Envelhecer mais cedo para evitar o câncer?

Há alguns anos foi descoberto que o preço que pagamos para evitar tumores é conviver com o envelhecimento ("Envelhecimento, o preço de uma vida sem câncer", coluna publicada em 23/11/2005). Essa descoberta, apesar de tornar mais distante nosso sonho de imortalidade, tinha o potencial de se transformar em uma arma contra o câncer. A novidade é que cientistas demonstraram que essa arma funciona. Camundongos transgênicos, nos quais o processo de envelhecimento celular foi facilitado, tornaram-se resistentes ao aparecimento de tumores.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

Hoje sabemos que mutações genéticas são comuns. Estima-se que 1 em cada 20 mil células de nosso corpo carrega um gene mutante. Como muitas dessas mutações podem levar a tumores malignos e sabendo que nosso corpo possui quase 3 trilhões de células, os cientistas calculam que em cada um de nós existe mais de 1 milhão de células mutantes capazes de se transformar em tumores.

Esses milhões de tumores só não se desenvolvem porque temos um mecanismo de identificação e eliminação de células mutantes, chamado de senescência ou morte programada. Quando uma célula de nosso corpo passa por uma situação de estresse, como o causado por uma degradação parcial do seu DNA ou a oxidação de alguns de seus componentes, o mecanismo entra em ação: a célula deixa de se dividir, seu DNA é destruído e ela morre. Esse mecanismo é também o responsável por nosso envelhecimento. Aos poucos, destrói nossos órgãos.

Uma célula normal passa por diversos estágios antes de se tornar um tumor maligno. Na primeira etapa, acumula mutações e forma um tecido pré-tumoral. Numa segunda, esse tecido se transforma em um tumor localizado, incapaz de provocar metástases. Finalmente, esse tumor se torna maligno, invade outros órgãos e pode matar. Quando uma célula se torna capaz de formar um tumor localizado, o processo de senescência é ativado, o que faz com que a maioria desses tumores sejam destruídos antes de se tornarem malignos. Mas será que um processo de senescência mais sensível seria capaz de bloquear a formação de tumores mais cedo?

Para produzir um camundongo com senescência mais sensível, cientistas removeram o gene Skp2 (um dos inibidores do processo). Esses camundongos mutantes tiveram senescência muito ativa e por isso envelheceram um pouco mais rápido. Enquanto 100% dos camundongos normais sobrevivem até 15 meses, 95% desses mutantes vivem tanto. Até aí, o resultado era esperado. Mas quando foram ativadas nos mutantes e nos normais diversas combinações de oncogenes (genes que facilitam o aparecimento de tumores), ficou claro que nos camundongos sem o gene Skp2 os tumores tinham dificuldade de se desenvolver, matando somente 50% deles. Nas mesmas condições, 100% dos camundongos normais morriam.

O mesmo resultado foi obtido injetando células tumorais. Nos animais normais, essas células se multiplicam, formando tumores de próstata. Nos camundongos sem Skp2, as células são incapazes de proliferar. A conclusão é que um aumento na sensibilidade do mecanismo que inicia a senescência dificulta o aparecimento de tumores malignos.

O próximo passo é descobrir uma droga que desative o Skp2 em humanos, pois há uma boa probabilidade de ela prevenir o aparecimento de tumores. O problema é saber se o envelhecimento precoce que esse medicamento vai causar em nosso corpo compensa o retardo no aparecimento de tumores malignos.

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: SKP2 TARGETING SUPPRESSES TUMORIGENESIS BY ARF-P53-INDEPENDENT CELLULAR SENESCENCE. NATURE VOL. 464, PÁG. 374, 2010

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