Escândalo da pedofilia abalou a Igreja

Papa enfrentou acusações de que teria 'protegido' padres criminosos mesmo após defender punições e condenar 'cultura do silêncio'

JOSÉ MARIA MAYRINK, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2013 | 02h01

Dos desafios que Bento XVI enfrentou em seu pontificado, os casos de pedofilia no clero foram os mais dolorosos. O papa Ratzinger, que já havia encarado o problema enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, interveio pessoalmente no processo, quando as denúncias se multiplicaram nos EUA e na Irlanda e, em menor proporção, na Austrália e Alemanha.

Associações e grupos de famílias das vítimas cobraram da Igreja ação vigorosa para punir os criminosos. Acusaram a hierarquia católica de omissão, alegando que o papa - primeiro João Paulo II e depois Bento XVI - tentou proteger os padres pedófilos, transferindo-os de suas paróquias ou escondendo-os em conventos, em vez de entregá-los à Justiça civil.

As reivindicações foram além dos pedidos de indenizações milionárias, como as pagas por dioceses norte-americanas. Entre os acusados, surgiram nomes de bispos que, em décadas passadas, teriam abusado sexualmente de crianças. Em setembro de 2011, a associação americana Snap, de vítimas de padres pedófilos, apresentou queixa no Tribunal Penal Internacional contra Bento XVI e três cardeais por crimes contra a Humanidade. O Vaticano não comentou a iniciativa.

Diante das acusações, o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, defendeu o papa e os órgãos da Cúria Romana, para mostrar que não houve omissão. Seus argumentos não evitaram que Bento XVI se tornasse alvo de manifestações como as ocorridas na Espanha e na Alemanha.

Lombardi disse que Bento XVI sempre foi um "guia" contra a "cultura do silêncio" na Igreja no caso dos padres pedófilos. O porta-voz lembrou a carta do papa aos católicos irlandeses, na qual condenou o crime e se mostrou contrário "a qualquer encobrimento ou ocultamento de abusos sexuais de eclesiásticos contra menores". Bento XVI decretou "tolerância zero" no combate à pedofilia e na punição dos pedófilos.

O promotor de Justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, monsenhor Charles J. Scicluna, também fez a defesa de Ratzinger, lembrando que, como prefeito da congregação, ele agiu com "sabedoria e firmeza" ao tratar dos casos que chegaram a seu gabinete. "Acusar o atual pontífice de ter ocultado (os fatos) é falso e calunioso", disse Scicluna em entrevista a Gianni Cardinale, divulgada pelo site do Vaticano.

Abusos. A Congregação para a Doutrina da Fé analisou, de 2001 a 2010, cerca de 3 mil casos referentes a abusos sexuais contra menores praticados por sacerdotes e bispos nos últimos 50 anos. Nem todos os acusados poderiam ser classificados como pedófilos: 60% dos casos se trata de efebofilia (atração por adolescentes do mesmo sexo); 30% seriam de relações heterossexuais; e 10%, atos de abusos sexuais de crianças (pedofilia).

Ao defender-se, embora admitam a ocorrência do crime, autoridades da Igreja alegam que o número de sacerdotes no mundo ultrapassa 400 mil, dos quais "apenas" cerca de 1% são suspeitos de pedofilia.

"Os casos são numerosos, mas é preciso admitir que o fenômeno não é tão extenso como se pretendia fazer crer", disse monsenhor Scicluna. Só 20% dos casos são objeto de processo penal ou administrativo, no âmbito das dioceses ou, raramente, em Roma. Os padres culpados são demitidos do estado clerical ou punidos com medidas administrativas e disciplinares, como a proibição de celebrar missa e de atender confissões, além da imposição de se retirar para uma vida de oração.

Dos 3 mil casos de pedofilia examinados pelo Vaticano, cerca de 80% foram registrados nos EUA. Em 2009, referiam-se a padres americanos perto de 25% dos 223 novos casos ocorridos no mundo. "Muitos países apresentam apenas um ou dois casos", disse o promotor de Justiça da Congregação para a Doutrina da Fé.

Celibato. O celibato dos padres e a admissão de mulheres ao sacerdócio, questões recorrentes nas últimas décadas, estiveram em discussão no pontificado de Bento XVI. Numerosos teólogos e alguns bispos pregam abertamente o fim de uma lei eclesiástica que proíbe o casamento para os sacerdotes de rito latino, atrelando essa exigência à vocação para o sacerdócio. O papa Ratzinger insistiu no celibato toda vez que falou para padres e seminaristas.

Em fevereiro de 2011, um manifesto assinado por 144 professores de Teologia da Alemanha, Áustria e Suíça incluiu o fim do celibato numa série de exigências de reformas na Igreja. O documento pede a ordenação de mulheres e a participação popular na escolha de bispos. O jornal Süddeutsche Zeitung, que divulgou o manifesto, observou que, segundo os teólogos, o número de signatários seria maior, se muitos não temessem represálias do Vaticano.

Bento XVI não estava disposto a abrir mão do celibato clerical, disse o cardeal alemão Walter Kasper, prefeito emérito do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos e amigo do papa. O cardeal considerou o debate positivo, mesma reação do episcopado da Alemanha. Lembrou que em 1970 assinou com oito teólogos, entre os quais Ratzinger, um memorando pedindo um estudo sobre a necessidade da exigência do celibato - o que não significa que tivessem proposto a sua abolição.

Quanto à ordenação de mulheres, a posição foi mais dura. Argumentou que não era uma questão de a Igreja querer mudar a regra, mas sim de não poder mudar. Se Cristo não incluiu mulheres entre os apóstolos, só homens devem ser ordenados padres. Mais elástica seria a discussão sobre eventual autorização para ordenação de homens casados como solução para a falta de padres, mas o Vaticano não permitiu o debate.

Aborto. Bento XVI encarou com firmeza questões como o aborto e o homossexualismo. Documentos e discursos pontifícios insistiram na condenação do aborto, argumentando ser preciso defender a vida humana, da concepção até o seu fim natural, o que inclui a rejeição à eutanásia. O papa seguiu a trilha de seus predecessores Pio XII, Paulo VI e João Paulo II.

Quanto ao homossexualismo, Bento XVI se opôs à união estável de pessoas do mesmo sexo, batendo na tecla de que o matrimônio, cujo primeiro objetivo é a procriação, só pode ser realizado entre um homem e uma mulher. Essa posição provocou manifestações contra as normas da Igreja, tachada de intransigente e retrógrada. Na viagem a Madri, em agosto de 2011, a polícia reprimiu um "beijaço" de gays na presença do papa.

Chamado de nazista numa alusão ao fato de ter pertencido à Juventude Hitlerista na adolescência, Ratzinger não se perturbou. Procurou receber os atos de protesto como manifestações compreensíveis num clima de liberdade e diálogo, contanto que se respeitassem a ordem e os direitos de outras pessoas. Foi o que o papa disse aos jornalistas no voo entre Roma e Madri.

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