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Werther Santana/AE-17/2/2011
Werther Santana/AE-17/2/2011

Escola de Medicina usa episódio violento para mudar prática antiga

Além de punir envolvidos em abusos, faculdade do ABC estimula debate e tira de veteranos poder de organizar o trote

Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em maio de 2010, após denúncia de que veteranos teriam introduzido pimenta no ânus de um calouro, a direção da Faculdade de Medicina do ABC expulsou dois alunos e suspendeu outros quatro por 60 dias. E, mais importante, aproveitou o caso para levar a discussão sobre o trote violento a um novo patamar.

 

Duas medidas foram tomadas. Uma delas foi a distribuição, ainda em 2010, a todos os calouros, de um questionário anônimo perguntando se tinham sido vítimas de qualquer tipo de humilhação. Dos cerca de 80 relatos, 27 configuravam infrações disciplinares graves dos veteranos.

 

Outra medida foi um convite ao promotor Roberto Wider, do Ministério Público Estadual em Santo André, para dar palestras informativas aos alunos. "Foi uma conversa preventiva, mas minha posição foi de vigor. Muitas práticas configuram crimes hediondos, como o trote da pimenta, que caracteriza constrangimento ilegal", diz.

 

Apesar de todos os alunos punidos terem sido reintegrados à instituição por liminar judicial, a recepção deste ano indica uma mudança de atitude.

 

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A instituição elaborou uma cartilha explicativa e assumiu definitivamente a recepção dos alunos, encerrando a tradição que fazia dos veteranos do 6º ano os líderes dos rituais de iniciação. "Não deixamos mais o trote sob a responsabilidade dos veteranos. Organizamos uma programação oficial, sob supervisão da diretoria", afirma Marco Ackerman, vice-diretor da faculdade.

 

"Fiquei surpreso quando cheguei aqui, foi muito legal. Esperava uma hierarquia muito forte. Mas sequer cortaram meu cabelo, nós mesmos raspamos", diz o calouro Vitor Henrique de Oliveira, de 22 anos.

 

Efeito. As expulsões e a presença do promotor assustaram os trotistas, afirma Paulo Junqueira, de 33 anos, advogado e aluno do 5º ano. Ele foi um dos idealizadores da cartilha do trote, que veio encartada no manual do estudante.

 

"Acho que surtiu efeito. O caminho é informação para calouros e veteranos. E fiscalização por parte da faculdade e do MP. É melhor um ato de prevenção do que outro para investigar um crime que já ocorreu", diz.

 

"Esse tipo de medida precisa de no mínimo seis anos para se estabelecer. A turma que está sendo recebida de outra maneira receberá seu calouro do mesmo modo quando estiver no 6º ano", diz Ackerman.

 

A mudança parece ter agradado até aos que sofreram trote mais recentemente. Aluno do 2º ano, Vitor Pires, de 22 anos, explica: "Chegamos de um jeito e estamos recebendo de outro. Achei legal". Já Renata Olmos, que está no último ano, resume: "É assim que sempre deveria ser a recepção dos calouros, mas nunca tinha sido".

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