ENTREVISTA-Frango do Brasil deve sofrer com queda do petróleo

Com o petróleo sendo negociado atualmente a valores inferiores a metade do preço recorde registrado em julho, importantes nações importadoras de carne de frango do Brasil, especialmente as integrantes da Opep, estão pressionando exportadores brasileiros a renegociar contratos para 2009. Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frangos (Abef), Francisco Turra, os importadores ainda não estão cancelando contratos, em função da turbulência financeira global, mas as negociações serão difíceis para o início do ano que vem. "A sinalização que temos é para o primeiro trimestre, pois os exportadores revelaram que vários importadores disseram que houve queda nos preços do petróleo, e estão tentando reduzir preços", declarou Turra, em entrevista à Reuters. Entre os principais exportadores do frango do Brasil --o maior exportador mundial desse produto--, estão países cujas receitas estão fortemente baseadas no petróleo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Iraque e Venezuela, além da Rússia, este último não-integrante da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), mas que detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Os preços do petróleo atingiram um recorde de 147,27 dólares o barril há poucos meses, antes da crise financeira global se acentuar, e os preços do frango exportado pelo Brasil também atingiram valores recordes neste ano --o preço médio da tonelada do produto "in natura", entre janeiro e setembro, bateu 1.800 dólares por tonelada, contra 1.359 dólares por tonelada no mesmo período de 2007. Nos primeiros nove meses do ano, o Brasil, que detém cerca de 40 por cento do mercado mundial de frango, exportou 2,66 milhões de toneladas, obtendo quase 5 bilhões de dólares com as vendas, contra 2,3 milhões de toneladas e 3,2 bilhões de dólares na mesma época do ano passado. Boa parte do volume exportado até setembro se destinou aos países produtores de petróleo, segundo dados do governo. Arábia Saudita, o segundo destino do frango "in natura" do Brasil, comprou 285 mil toneladas, Venezuela (253 mil toneladas), Emirados Árabes (162 mil toneladas), Rússia (130 mil toneladas), Catar (46 mil) e Iraque (45 mil toneladas). "Não houve cancelamento de contratos, estamos falando sobre o primeiro trimestre de 2009. Para este ano, há contratos, estão sendo cumpridos, temos normalidade nos contratos", declarou Turra, ao ser questionado se a crise já estaria afetando os negócios para este ano. CORTE NA PRODUÇÃO Para atender à forte demanda, tanto externa quanto interna neste ano, os produtores de frangos ampliaram em 20 por cento a oferta em 2008, e o Brasil muito provavelmente passará a China como o segundo maior produtor mundial neste ano, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Com a sinalização de retração nas vendas, o setor, que não aceitará redução de preços, segundo Turra, já se prepara para diminuir o plantel de aves. Ele disse que o ideal seria as indústrias reduzirem a produção de frango, para o primeiro trimestre de 2009, entre 10 a 15 por cento, prevendo uma redução no consumo externo na mesma proporção. "Estamos prevendo exatamente isso, se prevalecer esse quadro. Como não temos a dimensão da crise e da durabilidade, isso é um quadro para ser revisto." O presidente da Abef afirmou ainda que o setor também está se preparando para negociações difíceis com o Japão --principal destino do frango brasileiro, que importou 333 mil toneladas até setembro--, depois de o país asiático ter ampliado fortemente seus estoques este ano. "O Japão tem estoque muito grande e se retrai das compras", constatou ele, lembrando que, em meio à crise global, a solução é "trabalhar de forma mais ajustada". Segundo Turra, as indústrias exportadoras também enfrentam mais dificuldade para exportar, considerando que as linhas de financiamento de exportação estão mais escassas e caras. No meio das dificuldades, há um alívio da parte da oferta da principal matéria-prima para a produção de frango, admitiu Turra. Com exportações de milho fracas neste ano, os preços do cereal no mercado interno estão despencando, e o país terá um enorme estoque de passagem, superior a 15 milhões de toneladas este ano, informou nesta quinta-feira o Ministério da Agricultura. (Edição de Marcelo Teixeira)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.