Escritor raro, estupendo, de prosa poética iluminadora

Com domínio vocabular e tremenda capacidade imaginativa, ele elabora um texto que flui e arrasta com ele o leitor

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

15 Dezembro 2009 | 00h00

A participação do Bolaño real nos desdobramentos do golpe no Chile é controversa. Há a versão que Bolaño, já radicado no México desde a adolescência, teria voltado ao Chile durante o governo da Unidade Popular, quando então foi surpreendido pelo golpe. De acordo com essa variante da história, Bolaño teria sido preso e libertado pela milagrosa interferência de amigos que apoiavam o novo regime. Dessa forma, teria escapado para a Espanha, onde viveu e escreveu até morrer. Outras correntes afirmam que essa versão seria baseada mais na trajetória dos alteregos literários do que em fatos reais. Enfim, dada a repercussão internacional (inclusive nos Estados Unidos, em geral pouco receptivos a autores de fora do cânone anglo-saxão) da obra de Bolaño, não deve demorar a surgir algum biógrafo para colocar os pontos nos iis.

Se é que um esclarecimento total será possível pois, ao que parece, o próprio Bolaño cultivava certa mitologia em torno de si mesmo. De qualquer forma, a sua parece ter sido uma trajetória de certa forma clássica de um jovem candidato a artista na América Latina dos anos 1960 e 70. Jovem de esquerda, cuja existência é cortada por uma ditadura militar, parte para uma existência precária em vários países, a obra sendo escrita na penumbra, até que (e aqui as coisas começam a sair do previsível) os textos começam a ser publicados, vêm o reconhecimento, os prêmios, o sucesso repentino, a doença e a morte não menos inesperada. Não é culpa sua se a sua própria vida se pareça tanto com a de alguns dos seus personagens.

O mais notável é que, em meio a esse suposto caos existencial e político, Bolaño pudesse escrever febrilmente. Ao morrer, deixou quatro livros de poesia, três de contos, 12 romances e alguns dispersos como textos de conferências, ensaios e artigos menores. Seu romance póstumo - 2666 - tem cerca de 1.200 páginas. Bolaño havia projetado lançá-lo em três volumes, mas a família preferiu publicá-lo em um só livro.

Produção grande e concentrada no tempo - e também intensa quando tomada em cada texto em particular. Bolaño escreve como tomado por uma febre (o que não exclui o trabalho intenso de elaboração que neles se pressente). Os personagens se sucedem e engendram histórias particulares, que ganham foros de autonomia, mesmo numa obra sintética como Estrela Distante, de apenas 144 páginas. A essa capacidade imaginativa se somam um domínio vocabular invejável e um corte de frase notável. O texto flui e arrasta consigo o leitor. Se Bolaño mescla personagens reais e imaginários, também mistura os vários níveis possíveis do idioma. Pode passar da norma culta ao estilo popular, e mesmo ao chulo, com imensa facilidade. Passa do realismo ao registro onírico, e mesmo alucinatório, com naturalidade. Joga-se na estrutura labiríntica da narrativa, mantendo o controle sobre o conjunto com mão de mestre. Em suma, é um escritor raro e estupendo.

Mais ainda porque, irônico e paródico, não se esgota em jogos de linguagem estéreis, mas permite que a experiência histórica infiltre-se generosamente pela narrativa. Experiência histórica da dor, transformada em sarcasmo quando, por exemplo, em Noturno do Chile, um professor leciona marxismo-leninismo à junta militar para que ela possa melhor combater o inimigo. Ou em Estrela Distante, nessa radical estetização da barbárie, quando o dublê de poeta e torturador promove uma exposição de fotos das suas vítimas. Tem-se aqui, nessa passagem do livro, uma experiência literária tão avassaladora como aquela proporcionada por O Náufrago, de Thomas Bernhardt. Bolaño instala-se na dissonância radical da História e a transforma em prosa poética iluminadora.

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