ENTREVISTA-Setor de algodão do Brasil mudou de patamar, diz IBA

O Brasil aumentará nos próximos anos a sua participação no mercado global do algodão, graças ao aumento da produção e das exportações para a China, disse um representante setorial à Reuters.

PETER MUR, REUTERS

11 de outubro de 2011 | 19h02

A produção brasileira de algodão saltou de 1,2 milhão de tonelada em 2010 para 1,96 milhão neste ano, segundo dados oficiais. Os recentes aportes de investimentos sugerem que essas cifras expressivas vieram para ficar.

"O Brasil subiu um nível" no mercado do algodão, disse Haroldo Cunha, presidente-executivo do Instituto Brasileiro do Algodão, e ex-diretor da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

Fazendeiros que produziam grãos passaram a investir mais em algodão no ano passado por causa da alta nos preços da fibra, que em março deste ano atingiu o recorde de 2,195 dólares por libra-peso --quase o triplo do valor de um ano antes.

O governo prevê que a produção da nova safra pode superar 2 milhões de toneladas , e os produtores continuam entusiasmados com o algodão, embora os preços tenham agora despencado para cerca de 1,03 dólar por libra-peso.

"Com vendas acima de 1 dólar e com o dólar se fortalecendo nas últimas semanas (diante do real), imaginamos permanecer em 1,5 a 2 milhões de toneladas nos próximos anos", disse Cunha.

Os produtores devem adquirir cerca de 200 novas colheitadeiras de algodão em 2012 para fazer frente à expansão das safras. Atualmente, há menos de 1.500 dessas máquinas no país. O fato de cada colheitadeira custar 400-700 mil dólares já demonstra a crença dos produtores no algodão.

Mas não é só no Brasil que a produção tem crescido, e especialistas apontam para um excesso de oferta em 2011/12 e pressão sobre os preços, que pode se agravar caso uma nova recessão global se instale, reduzindo a demanda.

CHINA

Por outro lado, o Brasil pode ficar otimista com o fato de a China --gigante no setor têxtil-- comprar cada vez mais algodão do país. Neste ano, a China ultrapassou a Coreia do Sul e a Indonésia como maior cliente do algodão brasileiro, comprando mais do que a soma desses dois países.

De janeiro a setembro, as exportações de algodão do Brasil para a China totalizaram 104 mil toneladas, praticamente o dobro do registrado um ano antes.

"Os chineses estão ganhando confiança no nosso produto", disse Cunha, acrescentando que o mercado chinês revelou-se de difícil penetração.

A China já é o maior produtor mundial de algodão, com quase o quádruplo da produção brasileira.

FOCO NA ÁFRICA

O IBA foi fundado em 2010 para distribuir os fundos que os EUA, um produtor maior do que o Brasil, pagam como compensação por subsídios indevidos ao seu produto.

Esse pagamento resulta de um acordo que evitou sanções do Brasil autorizadas pela Organização Mundial do Comércio aos EUA, depois de uma decisão favorável à queixa brasileira contra os subsídios norte-americanos.

Desde junho do ano passado, o Brasil já recebeu 218 milhões de dólares dos EUA, mas esses pagamentos devem parar quando a lei agrícola norte-americana for revista, em 2012. O Brasil pode reabrir o processo da OMC se achar que a nova lei não responde às suas reclamações.

Entre os projetos que o IBA irá financiar há programas de treinamento dos produtores, de combate à praga do bicudo do algodoeiro, uma campanha publicitária para promover o uso do algodão no Brasil, em vez das fibras sintéticas, e investimentos na melhoria do controle de qualidade.

O IBA também pretende apoiar projetos no setor algodoeiro da África, que se concentra principalmente no leste do continente.

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