Escola em Cotia aposta na autonomia

Alunos não são divididos em séries, não há aulas de 50 minutos nem provas

PAULO SALDAÑA, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2012 | 03h02

Se a proposta fosse de uma escola tradicional, autonomia seria a palavra de ordem do Projeto Âncora, em Cotia, na Grande São Paulo. Mas quem faz o Âncora não tem simpatia por um vocabulário autoritário. A escola, inaugurada neste ano, não tem séries, não tem turma, não divide alunos por idade, não tem aulas expositivas, não tem prova - mas é bom que se diga que há muitas outras coisas.

Não é apenas uma inspiração na portuguesa Escola da Ponte, referência internacional: o educador José Pacheco, idealizador da Ponte, está por trás como colaborador e mentor. Essa é uma das mais consistentes parcerias de Pacheco no Brasil, país que visita há mais de dez anos para consultorias, palestras e estudos e onde mora desde 2006.

Os alunos têm contato com circo, artes, música, informática, skate e todo o conteúdo previsto nos parâmetros curriculares. Sãos eles que vão definindo a agenda do dia, os horários a seguir, sempre tutoreados pelos professores. O ensino é em horário integral, das 7h20 às 16h30.

No Âncora, ONG que faz atendimento social desde 1995, o modelo engessado de educação com aulas expositivas, com alunos enfileirados e padronizados não existe. "Não há fundamento teórico e nada nas lei de diretrizes que justifique aulas de 50 minutos, divisão de séries e idades e resulta milhões de analfabetos", afirma Pacheco.

O esforço é por uma aprendizagem coletiva, cidadã, de busca pelo conhecimento em que cada aluno tem seu tempo de aprender e de se interessar. Um modelo feito "com" e não "para", como explicam os coordenadores.

A aprendizagem é conduzida por projetos de pesquisa, cuja definição dos temas são discutidos por todos, bem como o resultado da empreitada. E o conhecimento, os conteúdos, são compartilhados - sem imposições. A ideia é de um processo em que, pela pesquisa, desenvolva-se as competências para aprender.

Caminho. O Âncora tem 180 alunos com idades entre 6 e 12 anos - referente ao ciclo 1 do ensino fundamental (de 1.ª a 5.ª série). Não há custo para as famílias. O projeto é financiado por empresas, institutos e doações - um dos principais parceiros é o Instituto Natura. Todos moram a 3 km da escola e têm renda familiar de até 3 salários mínimos.

Fundado pelo empresário Walter Steurer, morto no ano passado, o projeto fazia até 2011 o atendimento só no contraturno - além da creche, que hoje atende 52 crianças. "Parecia que estávamos enxugando gelo, precisávamos ir além", diz a coordenadora-geral, Suzana Ribeiro.

Pacheco topou participar e no primeiro semestre de 2011 o Âncora como escola começou a ser desenhado. "A Ponte é uma referência, mas não há réplica. Porque é importante o que se constrói na prática aqui", reforça ele. "Não estamos fazendo experiência, moda. É um trabalho fundamentado. Aluno não é cobaia."

Apesar de não ter classes e séries, o Âncora tem divisão em níveis: iniciação, desenvolvimento e aprofundamento. Não é a idade que define onde o aluno está, mas na iniciação há atenção especial para a alfabetização entre 6 e 7 anos. O motivo é claro: ler e escrever é essencial para todo o resto. "Antes da autonomia, ele passa pela heteronomia. O aluno não decide tudo. Só no aprofundamento, por exemplo, é que registra a autoavaliação diária", diz a coordenadora pedagógica Edilene Morikawa.

Edilene explica que o foco inicial foi a atitude, tendo o conteúdo como coadjuvante. "Era necessário mudar o paradigma, as crianças vinham com o modelo que tinham de escola." O desafio era fazer as crianças incorporarem a proposta de liberdade com autonomia, responsabilidade e colaboração. "Alguns perguntavam: 'mas como não vai ter prova?'; 'Pode ficar o dia todo no circo?'. Houve dificuldades no início."

Não foi fácil fazer com que os alunos entendessem a importância de ouvir uns aos outros - e não falar todos ao mesmo tempo. "É preciso levantar a mão e aguardar sua vez de falar. No começo foi muito difícil. Um professor ficou 57 minutos com a mão levantada, esperando a sua vez. Aos poucos eles foram pegando", explica Edilene.

Ao entrar no Âncora, a impressão é de que as crianças estão sem fazer nada, correndo para lá e para cá. Mas logo se percebe que há muita disciplina. Até mais que em outras escolas.

Maria Helena Silva, de 10 anos, explica o que acha de diferente. "Não é que nem a outra escola, em que a professora põe na lousa e todo mundo copia. E não precisa avisar que vai sair para ir ao banheiro", diz ela, baixinho, para não atrapalhar. Ela adora português, mas sonha em ser contorcionista ou policial.

Maria estudava com a colega Jady Santos da Mota, também de 10, que mostrou a pasta com a ordem das atividades e horários. Em branco, os campos a serem preenchidos no fim do dia: o que aprendi, o que não fiz e por que não. "A gente aprende mais porque aprende a ser responsável."

Bastidores. Além de níveis, os alunos também são divididos em grupos, com critérios de evolução e interesse. Há salas ambientes para estudos e a tutoria com professores, com que fazem reuniões semanais em grupos. Ao longo do dia, professores, coordenadores e voluntários estão nas salas, na biblioteca, na quadra.

"A avaliação é complexa, o acompanhamento é individual", explica Edilene. O Âncora tem uma fila de espera de 400 alunos. As crianças que estão na creche serão absorvidas, mas ainda não está decidido se haverá abertura de novas vagas no ano que vem.

Pacheco vislumbra milhares, a cidade, o País. "Não é um projeto de escola, é um projeto de sociedade."

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