ENTREVISTA-Crise de alimentos muda luta contra pobreza,diz ONU

Agora que a fome não pode mais ser saciadacom alimentos baratos, os líderes mundiais precisam mudarradicalmente sua estratégia no combate à pobreza, afirmou ochefe da agência da Organização das Nações Unidas (ONU)dedicada ao desenvolvimento da agricultura de pequena escala. Em uma cúpula a ser realizada em Roma, na próxima semana, acomunidade internacional precisa reconhecer que os desafiosimpostos pela pobreza não são mais os mesmos e, em vista disso,acertar uma forma de deixar para trás os anos de negligênciacom os agricultores pobres, disse o chefe do FundoInternacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida). "Eles (os governos e os doadores) tomavam como um fato davida os alimentos baratos e acessíveis oferecidos no mercadointernacional. Nós não podemos mais fazer isso e temos deperceber que estamos diante de um profundo problemaestrutural", disse o presidente do Fida, Lennart Bage, em umaentrevista concedida na noite de segunda-feira. A cúpula, convocada inicialmente para tratar dos efeitosdas mudanças climáticas sobre o fornecimento de comida nomundo, mudou de foco e discutirá agora uma "crise global",segundo as palavras do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon,diante da disparada do preço dos alimentos. Apesar de não se tratar de uma conferência de doadores, oslíderes mundiais presentes devem elaborar um comunicado arespeito de como enfrentar a carência de alimentos. E umaforça-tarefa criada por Ban divulgará um plano de ação. Bage disse que o período de abundância global, que seestendeu por 25 anos, a partir dos começo dos anos 80, fez comque alguns países se tornassem complacentes. "Muitos líderes africanos disseram para mim: 'Por quedeveríamos utilizar nossos escassos recursos na agricultura sehá comida em abundância e a preços baixos no mercadointernacional?'." "Nós fomos tomados pela ilusão de que havia comida emgrandes quantidades e a preços acessíveis, isso não é maisverdade." Uma gama de fatores contribuiu para a disparada dos preços,entre os quais safras ruins em alguns países exportadores,baixa recorde nos estoques e aumento do preço dos combustíveis,o que elevou os custos de produção. No entanto, os desafios representados pela crescentepopulação mundial e pela demanda por uma dieta mais rica empaíses como a Índia e a China vieram para ficar, disse Bage. "Nunca antes na história da humanidade houve tantas pessoassaindo da pobreza como nos últimos 20 anos." "Isso é algo positivo, mas precisamos nos mobilizar paraque isso se dê de uma forma ambientalmente sustentável.Precisamos nos envolver novamente na base da existência humana,ou seja, a comida." O Fida mantém projetos com o objetivo de prestar auxílio delongo prazo a pequenos agricultores e está presente nos paísesmais afetados pela crise dos alimentos, como o Haiti. Pessoas morreram nos distúrbios surgidos nesse país doCaribe e responsáveis por derrubar o governo em abril. E asfuturas safras encontram-se ameaçadas porque muitos haitianosviram-se obrigados a comer as sementes reservadas para aprodução. (Edição de Denise Luna)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.