Escola municipal troca aula por Playcenter

Excursão paga constrange pais que não têm recursos para bancar passeio; Secretaria de Educação diz que não apoia essa atividade no horário escolar

Mariana Mandelli, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2010 | 00h00

Escolas das redes municipais de São Paulo estão promovendo excursões ao Playcenter durante o horário de aula. O valor dos ingressos varia, mas pode chegar ao preço da bilheteria, de R$ 45. Como muitas famílias não podem pagar, têm de arranjar um lugar para as crianças ficarem no dia da visita.

Segundo o Playcenter, 1.030 escolas estaduais e municipais visitam o parque por ano. Dessas, 260 são de cidades da Grande São Paulo - o que dá uma média de 31,2 mil crianças anualmente.

O Estado ouviu pais e alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Roberto Mange, no Rio Pequeno, zona oeste paulistana, que realizou duas excursões ao Playcenter na semana passada a R$ 45 por aluno. Segundo eles, os passeios ocorrem duas vezes por ano: no primeiro e no segundo semestre. "Só fui porque um amigo pagou para mim", afirma a estudante Bianca Arcanjo, de 15 anos.

Sua mãe, a doméstica Célia Arcanjo, não conseguiu mandar a caçula Gabriele, de 10. "Ou pagava o ingresso ou pagava o gás", afirma. "Ela se sentiu excluída por não ir."

Outra mãe, que não quis se identificar, tinha dinheiro apenas para enviar um dos filhos, do terceiro ano, e teve de levar o outro para o trabalho. A estudante N., de 13 anos, vendeu as latas de leite em pó que recebeu da Prefeitura, mas não chegou ao valor do ingresso. "Consegui só R$ 30."

Os alunos afirmam que a direção sorteou alguns convites para quem colaborasse com R$ 0,50. Outros estudantes afirmaram que não há muitas excursões para museus ou parques ecológicos. "Esse foi o primeiro passeio do ano", revela G., de 12 anos.

Segundo o Playcenter, o valor de R$ 45 cobrado da escola incluía ingresso, passaporte replay (para voltar gratuitamente), monitoria, lanche e transporte para o fundamental I. Para o fundamental II, não havia monitoria nem lanche, mas o horário era estendido. Ainda segundo o parque, foram entregues 14 cortesias para alunos e professores.

A assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação afirmou que considera "um erro impor esse tipo de atividade aos alunos e não estimula as ações". No caso específico da Emef Roberto Mange, a secretaria abriu apuração e, se for constatado erro da escola, punirá os responsáveis. A notificação deve ser publicada hoje no Diário Oficial.

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