Esconderam o meteorito

Cometa? Satélite? Óvni perdido? Botijão de gás? Explosão na Grande Buenos Aires tem os tons de mistério da ocorrida na Sibéria em 1908

ARIEL PALACIOS ,

02 de outubro de 2011 | 07h36

Criadora de cães yorkshire, astróloga e jogadora de tarô. Essas são as credenciais de Andréa Gabriel, moradora da empoeirada Avenida Los Andes, no periférico bairro Lomas de El Zaizar, no suburbano distrito de 9 de Abril, no modesto município de Esteban Echeverría, na empobrecida zona sudoeste da Grande Buenos Aires. Em pé, no portão do jardim, ela aponta o indicador para o céu e confidencia: "O governo está encobrindo alguma coisa". Com o mesmo dedo, agora voltado para a outrora pacata esquina da Rua Luis Vernet, acrescenta: "Algo caiu ali e provocou a explosão". Em seus braços. Llao - um yorkshire de 1,5 kg com aspirações a pitbull - late alto, como confirmando a informação da dona new age. 

 

Agentes da polícia científica procuram radiação entre os escombros    foto:Leo La Valle/ EFE

 

"Mas o que foi que se espatifou ali?", pergunto. Marcela Cruz, amiga de Andréa, intervém: "Fale olhando para ela". Viro o rosto para Andréa e repito a pergunta. Ela retoma: "Algo... Um meteorito, uma partícula do espaço. E o governo quer apresentar a coisa como uma explosão de gás", diz, levantando a sobrancelha. "Mas sabemos que não foi isso. Não estamos todos loucos neste bairro."

 

Por sua surdez, Andréa, ao contrário dos outros moradores, não ouviu a explosão que na madrugada da segunda arrasou duas casas e uma loja, deixou três carros com rodas para cima e rachou paredes de outras 15 residências. Uma peruana morreu soterrada. Oito pessoas tiveram ferimentos leves.

 

Mas Andréa viu uma luz intensa - "eram 2h30 e parecia dia" - e na sequência "sentiu" a vibração que estilhaçou as janelas de sua casa, a cinco quarteirões do epicentro de um fenômeno para o qual até sexta não havia explicação das autoridades argentinas.

 

Horas antes da explosão, Llao e a cadela Mara vomitaram. "Eles nunca vomitam, pressentiram alguma coisa", garante Andréa, sugerindo um misterioso vínculo entre a "partícula" espacial e o sensível sistema gástrico canino.

 

Desde que foi criado, em 1913, o município de Esteban Echeverría (batizado em homenagem ao escritor homônimo) teve uma história pacata. Não foi cenário de batalhas como a Quilmes, perto, nem foco de tramas literárias borgianas como a vizinha Adrogué. Nem foi campo de colossais mobilizações populares como Ezeiza, próximo dali. A região só ostentava o orgulho de albergar uma humilde churrascaria onde há poucos anos Keith Richards lambeu os beiços ao devorar miúdos bovinos regados a vinho.

 

No entanto, a catástrofe dessa semana fez Esteban Echeverría, e mais especificamente o bairro de El Zaizar, aparecer com destaque no noticiário nacional e internacional.

 

A cinco quadras da casa de Andréa, a esquina de Los Andes e Luis María Vernet, centro das atenções do bairro, é uma versão modesta do Evento de Tunguska, denominação da explosão que em 1908 arrasou 2.150 km² da região de Tunguska, na Sibéria. Mais de um século depois, ainda não existe conclusão científica sobre as causas da destruição nos confins siberianos. Entre diversas hipóteses estão a queda de um cometa ou um meteorito, um óvni desgovernado que ali se espatifou, um miniburaco negro que tangenciou a Terra e uma pitada de antimatéria estatelada na área. Tunguska virou hit parade de contos de ficção científica e videogames.

 

Esta Tunguska dos pampas é mais modesta, embora tenha feito tremer as residências num raio de 25 quarteirões e fosse ouvida a outros 40 de distância.

 

No entanto, como a original siberiana, a bonaerense gerou uma saraivada de teorias. "Existe a possibilidade de que tenha caído um minicometa", conjecturou Héctor Méndez, do Museu de Ciências Naturais de Monte Grande. "Na Sibéria não houve cratera. Nesta de Esteban também não há."

 

Minimeteoritos convencionais, minimeteoritos de consistência gasosa ou meteoritos carbonáceos, sucata espacial, minicometa, um piloto da aeronáutica que sem querer disparou um míssil ou um reles botijão foram algumas das especulações que embalaram a mídia argentina. Especialistas recordaram que se foram 4 mil anos desde a última vez que uma chuva de meteoritos atingiu a atual província do Chaco. "É uma incógnita", disse Lucia Sendon, diretora do Planetário de Buenos Aires. "Seria necessário um vestígio para saber se foi resultado de um meteorito. As probabilidades de que uma coisa assim aconteça são baixas, mas existem."

 

"Não foi uma explosão de gás", diz o chefe do corpo de bombeiros do município, Guillermo Pérez, na contramão das forças policiais que afirmaram - embora não categoricamente - que a catástrofe fora causada por fuga de gás de uma conexão clandestina.

 

Seguindo a mesma linha de descartar possibilidades, mas sem oferecer explicações, Mariano Ribas, coordenador de astronomia do planetário, indicou que seria impossível tratar-se de uma "xepa" sideral do satélite americano Uars: "A queda do satélite foi na madrugada de sábado, no Pacífico, 48 horas antes da explosão em Esteban Echeverría".

