Escritoras geraram os melhores contos do ano e gênero floresce

Renascimento do texto curto entre as mulheres é constatado pela distinção de importantes prêmios

Sarah Crown, The Guardian, O Estadao de S.Paulo

24 Dezembro 2009 | 00h00

O ano de 2009 parece destinado a ficar na história literária como o ano do esplêndido florescimento do conto. E o detalhe especial: são as mulheres que vêm arrebatando os louros. Em maio, Alice Munro, virtuose moderna da forma curta, recebeu o prêmio Man Booker International de 60 mil libras (cerca de US$ 90 mil) em reconhecimento por uma obra que os julgadores descreveram como "praticamente perfeita". Este mês, a escritora zimbabuana Petina Gappah levou o prêmio de ficção do Guardian, o First Boog, por sua coletânea An Elegy for Easterly. E o prêmio National Short Story da BBC deste ano ganhou as manchetes pelo fato de sua lista de cinco finalistas ser formada exclusivamente por mulheres - em 7 de dezembro, ele foi vencido por Kate Clanchy. Naturalmente, como sempre ocorre quando se trata de mulheres se destacando no campo, está todo mundo buscando uma explicação.

A forma em si seria especialmente adequada a temas "femininos"; à percebida preocupação das mulheres com o doméstico, com as sutis idas e vindas dos relacionamentos pessoais? Os limites estreitos do conto certamente podem agir como uma restrição, condensando as vastidões da vida familiar em gotículas cintilantes multifacetadas com o tipo de insights que poderia facilmente se diluir no curso de um romance. O problema reside, é claro, na sugestão de que esses temas são específicos de mulheres. Homens contistas são igualmente atentos à utilidade da forma para captar esse tipo de situações em pequena escala. Basta pensar em William Trevor - ou Chekhov.

A segunda sugestão que geralmente aflora é que as mulheres se dedicam ao conto porque eles se encaixam mais facilmente nos espaços de um tempo que pode estar sobrecarregado pelo trabalho remunerado e um carrinho de bebê (ou dois) na sala. A própria Alice pareceu endossar essa ideia quando disse: "Em 20 anos, jamais tive um dia em que não tivesse de pensar nas necessidades de outros. E isso significa que a escrita teve de se encaixar nisso." Mas os contos seriam mais fáceis de escrever só por serem mais curtos? James Lasdun, ele mesmo um antigo vencedor do prêmio National Short Story, não pensa assim. "Não estou certo de que a escrita de conto seja necessariamente mais adequada a uma vida cheia de interrupções que a de romances", diz ele.

"Pessoalmente, acho que é a mais exigente e que mais tempo consome de todas as formas literárias." Talvez, então, a questão real não seja por que mulheres estão ganhando prêmios por seus contos, mas por que elas são menos propensas a ganhá-los com romances. Uma possibilidade é que, quando mulheres lidam com a esfera doméstica na escala maior, seus esforços tendam a ser embalados como "ficção de mulheres" (para fins de marketing) e subestimados. Os contos, por outro lado, são notoriamente não comerciais; isso, combinado com a percebida exatidão da forma e sua linhagem literária peso pesado significa que contos escritos por mulheres sejam levados a sério - e premiados condizentemente. Seja qual for a razão, o sucesso atual dessas mulheres tem o efeito benéfico de nos lembrar que a grande escrita não precisa ser estabelecida na grande escala. E para quem desejar ler algum conto de primeira classe, aí estão seis autoras essenciais para começar.

KATHERINE MANSFIELD

Nascida de uma família bem de vida da Nova Zelândia em 1888, Mansfield foi enviada para estudar em Londres e, aos 20 anos, mudou-se permanentemente para a Europa. Desde cedo uma ardente admiradora de Chekhov, ela fez parte de um círculo de escritores modernistas que incluía Virginia Woolf e T. S. Eliot. Seus contos, que tratavam dos relacionamentos entre homens e mulheres de classe média e das infinitas maneiras em que eles desmoronam, revelam essas duas influências. No que ela fez de melhor - e ela raramente fez algo menos que seu melhor - há algo de arrebatador no seu trabalho: com seu olhar arguto e suas descrições controladas, opinativas, ela tem o poder de destilar o aparentemente inconsequente em momentos congelados repletos de significado. Ela morreu de tuberculose em 1923, aos 34 anos.

Sugestões para ler: Bliss e Miss Brill (ambos de Bliss, and Other Stories) e The Woman at the Store (de Something Childish and Other Stories).

