Equipe brasileira descobre sua décima supernova

Neste mês de janeiro, um grupo de astrônomos amadores brasileiros - que perseguem os astros por hobby, não por profissão - registrou a descoberta de sua décima supernova. Supernovas são estrelas em processo de explosão, e supernovas do Tipo Ia, como a mais recente encontrada pelos brasileiros, são usadas na avaliação das distâncias espaciais, e da própria taxa de expansão do Universo. A mais recente descoberta da equipe "Brass" (Brazilian Supernovae Search, ou Busca Brasileira de Supernovas) foi batizada de SN 2006D.O engenheiro Cristóvão Jacques, um dos idealizadores do Brass, explica que, a cada ano, 30% a 40% das supernovas são descobertas por amadores. "Quanto mais cedo se descobre a supernova, melhor se pode estudá-la", diz.Além de Cristóvão, o Brass é composto por Tasso Napoleão, Eduardo Pimentel e Carlos Colesanti. O grupo atua em São Paulo e Belo Horizonte. Trabalhando na capital paulista, Jacques controla, via internet, o telescópio responsável pelas descobertas, baseado em Minas Gerais.O trabalho de detecção de explosões estelares requer tanto disciplina e método quanto entusiasmo. "O trabalho consiste em fazer de 300 a 400 imagens digitais de galáxias por noite, e comparar uma a uma, visualmente, com as imagens das mesmas galáxias em nossa biblioteca de imagens", explica Jacques. "Caso algum ponto novo apareça, pode ser uma supernova. Fazemos algumas checagens. Por exemplo, verificamos se a supernova já não foi descoberta, ou se é um asteróide". Se uma segunda noite de observações confirmar a descoberta, os astrônomos amadores enviam uma mensagem para a União Astronômica Internacional, que valida a descoberta e a divulga para a comunidade científica, por meio de uma circular. "Através desta circular, alguns profissionais tiram o espectro da supernova, para ver sua composição e tipo. A partir daí, se for uma supernova interessante, os profissionais continuam fazendo medidas de seu brilho, para ter uma curva de luz ao longo do tempo", diz Jacques.Além de atuar no Brass, Jacques é membro do Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais (Ceamig), onde participou da descoberta de 13 asteróides, entre eles o 38245 Marcospontes, batizado em homenagem ao astronauta brasileiro. A busca por asteróides se liga ao programa de monitoramento de Objetos Próximos da Terra (NEOs, na sigla em inglês), que acompanha os corpos celestes descobertos para determinar suas órbitas e saber se há possibilidade de colisão com a Terra.A primeira dica de Jacques para quem quiser se dedicar à astronomia amadora é, não compre nenhum equipamento logo de cara. "Senão este equipamento pode virar cabide em algum tempo", alerta. "O iniciante deve primeiramente consultar livros básicos, ou sites na internet, ou então procurar um clube de astronomia mais perto de sua cidade". A surpresa das supernovasUma supernova Tipo Ia, como a descoberta em meados de janeiro pelo Brass, surge quando uma estrela pequena e densa, conhecida como anã branca, passa a absorver matéria de uma outra estrela próxima. Num determinado momento, a matéria acumulada na anã branca atinge um ponto crítico e uma explosão ocorre. A intensidade da luz gerada nessas explosões é conhecida, e por isso essas supernovas são usadas como "velas padrão" para medir distâncias no espaço: quando menor o brilho observado da Terra, maior a distância. Foi graças a essa calibragem de distâncias oferecida pelas supernovas que, em 1998, cientistas puderam anunciar que, contrariando as expectativas de até então, a expansão do Universo estava acelerando.

Agencia Estado,

31 de janeiro de 2006 | 14h32

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