 

A 2.400 quilômetros de distância, em Brasília, Cássio Leandro Barbosa, astrofísico da Universidade do Vale do Paraíba, Univap, explica por telefone que se fosse um meteorito haveria uma cratera e seria encontrada uma pedra. "Se o suposto meteorito tivesse se fragmentado no ar haveria uma chuva de pedaços, uma área maior seria atingida". Segundo Barbosa, existe a possibilidade de um Tunguska pampiano, embora as probabilidades sejam baixas. "Mas quem sabe..."

 

Enquanto isso, em Buenos Aires, o Twitter agitava-se com comentários recordando as supostas profecias maias sobre o fim do mundo em 2012, os recentes terremotos no Haiti, Chile, Japão e EUA e as tempestades solares. Não faltaram alusões à série Alf, o ETeimoso e à chegada à Terra de Kal-El (rebatizado de Clark Kent e Super-Homem).

 

A morta no mistério de Esteban Echeverría foi Silvia Espinoza, peruana de 43 anos, empregada doméstica, residente havia 15 anos na Argentina. Silvia compartilhava a casa com o irmão, que teve ferimentos leves, e a cunhada. Os oito feridos já tiveram alta. Com as casas destruídas, foram morar provisoriamente com parentes em outros bairros.

 

A notícia sobre a eventual queda de um meteorito ou de sucata espacial gerou um intermezzo na campanha eleitoral argentina. O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, deixou de lado costumeiras declarações políticas para expor suas dúvidas sobre o caso: "Muitos moradores da área deram o mesmo depoimento. É preciso prestar atenção nisso". Depois, como bom peronista, ressaltou as origens operárias de sua família: "Meu pai era trabalhador de encanamentos de gás. Por isso sei que não explode desse jeito". O prefeito Fernando Grey visitou o lugar poucas horas depois da explosão e não quis "entrar em hipóteses" sobre a possibilidade de meteorito ou satélite.

 

Moradores de El Zaizar também têm suas teorias. "Estava me preparando para deitar quando tudo ficou iluminado como se fosse dia. Uma luz laranja. Aí, a explosão. A onda de ar abriu a porta da rua, entortando a fechadura. Saí correndo com minha mulher e vimos as casas da frente destruídas", relata Gustavo Javier Sotelo, morador da Rua Luis Vernet. Sotelo olha para os lados e sussurra: "Eu lhe digo: o governo está encobrindo algo". Sotelo faz suspense: "Quando a coisa estava mais calma, vi um buraco no chão. Dali saía fogo. Um vizinho jogou um balde d’água. Acredita que não apagou? Só apagou depois de muito esforço dos bombeiros". Mas onde está esse buraco-cratera? "Tá vendo o terreno? Está tudo limpo. No dia seguinte cobriram tudo com terra. Se havia algo ali, eles (o governo) levaram embora."

 

A presença policial era ostensiva, com integrantes da polícia federal, da polícia bonaerense e da gendarmeria. "Quantas vezes ocorreu um desabamento aqui, incêndios, enchentes e ninguém ajudou? E agora aparece todo esse povo por causa de uma explosão de gás? Tem coisa aí", murmura Claudio Salazar, do distrito vizinho de Luis Guillon, que passou pela área "por curiosidade".

 

As suspeitas de algo estranho foram reforçadas pela presença de uma equipe da Brigada de Riscos Especiais que, com trajes de proteção contra radiação, media os níveis com um contador Geiger.

 

Sotelo afirma que, antes de arrasar as casas, a suposta bola de fogo teria arrancado, com corte cirúrgico, o topo de um poste telefônico a uma quadra de distância do lugar da explosão. "O poste ficou ardendo. No dia seguinte, veio a prefeitura e removeu o resto. Ali estavam as provas." Fernando Passos, assessor de imprensa da prefeitura, explica que o poste foi removido porque a onda de choque rompeu os cabos. Christian, operário da empresa telefônica que instalava o novo poste, sorriu amarelo: "Pra mim foi só um cabo de alta tensão que sobrecarregou".

 

As versões da bola incandescente foram reforçadas pela imagem, divulgada na web, de uma pequena esfera vermelha deixando atrás de si, no céu escuro, uma leve curva do mesmo tom. No entanto, diz a polícia, o jovem que a divulgou admitiu no mesmo dia que a foto, feita com um Blackberry, não passava de uma truchada (na gíria portenha, falsidade ou picaretagem). O rapaz foi detido por falsidade ideológica.

 

"A foto era real. El pibe (o garoto) teve de confessar o contrário. Agora está escondido", argumenta Florencia Acevedo, que mora no primeiro andar de um sobrado na esquina da tragédia. "Vi as pedrinhas incrustadas na madeira do poste, que brilhavam. E ele viu a bola de fogo também", afirma, apontando para o sem-teto Bruno Víctor Pereira, que naquela madrugada estava sentado no meio-fio. "Estava bebendo uma garrafa de cerveja...", começa a explicar Bruno. "Bebum!", grita a criançada em volta. "Não estava bêbado nesse dia, seus pivetes", exclama, sério. "Juro que vi algo cair e depois veio uma onda de ar que me fez bater nesta coluna". A garrafa caiu e virou caco, lamenta Bruno.

 

Florencia interrompe: "Na madrugada seguinte vi da janela do meu quarto que dois carrões paravam na frente do terreno. Desceram dois caras de cada carro, foram até o meio dos escombros e pegaram algo que puseram no carro. E se mandaram".

 

Os vizinhos do quarteirão de trás da explosão também sentiram o impacto. "A cama pulou no ar. As janelas foram destruídas. E vimos a luz, laranja, iluminando tudo", diz Franco, enquanto toma a fresca na calçada bebendo tereré na companhia da mulher. Depois, arremata: "Olha, moço, a única coisa que tenho para acrescentar é que foi terrível". Bebe mais um sorvo de tereré e repete, desta vez em tom de sussurro: "Terrível!"

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