ENTREVISTA-Governo quer aliar erradicação da pobreza a empregos

O governo vai cruzar o "mapa da pobreza com o das oportunidades" de trabalho no plano que lançará nas próximas semanas para erradicar a miséria até o final de 2014, como prometeu a presidente Dilma Rousseff, disse a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, em entrevista à Reuters nesta sexta-feira.

JEFERSON RIBEIRO, REUTERS

15 de abril de 2011 | 17h31

"Nós queremos criar um ambiente para que as pessoas possam aproveitar as oportunidades que estão sendo colocadas no país", afirmou a ministra.

Essas oportunidades de emprego estão sendo mapeadas e, segundo uma fonte do governo, já está pronto um levantamento em pelo menos 70 grandes centros urbanos que integrará o plano. Esses dados mostram as demandas do mercado de trabalho em cada setor e região.

Com esses dados à mão, o governo pretende oferecer qualificação profissional específica para as pessoas que vivem em condição de extrema pobreza por meio do Sistema Nacional de Empregos (Sine).

A ministra lamenta que, apesar de o país estar crescendo e gerando empregos, a população de extrema pobreza não tem acesso a essas vagas por múltiplos fatores.

"Essas pessoas não têm acesso à informação como a gente tem. Boa parte delas não tem como ler um jornal. Não tem nem como pegar ônibus para ir ao posto Sine, nem sabe que existe. A gente pensa em comunidades isoladas na Amazônia, mas tem muita gente isolada nos centros urbanos", afirmou.

O mesmo acontece, segundo ela, com os serviços de saúde, educação e registro civil, que também serão alvo do plano. Nessas áreas, o governo deve passar por uma reorganização a fim de que esses serviços cheguem às camadas miseráveis da população.

O governo também quer desmistificar a ideia de que os beneficiários do Bolsa Família não trabalham e ficam dependendo apenas do benefício. Segundo o levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 77 por cento dos beneficiários do Bolsa Família trabalham. Entre os não-beneficiários com o mesmo perfil de renda, o índice é de 73 por cento.

Na avaliação da ministra, essas pessoas não precisam de uma "porta de saída", elas precisam melhorar seus empregos e ter mais oportunidades. Por isso, um dos focos do plano será os jovens beneficiários das políticas sociais.

Segundo o MDS, quase 70 por cento das pessoas que recebem o Bolsa Família têm até 29 anos, aproximadamente 34 milhões de pessoas, sendo que mais de 12 milhões são crianças com até 9 anos.

MUDANÇA DE CRITÉRIOS

O plano prevê também uma mudança no critério de definição de quais pessoas podem ser classificadas como miseráveis. Essa classificação não medirá apenas a renda, mas também a escolaridade, o acesso a serviços públicos, a qualificação profissional, o tipo de ocupação das pessoas, entre outros aspectos.

"A renda é um recorte insuficiente para definir a pobreza, mas é muito difícil que alguém seja rico de renda e pobre de outras coisas", disse. "Na medida em que ele é pobre de renda, muito provavelmente, ele é pobre de todas as outras coisas. A renda nos ajuda como um elemento para identificar a pobreza. Mas nós não vamos usar só a renda como ação para superação da pobreza", explicou.

Hoje, o critério adotado para os beneficiários do Bolsa Família abrange famílias com renda per capita mensal de 70 reais ou menos.

Esse critério mais abrangente, apesar de detalhar melhor as necessidades dos mais pobres, torna ainda mais difícil mensurar quantos vivem em situação de extrema pobreza no Brasil, grupo que será alvo da promessa presidencial. Segundo dados do IBGE, em 2009 havia pelo menos 13,4 milhões de pessoas que viviam em condição de extrema pobreza, considerando a estimativa do valor de uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias necessárias para suprir adequadamente uma pessoa.

Para elaborar o novo perfil de pobreza extrema, o Ministério do Desenvolvimento Social promoveu mudanças no cadastro das famílias que recebem o Bolsa Família. A cada dois anos os beneficiários precisam atualizar seus dados e neste ano o governo ampliou o questionário para obter detalhes do cotidiano de 1,3 milhão de famílias.

Quer saber se elas têm acesso a transporte público, se moram perto de unidades de saúde e educação, como acessam informações, que tipo de atividade laboral exercem, entre outros detalhes.

"Para erradicar a pobreza no Brasil, que é um trabalho que já vem sendo feito, não se consegue fazer só com uma ação. Poderia até fazer com uma ação de transferência de renda maciça aumentando os repasses do governo federal, mas não é essa proposta", explicou Tereza.

A promessa de acabar com a miséria no país até 2014 é factível, segundo a ministra, mas ela alerta que isso não quer dizer que não haverá mais miseráveis nas ruas.

"Agora, como diz a presidente, estamos chegando no núcleo duro da pobreza", afirmou. A ministra disse que ainda não há data para o lançamento do plano e garantiu que o corte de 50 bilhões de dólares no Orçamento de 2011 não prejudicou nenhuma das ações que serão propostas.

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