ENTREVISTA-Mangabeira vê oportunidade para relações Brasil-EUA

A crise financeira poderá ser uma janela de oportunidade para uma maior aproximação do Brasil junto aos Estados Unidos. Como centro da turbulência internacional, os EUA estão passíveis a críticas e parcerias vindas de fora, de uma maneira que nunca estiveram, acredita Roberto Mangabeira Unger, ministro de Assuntos Estratégicos. Neste debate, Mangabeira destaca o entendimento entre os dois países na área de políticas para o etanol --até agora um produto de disputa entre os dois países. "Os Estados Unidos estão mais abertos a um questionamento, mais do que nunca estiveram desde a década de 1930", disse o ministro à Reuters em visita a São Paulo. "Um questionamento de fora", esclarece. Professor da Universidade de Harvard, Mangabeira lembra que os EUA têm sido autossuficientes, postura que vem mudando como resultado da crise, que levou o país "a uma ebulição". "Ninguém neste vale de lágrimas está completamente aberto ao questionamento, mas às vezes as pessoas estão mais abertas em alguns momentos do que em outros e agora estão especialmente abertas", afirmou. O novo presidente democrata Barack Obama, que foi aluno de Mangabeira em Harvard, é outro ingrediente para esta aproximação. Maior produtor mundial de etanol, o Brasil deve tomar a iniciativa de ampliar a cooperação nesta área, que pode se transformar na principal ponte entre os dois países. A constituição de um mercado internacional para o produto é principal alvo, além do incentivo à pesquisa. Mangabeira acredita que a rivalidade entre o etanol brasileiro e o norte-americano não vai desaparecer instantaneamente porque há grupos fortes que dão sustentação à produção do combustível. "Mas se os EUA e Brasil colaborarem na organização mundial do mercado de agrocombustíveis e nos avanços científicos e tecnológicos para criar os agrocombustíveis de segunda geração esse conflito vai progressivamente perder sentido", prevê. Ele lembra que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush começaram um entendimento neste sentido, em 2007, que não foi adiante, mas têm havido encontros bilaterais. No entendimento assinado naquela ocasião, estão previstos recursos dirigidos a um programa para promover o uso regional e global do etanol como alternativa ao petróleo. O Brasil produz etanol a partir da cana-de-açúcar, enquanto nos EUA o produto vem do milho, a um custo mais elevado. Para proteger o etanol norte-americano, o produto brasileiro é taxado em 0,54 dólar por galão. O interesse dos EUA na área de biocombustíveis vem da intenção de substituir parcela do petróleo, tema que faz parte do programa de governo de Obama. Atualmente, metade das exportações brasileiras do etanol vai para o mercado norte-americano. ARGENTINA Mangabeira também acredita que o mote da crise pode ajudar numa maior coordenação econômica entre Brasil e Argentina. Para isso, ele esteve por dois dias esta semana no país vizinho quando se encontrou com ministros e lideranças empresariais e de trabalhadores. Sua missão não foi a de tratar de barreiras comerciais, que vêm dominando a pauta dos dois países, mas discutir uma agenda comum de medidas para combater os efeitos da turbulência na região. Entre outras ideias, ele defende forte investimento público via bancos oficiais focados em pequenas e médias empresas e sugere avançar em um modelo de desenvolvimento comum. (Edição de )

CARMEN MUNARI, REUTERS

19 de fevereiro de 2009 | 19h19

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