GRACE PALEY

Filha de imigrantes ucranianos, Grace cresceu no Bronx em Nova York nos anos 1920 - uma dupla herança que influenciaria tanto sua ficção como seu ativismo político. Após o sucesso de sua primeira coletânea, The Little Disturbances of Man (1959) (Pequenas Contrariedades da Existência, edição portuguesa), um hino aos expedientes e ao brilho da vida judaica em Nova York, seu publisher tentou seduzi-la a escrever romances: ela trabalhou num esboço por vários anos, mas finalmente desistiu dele em favor da forma curta. Por meio da personagem meio autobiográfica Faith Darwin, Grace pintou um retrato inesquecível de uma mulher completamente moderna: uma escritora que vive no centro de um emaranhado de relacionamentos com amantes, filhos, pais e amigas. Ela criou, disse Philip Roth, "uma língua de novas e ricas sutilezas emocionais, com uma espécie de graça e ironia indiretas muito particulares".

Sugestões para le: Goodbye and Good Luck (de The Little Disturbances of Man), A Conversation With My Father e Wants (ambos de Enormous Changes at the Last Minute).

ALICE MUNRO

Ambientados em campos, fazendas e cidades modestas de seu Canadá natal e vibrando com os ritmos e rotações de sua vida cotidiana, os contos de Alice tendem a enfocar, como o título de sua segunda coletânea, as vidas de moças e mulheres, deixando a descoberto as paixões e excessos que fervilham embaixo da superfície da vida cotidiana. Embora os contos em si frequentemente se desenrolem por páginas, pressionando os limites da forma, sua prosa é distinguida por sua economia descritiva e franqueza. Uma mulher particularmente modesta, sua reputação cresceu aos poucos ao longo de quatro décadas desde a publicação de sua primeira coletânea; a colega escritora Cynthia Ozick a chamava de "sua Chekhov" e sua conquista do Man Booker International foi amplamente vista como uma muito merecida coroação.

Sugestões para ler: A Wilderness Station (de Open Secrets), The Bear Came Over The Mountain (de Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage), (Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, edição portuguesa), Passion (de Runaway) (Paixão em Fugitiva, edição portuguesa).

HELEN SIMPSON

A obra de Helen exibe um profundo fascínio pela esfera doméstica moderna: como nós a organizamos, como nos arranjamos dentro dela. O parto é considerado de todos os ângulos (uma mãe cujo parto passou da hora é descrita como "uma garrafa bulbosa, duvidosamente arrolhada"); os desgastes e a elação da maternidade são esmiuçados; compromissos, compensações e indignidades maritais são dissecados com uma prosa cortante que oscila entre uma pungência insuportável e um humor sardônico, frequentemente na mesma frase. A escritora britânica recebeu vários prêmios por seus contos: sua próxima coletânea, In-Flight Entertainment, deve sair no próximo ano.

Sugestões para ler: Dear George e Heavy Weather (ambos de Dear George), Cafe Society (de Hey Yeah Right Get a Life).

MAVIS GALLANT

Nascida em Montreal em 1922, por volta da metade do século, Mavis havia largado seu casamento e sua carreira jornalística para se mudar para a França e perseguir a ficção. "Senti que a única coisa para a qual eu estava na Terra era escrever", disse ela, num perfil recente feito pelo The Guardian. Uma mulher ferozmente independente e reservada, a epígrafe de sua coletânea Home Truths é uma citação de Pasternak - "Tudo que importa é a independência pessoal". Mavis escreveu dois romances, mas é por seus contos que ela é amada. Estruturalmente hábeis, mas moralmente flexíveis, eles se concentram mais na verdade de situações e emoções que nas disposições de personagem e trama, e articulam a experiência de expatriada com um insight penetrante.

Sugestões para ler: Madeline"s Birthday (de The Cost of Living), The End of The World (de The End of the World, and Other Stories), A State of Affairs (de Across the Bridge and Other Stories).

LORRIE MOORE

Atualmente na berlinda por seu romance corrosivamente mordaz A Gate At The Stairs, Lorrie Moore (de dia uma criativa professora de literatura na Universidade de Wisconsin-Madison) é tão famosa - justamente - por suas coletâneas de contos, Self Help (Faça Você Mesma, edição portuguesa), Like Life (Como a Vida, edição portuguesa) e Birds of America. Seus contos abordam delicadamente as fissuras que entrecruzam relacionamentos, esmiuçando-os em detalhes ampliados, às vezes claustrofóbicos, mas a amplitude suas observações e sua bossa para revelar a comédia nas situações mais tensas e trágicas temperam a mistura, sem jamais abafar o calor de que ela impregna as suas personagens.

Sugestões para ler: People Like That Are the Only People Here e Community Life (ambos de Birds of America), Two Boys (de Like Life). TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

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