Equipe comemora transplante de face

Um rosto novo e apenas uma cicatriz visível, que parece uma ruga cruzando o pescoço. É o que ganhou o homem que passou pelo que seria o primeiro transplante facial completo do mundo, realizado em março, na Espanha. A cirurgia, revelada anteontem, levou 24 horas para ser feita e contou com 30 pessoas na equipe. As dez operações anteriores do gênero foram parciais, segundo o cirurgião responsável.

, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2010 | 00h00

"Se você olhar para a cara dele, você vê uma pessoa normal, como qualquer outra que temos como paciente no hospital", afirmou o cirurgião que liderou a equipe, Joan Pere Barret, do Hospital Vall d"Hebron, em Barcelona, no nordeste do país.

O paciente, cujo nome não foi divulgado, teve o rosto deformado após um acidente ocorrido há cinco anos, sobre o qual o cirurgião plástico também não quis dar detalhes. Foi revelado apenas que se trata de um espanhol de 20 a 40 anos de idade e que deve ficar no hospital por pelo menos mais dois meses.

Antes da cirurgia, o paciente tinha sido operado nove vezes e só conseguia respirar e se alimentar por meio de tubos, além de ter problemas de fala. Agora ele pode engolir saliva, embora por enquanto não seja capaz de falar, comer ou sorrir. "Ele consegue se sentar, anda pelo seu quarto e assiste à televisão", conta o médico. Ele já teria se visto no espelho e ficado satisfeito.

Barret afirmou que a operação envolveu a remoção do que restava da face e a substituição por um rosto integral. "É um pouco como o filme com John Travolta e Nicholas Cage", disse, referindo-se ao longa-metragem A Outra Face (1997), do chinês John Woo, no qual os dois personagens principais passam por cirurgias para trocar de rosto.

O cirurgião sustenta que até agora haviam sido feitos apenas dez transplantes parciais de rosto no mundo e que a operação que liderou é a primeira a envolver um rosto inteiro. Mas especialistas britânicos e americanos não estão tão certos disso.

Complexidade inédita. Na Grã-Bretanha, a Equipe de Pesquisa de Transplante Facial do Reino Unido considerou a nova cirurgia como "a mais complexa operação de transplante de rosto que provavelmente foi feita", mas não afirma que se trata de um transplante total.

O primeiro transplante parcial de face foi realizado na França, no final de 2005. Outros transplantes parciais foram feitos com sucesso em outras cidades espanholas, como Valência e Sevilha, e também nos Estados Unidos e na China (mais informações nesta página).

A operação espanhola é similar a uma cirurgia realizada em 2008 em Cleveland, no Estado americano de Ohio, na qual uma mulher que havia levado um tiro no rosto passou por um transplante quase completo. Mas a operação deste ano "nos parece mais complexa", afirmou Neil Huband, um porta-voz da equipe britânica de pesquisadores.

A cirurgiã Maria Siemionow, que operou a mulher em Cleveland, elogiou o feito dos espanhóis, mas também questiona se o transplante foi realmente total. Ela diz que um diagrama da cirurgia que viu não deixa claro se as pálpebras e as mandíbulas do paciente foram totalmente substituídas. "Provavelmente é bem mais seguro a equipe de Barcelona dizer "quase total"."

Desafio. Para o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Sebastião Guerra, a intervenção é, do ponto de vista técnico, relativamente fácil. "Um transplante total de face pode ser comparado a mudar uma árvore de lugar levando o tronco inteiro e não só os galhos (como no transplante parcial)", compara. "Contudo, envolve um trabalho enorme", acrescenta. Cirurgiões vasculares, plásticos e neurologistas precisam atuar juntos.

O principal desafio começa com o fim da cirurgia. O paciente deverá tomar imunossupressores pelo resto da vida para que o tecido doado não sofra rejeição. Com o tempo, os médicos poderão reduzir as doses dos medicamentos. Mas, nos primeiros anos, o transplantado deverá procurar ambientes estéreis para evitar infecções oportunistas.

Guerra também aponta que o grande desafio para disseminar a técnica é descobrir formas de diminuir o risco de rejeição sem prejudicar as defesas naturais do organismo.

Ele também afirma que já existem grupos no Brasil com conhecimento e desejo de realizar cirurgia semelhante.

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