvimento da área de pesquisa com células-tronco embrionárias no Brasil", disse a geneticista Lygia da Veiga Pereira em entrevista à Reuters na terça-feira. "A gente poder estabelecer as nossas próprias culturas nos dá autonomia para desenvolver essas pesquisas. Uma coisa é você ter colaborações com grupos estrangeiros, que é ótimo. Outra coisa é depender desses grupos. E a gente passa a não depender na medida que agora conseguimos fazer todos os passos, desde estabelecer a linhagem até tem grupos aqui no Brasil trabalhando na produção em grande escala", completou. As células-tronco embrionárias, retiradas de embriões humanos, são capazes de produzir qualquer tipo de célula, e cientistas têm esperança de que a capacidade de transformação dessas células ajude no tratamento de uma série de doenças. O grupo liderado por Lygia tinha conseguido estabelecer células-tronco embrionárias de camundongo em 1999 e começou a pesquisa com humanos em 2006, um ano após a aprovação da lei de biossegurança, que liberou o uso das células-tronco embrionárias em pesquisas ou no tratamento de doenças desde que retiradas de embriões produzidos por fertilização in vitro. A pesquisa na USP, financiada pelos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia, seguiu mesmo com a Ação de Inconstitucionalidade (Adin), impetrada no Supremo Tribunal Federal em 2005, contra as pesquisas com células-tronco embrionárias. Em maio deste ano, o STF aprovou a continuação das pesquisas, e o Brasil tornou-se o primeiro país da América Latina a permitir os estudos com células-tronco. "Como o governo seguiu nos financiando, a gente entendeu isso como um sinal que era para seguir em frente. A gente não parou as pesquisas, apostando na lucidez dos ministros do STF", afirmou a geneticista, acrescentando que seu grupo contou com a "colaboração importante" do grupo da doutora Jeanne Loring, de San Diego, dos Estados Unidos. Lygia Pereira disse que, a partir da linhagem 100 por cento nacional, os grupos que realizam pesquisas com células-tronco partem para novas descobertas. "O que a gente quer fazer agora é uma caracterização molecular mais detalhada dessas células. E também, em parceria, produzir essa célula em larga escala para disponibilizar para outros grupos aqui no Brasil", declarou. "A gente também pretende estabelecer métodos de criar linhagens adequadas para uso clínico... para daqui um ano, dois anos, quando esses testes clínicos já deverão ter começado em outros países, a gente estar pronto para isso aqui no Brasil."

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