''Era o desespero da certeza da morte''

Diana Soares conta o drama que se seguiu à pane do avião; ela diz que homem preso nas ferragens não tinha como sair

Tânia Monteiro, BRASÍLIA e Genival de Moura, ESPECIAL PARA O ESTADO, CRUZEIRO DO SUL, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

O primeiro contato dos matises com a Fundação Nacional do Índio (Funai) aconteceu às 9h45 de ontem (horário local), via rádio. Até aquele momento, apenas na tentativa de encontrar o avião, as oito aeronaves militares e uma da empresa Orbis (de satélites) haviam percorrido 3.570 km². "A aeronave, mesmo que não estivesse submersa, seria muito difícil de ser avistada na mata fechada, pois a pintura é camuflada", disse o major-brigadeiro Jorge Cruz de Souza e Mello, comandante do 7º Comando Aéreo da Amazônia.

Graças aos indígenas, cerca de 15 minutos depois uma aeronave C-105 Amazonas, do Esquadrão Pelicano, localizou a área onde o C-98 Caravan havia desaparecido, com 11 pessoas a bordo. Logo após, um helicóptero H-60 Blackhawk e um helicóptero HM-3 Cougar, ambos do Exército, resgataram nove sobreviventes, incluindo uma grávida, com 14 semanas de gestação. Após o resgate e os primeiros socorros, a Aeronáutica tentou evitar a exposição dos sobreviventes - e optou por não divulgar oficialmente quem são os desaparecidos -, mas o Estado conseguiu falar com os passageiros do turboélice, que destacaram "o desespero de ver a morte". Um deles chegou a relatar a morte de um dos colegas.

O piloto, o primeiro-tenente Carlos Wagner Ottone Veiga, e o copiloto, o segundo tenente José Ananias da Silva Pereira, conseguiram fazer o pouso forçado no Rio Ituí. Com eles estavam agentes da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e outros dois militares, que atuavam numa missão de vacinação em comunidades indígenas. Sobreviveram ao pouso o primeiro-sargento Edmar Simões Lourenço e os funcionários da Funasa Josiléia Vanessa de Almeida, Maria das Graças Rodrigues Nobre, Maria das Dores Silva Carvalho, Marina de Almeida Lima, Marcelo Nápoles de Melo e Diana Rodrigues Soares.

Diana, de 28 anos, técnica de enfermagem que trabalha em Atalaia do Norte, afirma ter visto "a morte". Ela tem dois filhos pequenos e, para preocupação maior, viajava ao lado do marido, Marcelo Nápoles de Melo, também técnico de enfermagem da Funasa. "O avião deu pane no alto. Parou o motor e começou a cair. Foi um horror", relatou ela, que não queria "recordar aqueles momentos dramáticos". "Eu vi a morte. Era o desespero da certeza da morte", repetiu.

Segundo Diana, "quando o avião caiu no rio, foi tudo para debaixo d"água e foi horrível". A sobrevivente estava muito emocionada e só lembrava do colega de trabalho João de Abreu Filho, que ficou preso nas ferragens do avião e não conseguiu sair. "Não quero lembrar. Não quero falar sobre o que aconteceu. Ainda estou muito assustada", disse, acrescentando que só queria encontrar a mulher dele para conversar com ela e confortá-la. "Ele não tinha como sair", declarou.

A VÍTIMA

Na noite de ontem, a família de João de Abreu Filho, de 33 anos, técnico de enfermagem da Funasa, ainda alimentava esperanças de que ele pudesse estar vivo, embora as notícias repassadas pela fundação eram as de que ele não teria sobrevivido ao acidente com o avião da FAB.

Uma notícia chegada à cidade de Benjamin Constant, no Acre, onde João de Abreu morava com a mulher e os dois filhos, de que ele estaria vivo e havia sido levado para Cruzeiro do Sul (AC), animou todos. A mulher dele e o irmão, Juliano, embarcaram para o Acre, a fim de tentar reencontrá-lo. "Meu irmão me ligou dizendo que tiveram notícias de que o João está vivo, mas ainda estamos esperando mais notícias", disse Vanessa, outra irmã de João, que estava em Benjamim Constant. "Aqui estamos todos ansiosos porque a primeira notícia foi ruim. Mas, agora, estamos esperando o Juliano chegar ao Hospital Juruá onde dizem que ele está", comentou Vanessa, sem saber que João de Abreu não conseguiu escapar e, conforme relato de Diana Soares, teria ficado preso nas ferragens do avião.

João de Abreu, aliás, não queria ir na missão. Já havia pedido para se afastar desse tipo de serviço de vacinação em aldeias porque passou na faculdade de Biologia em Benjamim Constant e estava estudando. "Ele não queria ir porque tinha prova nesses dias, ainda mais que eram 15 dias de viagem. Como não teve jeito, pediu aos professores para dispensá-lo das provas", disse a irmã. "Ele já estava de volta ao Acre", emendou ela, ao contar que o irmão trabalhava havia quase dois anos na Funasa, como técnico de enfermagem. "Como ele conhecia esse serviço e estava acostumado com vacinação de índio, teve de ir." COLABOROU LIÈGE ALBUQUERQUE

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