Escritor e cartunista morre no Rio, aos 88 anos, de parada cardíaca e falência múltipla dos órgãos

Memória

O Estado de S.Paulo

29 Março 2012 | 03h03

O jornalista, escritor, dramaturgo e cartunista Millôr Fernandes, autor de frases e aforismos memoráveis pelo humor e sarcasmo, morreu por volta das 21 horas de terça-feira, aos 88 anos, em casa, em Ipanema (zona sul). Millôr havia perdido os movimentos e tinha dificuldades de se comunicar desde fevereiro do ano passado, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Em novembro, teve alta depois de passar cinco meses internado na Casa de Saúde São José, no Humaitá (zona sul).

O filho de Millôr, Ivan Fernandes, disse que o pai teve falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca. O velório acontecerá das 10 às 15 horas de hoje no Memorial do Carmo, no Caju (zona portuária), e o corpo será cremado em cerimônia restrita à família e aos amigos.

Companheiro de Millôr na confraria que durante 30 anos reuniu amigos nos almoços de sábado, o advogado Técio Lins e Silva disse que o escritor, nos últimos meses, "não interagia", mas durante longo tempo manteve a lucidez e chegou a anunciar a intenção de escrever um livro sobre o drama que vivia.

"Ele teve várias convulsões cerebrais e AVCs em número que os médicos diziam que ninguém suportaria, mas estranha, curiosa e surpreendentemente era capaz de reconhecer as pessoas e falar com dificuldade. Em muitos momentos sabia o estado em que se encontrava", afirmou Lins e Silva ontem.

Nascido Milton Fernandes, em 16 de agosto de 1923, no Méier (zona norte), Millôr se divertia com a confusão de datas: a carteira de identidade registrava o nascimento em 27 de maio de 1924. "Não adianta ter qualquer esperança contra a cronologia. No meu caso, talvez a carteira seja (um pouquinho) a meu favor", dizia em seu site na internet, Millôr Online. O jornalista tinha um casal de filhos, Ivan e Paula, e um neto, Gabriel.

Irmão de Millôr, o jornalista Hélio Fernandes contou que, além de Técio Lins e Silva, o arquiteto Paulo Casé, o cartunista Chico Caruso e o jornalista Luiz Gravatá iam com frequência ver o amigo no apartamento de Ipanema. "Desde que ele voltou para casa, a gente ia visitar, mas ele não ouvia nada, não falava nada. Era uma angústia total, ainda mais para mim, que perdi dois filhos no auge", lamentou Hélio, pai dos também jornalistas Rodolfo Fernandes e Hélio Fernandes Filho, que morreram em agosto e outubro de 2011.

Segundo Hélio Fernandes, antes do AVC Millôr já se locomovia com cadeira de rodas, por causa de problemas circulatórios, mas estava em plena atividade. "Ele dizia 'da cintura para baixo minhas pernas se recusam a andar, daqui para cima está tudo muito bem'. Usava o Twitter e o Facebook", lembrou o irmão.

Colaboradores e admiradores de Millôr usaram as redes sociais para homenagear o jornalista. "O Mestre foi... Nosso eterno carinho", escreveu a equipe do site de Millôr, que reúne biografia, obra, desenhos e o melhor do humor do jornalista, em frases como: "Fiquem tranquilos os poderosos que têm medo de nós: nenhum humorista atira para matar". / CLARISSA THOMÉ, ROBERTA PENNAFORT, LUCIANA NUNES LEAL, ANTONIO PITA

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