''Enxergo na Vale diamantes não polidos''

Eike negocia compra de participação na Vale e diz que sua entrada na empresa seria boa para os fundos de pensão e para o Estado

Entrevista com

Irany Tereza* e David Friedlander, O Estadao de S.Paulo

10 de outubro de 2009 | 00h00

Depois de meses fugindo do assunto e de muitas respostas genéricas, o empresário Eike Batista finalmente revela detalhes de seu interesse pela Vale, a maior produtora de minério de ferro do mundo. Disse que pode voltar a negociar com o Bradesco, mas no momento está de olho na compra de um lote das ações que a Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) tem na mineradora. "É pequeno, mas, para sentar ali no conselho e direcionar, acho fantástico", afirmou ao Estado e à AE Broadcast, na sexta-feira.

Com um discurso igual ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Eike criticou a administração da Vale por investir fora do País e disse que gostaria de ter Sérgio Rosa, presidente da Previ, no lugar de Roger Agnelli, atual presidente da Vale. "Honestamente, por mim, comprar uma participação, ter o Sérgio Rosa (presidente da Previ) administrando essa companhia, com a gente podendo dar um input do que fazer (participar da gestão estratégica) já está de bom tamanho. É ajudar o Brasil", afirma. A seguir, a entrevista.

O sr. acha que vai conseguir comprar um pedaço da Vale?

A Vale é o sonho de qualquer minerador. Ela poderia fazer investimentos para agregar valor aos produtos que exporta. E pode também ser um instrumento para dar eficiência à logística do País. Olhando de fora, enxergo na Vale diamantes não polidos a rodo.

Como foi a negociação para comprar a participação do Bradesco na Vale?

Foi uma conversa, não houve um proposta firme, por escrito. Foi só conceito, tipo eu tô aqui!. Houve a conversa e a resposta de volta (o Bradesco não quis vender).

Não houve uma proposta?

Olha, nosso interesse é falar o menos possível. Apenas dizer que existe o interesse estratégico, sim. A gente acha que agregaria valor ao ativo, que seria bom para o Estado, para os fundos de pensão, que são os maiores acionistas, porque a gente sabe criar valor. Honestamente, por mim, comprar uma participação, ter o Sérgio Rosa (presidente da Previ) administrando essa companhia, com a gente podendo dar um input do que fazer (participar da gestão estratégica) já está de bom tamanho. É ajudar o Brasil.

Essa é a intenção? Ter o Sérgio Rosa no comando?

Sim. Estou falando em tese.

Nas suas empresas, o sr. tem o controle. Aceitaria entrar entrar numa empresa onde o controle está nas mãos dos outros?

Quando a gente conversa com autoridades, eu sempre digo assim: é para usar o chapéu de empresário que quer ganhar dinheiro ou do empresário que pensa no Brasil? Aqui a gente estaria pensando no Brasil, participando da gestão. Enxergaram isso aqui? Viram aquilo lá? Poder avaliar quando chegar uma proposta para comprar alguma coisa.

A Previ hoje só pode ter 10% de seu patrimônio numa única empresa. Ela tem mais do que isso na Vale. Se ela fosse se desfazer desse excedente, interessaria ainda que fosse uma participação pequena?

Existe interesse, sim. Em tese, pode ser.

Não seria uma participação pequena para o seu padrão?

Para sentar ali no conselho e direcionar, acho fantástico. Controlar a Vale nem precisa, sabe, nossos negócios já são tão grandes...

Mas a Previ teria de oferecer as ações antes para os outros acionistas, de acordo com o direito de preferência.

Claro. As regras têm de ser todas respeitadas.

Há quanto tempo o sr. negocia isso?

Esse interesse? Começou há três, quatro meses.

A conversa com o Bradesco morreu?

Estamos sempre interessados. Desde que nós começamos a negociar, quatro meses atrás, o valor das ações na bolsa de valores subiu muito. Então, precisamos sentar de novo para ver se ainda vale a pena.

A Vale tem sido criticada pelo governo por investir fora do País.

Acho que a crítica faz sentido. Ela investiu em negócios lá fora que não se equiparam com a qualidade dos ativos que ela tem no Brasil. Em Carajás (PA), ou mesmo em Minas Gerais, a Vale só tem caviar. São as minas mais ricas do mundo, minas com 100 anos de vida, minério de qualidade. O que se comprou fora do País não corresponde a esse padrão de qualidade. A compra da Xstrata (mineradora anglo suíça)...

Que não aconteceu...

