ENTREVISTA-Brasil usa crédito contra queda de preço do café

O governo brasileiro planeja aumentar os empréstimos aos produtores de café em uma tentativa de dar suporte aos preços, encorajando-os a estocar os grãos durante a próxima grande colheita, disse uma autoridade em café do Ministério da Agricultura.

PETER MUR, REUTERS

29 Março 2012 | 18h07

O plano é aumentar o empréstimo da principal linha de crédito do governo a produtores de café, com o propósito de evitar uma corrida de vendas no mercado que faria os preços caírem.

Os preços do café recuaram mais de 40 por cento desde que subiram acima de 3 dólares por libra-peso em maio de 2011, quando as preocupações sobre o aperto da oferta e as fortes compras de fundos fizeram o mercado subir.

Apesar da queda, devido a fortes vendas especulativas e expectativas de uma boa safra brasileira, as ofertas continuam apertadas e o consumo permanece em ascensão. Enquanto isso, analistas disseram que as fontes estão criticamente baixas.

O contrato maio do café arábica na ICE atingiu uma mínima de 17 meses, a 1,7445 dólar por libra-peso na semana passada.

O diretor de café do Ministério, Edílson Alcântara, disse que a principal linha de crédito para produtores de café subsidiada pelo governo (Funcafé) vai priorizar empréstimos para estocagem em relação àquelas para custos de colheita e manutenção.

"Queremos que o produtor segure firme e espere por um preço melhor", disse Alcântara. "Queremos controlar esse fluxo. O governo vai estimular o produtor a regular as vendas do produto."

Alcântara disse que a proporção total de empréstimos do Funcafé a ser alocada para armazenamento aumentaria para cerca de 50 por cento, ante cerca de 30 por cento no ano passado. O orçamento do Funcafé e as utilizações finais serão decididos em uma reunião de vários ministérios, em abril.

O Brasil está a apenas seis semanas do início da colheita de alta do ciclo bianual, que vê a produção caindo e aumentando de um ano para o outro.

A estimativa do governo para a safra é de entre 49 milhões e 52,3 milhões de sacas de 60 kg, ante 48,1 milhões na última safra de alta, em 2010/11. Analistas do setor privado e exportadores trabalham com números mais altos.

A linha de crédito Funcafé é dinheiro do governo distribuído através de bancos de varejo aos produtores, a taxas de juros subsidiadas.

O orçamento Funcafé para a safra 2011/12 foi de 2,3 bilhões de reais. Alcântara não forneceu um valor para o orçamento para a próxima temporada, mas o Conselho Nacional do Café solicitou 2,4 bilhões de reais.

Alcântara estava preocupado com a recente influência dos fundos de investimento no mercado cuja posição vendida atingiu o maior nível desde que a Comissão de Trading de Futuros dos EUA tornou esses dados disponíveis, em 2006.

Estas apostas de que os preços futuros do café cairiam têm feito o mercado cair apesar da oferta "precária" e do equilíbrio da demanda.

Ele disse que isso poderia agravar o desequilíbrio na oferta de café, minando o incentivo de preço que os produtores tiveram até recentemente, para investir mais em suas fazendas.

"Se o preço não é atraente para o produtor, ele não vai cuidar de sua plantação e haverá uma escassez de café. O produtor é duramente atingido por esta manipulação", disse ele referindo-se à queda dos preços conduzida pelos fundos.

Entusiasmados pela quase duplicação dos preços em 2010, que persistiu durante a maior parte do ano seguinte, os produtores brasileiros de café têm adubado e pulverizado mais e cuidado melhor de seus campos, disseram as cooperativas.

Ao mesmo tempo, os importadores foram se voltando para o Brasil por arábica de melhor qualidade, com a Colômbia indo de uma má colheita para outra nos últimos anos, principalmente devido ao mau tempo. Isso piorou a visão de Alcântara de que a situação do abastecimento continuará em aperto por algum tempo.

"Você tem os mais baixos estoques mundiais já vistos. Mesmo que o Brasil produza uma colheita muito grande, Colômbia e Vietnã têm problemas de produção, então de modo geral não haverá um grande aumento na produção", disse Alcântara.

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