Escombros de base destruída na Antártida podem contaminar oceano

Ciência. A Marinha interrompeu há três meses os trabalhos na estação e só deverá retomá-lo em novembro, com a chegada do verão, aumentando os riscos de vazamento de materiais tóxicos; cientistas reclamam de falta de assistência por parte do governo

SERGIO TORRES / RIO , O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2012 | 03h05

O governo brasileiro não conseguiu retirar os escombros da base destruída na Antártida antes da chegado do inverno. Os trabalhos tiveram de ser interrompidos em abril e só serão retomados em novembro. Entre os destroços há materiais altamente tóxicos que estão sendo cobertos pela neve e, com o degelo, podem escorrer para o mar.

Em nota, a Marinha informou ter isolado os restos da estação na tentativa de reduzir a entrada de neve. Disse também que está em desenvolvimento um plano de desmonte e retirada dos escombros, com "previsão para ser iniciado a partir de novembro de 2012", quando começa o verão antártico.

Nos tratados internacionais que regulamentam sua atuação na Antártida, o Brasil se compromete a não poluir o continente. A Estação Comandante Ferraz ficava defronte à Baía do Almirantado, na Ilha Rei George.

O incêndio, ocorrido na madrugada de 25 de fevereiro deste ano, provocou pelo menos dois tipos graves de contaminação: a atmosférica, com uma nuvem tóxica que se espalhou sobre o território e o oceano, e a do solo, com destroços que se incorporaram ao ambiente. Quanto mais cedo os escombros forem retirados, menor a contaminação.

Festa. O Estado revelou ontem que, no momento em que a base brasileira começou a ser destruída por um incêndio, funcionários militares e civis da Marinha e cientistas participavam de uma festa chamada Baile da Terceira Idade, na qual houve consumo de bebidas alcoólicas.

Mantida em sigilo tanto pela Marinha quanto pelo grupo de 31 cientistas, a realização da festa, com bebidas como cerveja e vinho, foi investigada pelo inquérito policial militar (IPM) aberto no dia do desastre para apurar causas e responsáveis.

A investigação sobre as causas e responsabilidades do incêndio, a cargo dos oficiais nomeados pela Marinha, teve a festa com um de seus principais focos. Uma das suspeitas era de que o alarme contra fogo da base teria sido desligado para que não fosse acionado pelo mecanismo de gelo seco, ativado na pista de dança da estação. O IPM terminou em maio e tramita em sigilo na Justiça Militar. A Marinha não divulgou suas conclusões.

Falta de assistência. Cinco meses após o incêndio, nenhum dos 31 cientistas recebeu do governo federal uma declaração formal de perdas de bens e documentos. Muitos permanecem sem passaportes e documentos de identificação.

O físico José Valentin Bageston não pode viajar para os Estados Unidos, onde seria palestrante em um seminário científico porque não teve como comprovar que seu visto estava carimbado em um passaporte destruído no incêndio.

O problema enfrentado pelo especialista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), alertou os colegas sobre a gravidade do problema. Todos eles costumam viajar com frequência para participar de eventos e pesquisas no exterior. Sem o amparo do governo, podem ter problemas como o enfrentado por Bageston.

Os cientistas assinaram um manifesto em que reclamam não ter tido assistência do governo após a destruição da base, além de reivindicarem o pagamento de indenização por perdas pessoais e profissionais, como prometido oficialmente.

No manifesto, os pesquisadores queixam-se do comportamento do governo. Argumentam que os contatos que tentam com as autoridades governamentais não são completados.

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