Ainda bem que não aconteceu! Mas a decisão era comprar. Você ia misturar caviar com osso. Mais da metade dos ativos da Xstrata não são de classe mundial. Carajás é um ativo de classe mundial. Você não pode ir lá e comprar uma companhia onde a metade dos ativos não tem esse padrão.

O que o sr. faria diferente?

Ocupar mais o espaço na área siderúrgica, agregar mais valor ao minério de ferro e investimento maciço em logística. Companhias desse porte, na minha visão, teriam de fazer tudo para agregar mais valor. Não precisa fazer o produto final. Mas pelo menos até o aço semiacabado. Você emprega muita gente, agrega valor, agrega dólares no PIB (Produto Interno Bruto).

Até parece o presidente Lula falando. O sr. andou conversando com ele sobre isso, não é?

Não. Essa conversa eu não tive direto com o presidente. Mas o Lula percebe essas coisas no ar. É síntese e bom senso. Ele não vai pedir uma coisa que depois não possa vender do outro lado. Você não precisa fazer um aço superespecial porque aí tem excesso de capacidade lá fora. Mas algumas etapas a mais você pode fazer no Brasil, em vez de só exportar minério. A conversa é essa.

Apesar das críticas do governo, a Vale tem dado dividendos enormes a seus acionistas.

Podia ser maior, não? Para gerar mais dividendos lá na frente você poderia pagar menos durante um prazo e aumentar os investimentos. Não olhar só para projetos com taxa de retorno de 50%. A Vale está num tamanho que precisa fazer projetos para beneficiar o Brasil.

Pelo que a gente está entendendo, não haveria espaço na Vale para Roger Agnelli (presidente da companhia) e o sr. juntos.

Olha, numa boa, acho que ele fez uma gestão que tem méritos. A China cresceu, ele estava lá. Quando ele assumiu, a Vale era uma empresa muito menor do que hoje. Mas, às vezes, existem fases em que se pode fazer projetos de retorno menor, mas mais interessantes para o País do que projetos só na área de mineração. A gente não pode ser um eterno exportador de matéria-prima. Podíamos ter chegado para os chineses e combinado que metade do minério de ferro que eles comprassem fosse transformado em aço no Brasil.

Mas não foi esse o trato com a Baosteel (siderúrgica chinesa que iria construir uma unidade no Brasil em sociedade com a Vale)?

Por que a Baosteel saiu do Brasil? Ela foi convidada para fazer uma siderúrgica no Maranhão, a licença ambiental não saiu. Foram para o Espírito Santo. Eles estavam falando com a Vale! Eles conversaram com governadores de Estado! Isso para os chineses é a última instância de poder! Aí o cara, depois de seis anos, depois de milhões de dólares de investimento, recebe dois nãos.

A Vale estava batalhando para conseguir a licença.

Mas eu, como grupo, não vou chamar a Wuhan (outra siderúrgica chinesa), que eu chamei para se instalar no Estado do Rio, sem antecipadamente saber se ali poderia conseguir uma licença. Isso é gestão. Como é que os chineses vão entender que uma Vale, junto com os governos, não conseguem licença ambiental? Ele disse tchau. O Roger (Agnelli) sempre fez tudo para investir o mínimo possível na siderurgia, porque na visão dele a Vale não tinha que se meter no negócio do seu cliente no final da linha. É o conceito dele.

Não haveria um conflito de interesses? Ao mesmo tempo a empresa vende minério para uma siderúrgica e compete com ela?

Ele acredita nisso e administrou assim. Mas uma hora você tem de enxergar um outro sinal. Fazer os chineses virem para cá. A Baosteel teria sido um cordão umbilical com a China. O Wuhan quer construir uma siderúrgica no Porto Açu (RJ). Eles chegaram e disseram que, se fosse na China, já estariam construindo. Fui no governador Sérgio Cabral e pedi pelo amor de Deus para nos ajudar a conseguir a licença até junho do ano que vem. Desculpa, mas um estrategista tem que enxergar essas coisas.

Qual o patrimônio do grupo hoje?

O valor em bolsa das quatro empresas é de US$ 35 bilhões. Somos hoje o terceiro maior grupo do Brasil, depois de Petrobrás e Vale.

O sr. vai abrir capital de outras empresas na bolsa de valores?

Vamos abrir o da OSX, de estaleiros e serviços para a área de petróleo, até fevereiro. Essa empresa nasce com um valor de US$ 4 bilhões e a gente quer captar uns US 3 bilhões. Então, é mais um brinquedinho aí.

Há outra empresa, não?

Estou voltando para o ouro. Compramos duas jazidas na Colômbia.

*A repórter é da Agência Estado

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