Escola cobra taxa de pai que se atrasa para buscar filho

Estabelecimentos dizem que valor custeia hora extra de funcionários; cobrança é permitida por lei, mas precisa ser comunicada antes

Luciana Alvarez, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

Chuva no fim da tarde, congestionamento acima do normal e reuniões que extrapolam o tempo previsto fazem muitos paulistanos se atrasarem para seus compromissos, entre eles, o de buscar os filhos na escola. Na tentativa de conter abusos, evitar o pagamento de hora extra para funcionários ou lucrar com a prestação de mais um serviço, muitos berçários e escolas de ensino infantil cobram uma "taxa atraso", com valores que vão de R$ 10 a R$ 100 por hora.

Como trabalha até as 19 horas, a designer Yara Fernandes tem sempre de correr para chegar dentro dos 15 minutos de tolerância na escola onde sua filha Laura, de 5 anos, estuda. Estrategicamente, escolheu uma ao lado do escritório. "É raro, mas se tenho problemas e vou atrasar, ligo antes", conta. Mas, quando precisou, não gostou da conta. "Por um dia que me atrasei 45 minutos desembolsei R$ 100. Sei que é o jeito de a escola arcar com a hora extra dos funcionários, mas achei demais."

Segundo o Procon, a cobrança é legal, desde que os pais sejam comunicados antes. "O importante é a escola trabalhar com transparência e lealdade para ninguém ser pego de surpresa", diz Marcelo Florêncio, assistente de direção do órgão. Florêncio lembra que a hora extra tem de ser proporcional ao tempo excedido e à mensalidade.

A gerente de eventos Renata Rosenfeld sabe que, por contrato, tem de pagar uma taxa caso se atrase para buscar Clarissa, de 3 anos, e Vitor, de 1. "Num desses dias de chuva, com o trânsito impossível, fui a pé para a escola e fiquei com eles lá. Assim não tive de pagar a taxa."

Quando sai do horário padrão, Renata pede ajuda à família. "Ligo para minha sogra e peço para ela buscá-los de táxi." Mais do que economizar, ela ressalta a preocupação com o bem-estar dos filhos. "Eles ficam bastante tempo na escola. Seria penalizá-los fazer com que esperassem."

Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, afirma que os pais devem se preocupar também com o efeito emocional dos atrasos sobre os filhos. "No berçário a criança não percebe, mas, a partir de 1 ano e meio, ela sente que está sobrando", diz. "Deixar o filho esperando pode provocar sensação de abandono e ansiedade." Para amenizar o problema, Quézia recomenda que os pais expliquem por que chegam mais tarde e diz que a escola não deve deixar a criança ociosa, para não aumentar a angústia.

Custos. As escolas alegam que a cobrança serve para cobrir custos e evitar que os atrasos passem de situação excepcional a hábito. Na escola Nipi, na zona norte, a taxa existe desde 2009. "Quando não havia, alguns pais abusavam", diz Fabiane Ferraz, auxiliar de coordenação.

Na Piccolino, na Vila Madalena, a ideia é "educar os pais". "Se for eventual, não cobramos, mas já tive mãe que sempre atrasava por causa da manicure", diz a diretora Jaqueline Marques. "Não posso dizer que fecharei no horário. Vou fazer o que com as crianças?", afirma Karina Bonalume, diretora do Berçário Singular, no Brooklin. "A taxa é para pagar o segurança e funcionários."

Algumas escolinhas em bairros nobres oferecem outras opções para os pais que não conseguem chegar na hora. "Disponho de uma funcionária para ir com a criança até a residência e ficar lá até os pais chegarem", diz Fabiane Boyadjian, diretora da Balou, no Morumbi.

Preste atenção

1. Cobrança. No contrato ou regimento interno da escola deve estar explícito se a hora extra será cobrada dos pais, assim como qual é a tolerância nos horários de entrada e saída. Os valores devem ser proporcionais ao tempo que a criança fica a mais.

2. Serviço. Se a escola tem estabelecido um esquema de plantão para um horário estendido, o serviço deve ser contratado anteriormente. Nesse caso, deve ser oferecida alguma atividade à criança.

3. Emocional. Além da questão financeira, os pais também devem levar em conta a possível angústia que o atraso provoca nos filhos.

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