Escada para o céu

Vinhos do Mosteiro da Cartuxa de Évora, sob o sopro do canto gregoriano e um certo ar místico

Luiz Horta, blogs.estadao.com.br/luiz-horta,

08 Julho 2010 | 14h53

Mais do que na garrafa. Os vinhos do Alentejo podem surpreender pela madurez da fruta, um certo calor e pela exuberância de seus taninos maduros e seu corpo

 

 

A ligação histórica dos mosteiros europeus com os vinhedos é bem simples de entender. O vinho entra no ritual da missa, os religiosos precisavam dele na celebração. O jeito mais fácil era plantar os próprios vinhedos. Estou simplificando, claro, mas praticamente toda grande região produtora europeia tem um mosteiro na sua formação.

 

A agricultura é parte da vida diária de um monge. Quem assistiu ao documentário alemão Em Profundo Silêncio (Die Grosse Stille, de 2005), um relato sobre um ano vivido no Mosteiro da Grande Chartreuse, perto de Grenoble, entenderá.

 

Em pleno século 21, duas dezenas de pessoas que renunciaram ao mundo levam seu dia a dia em quase completo mutismo. É impressionante notar como o ritmo do vinhedo tem a ver com a lenta passagem do tempo para os cartuxos, ordem religiosa das mais rigorosas.

 

Daí chegamos a Portugal e à Fundação Eugénio de Almeida, que centrou seu trabalho vinícola em torno do Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, a Cartuxa de Évora. A história é curiosa.

 

O prédio foi construído pelos jesuítas, mas com eles expulsos pelo marquês de Pombal, permaneceu em mãos do governo até ser comprado por Eugénio de Almeida, que o transformou em sua residência e depois na sede da fundação homônima.

 

Ali, passou a produzir vinho e azeite e a criar cavalos puros lusitanos. São 6.500 hectares, uma dimensão espantosa para a pequenez da região. Desses, 460 hectares são de vinhedos.

 

A ênfase vinícola é em castas autóctones alentejanas, como a Trincadeira e a Aragonez, que entram no mítico Pêra-Manca, o mais reconhecido vinho da fundação. Eugénio de Almeida acabou por convidar os cartuxos a se instalar novamente no mosteiro. Hoje vivem lá 14 monges, fechados no seu claustro.

 

O Paladar fez uma inédita vertical do Scala Coeli tinto, conduzida por telefone pelo enólogo Pedro Baptista. Ele experimenta a cada ano variedades não alentejanas, algo único na empresa. E provou a primeira versão do Scala Coeli branco.

 

Na degustação, os vinhos surpreenderam pela distinção. São muito do Alentejo pela madurez da fruta, um certo calor e pela exuberância de seus taninos maduros e seu corpo, mas têm uma fineza e elegância mais do norte e do frio. São vinhos para guarda e evoluirão com certeza dentro das garrafas.

 

 

Scala Coeli 2005

65% Cab. Sauvignon 35% Merlot

Nariz bem bordalês, sério, batatas assadas. Na boca pede uma espera longa, os taninos ainda muito duros. Surpreende pela austeridade e equilíbrio

 

 

Scala Coeli 2006

100% Syrah

Nariz voluptuoso de ameixas pretas, pimenta-do-reino, café e chocolate. Na boca tem excelente acidez, elegante e fino, um contido gentilhome do sul de Portugal

 

 

Scala Coeli 2007

100% Touriga Nacional

Algo de alcatrão e toque floral no aroma, muito envolvente. Na boca é guloso, ótima acidez balanceada com o corpo, taninos muito finos, pronto para beber

 

 

S. C. Branco 2008

100% Alvarinho

Intrigante este Alvarinho alentejano, fruto do clima quente da região. O aroma tem notas de marmelo, tostado da madeira. Na boca é mineral, longo e atraente

 

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