Espanha não é mais terra prometida para imigrantes, diz ministro

Celestino Corbacho diz que economia atual da Espanha não é favorável à imigração.

Gabriela Torres, BBC

11 Julho 2008 | 06h39

O ministro do Trabalho e Imigração, Celestino Corbacho, disse nesta quinta-feira que a Espanha não é mais uma terra prometida.Em entrevista à BBC Mundo, o ministro explica como o governo da Espanha está tentando conter a onda de imigrantes que tentam chegar ao país.A Espanha é um dos países europeus que mais têm recebido pessoas de fora do continente.Entre as medidas propostas pelo governo estão incentivos para que imigrantes retornem voluntariamente para seus países e aumento na restrição de imigrantes.As medidas espanholas estão em consonância com a preocupação de diversos países europeus com o problema da imigração.Nesta quinta-feira, o presidente da França, Nicolas Sarkozy - que está assumindo também a presidência da União Européia - disse que a Europa precisa controlar a entrada de trabalhadores de fora do continente.A Espanha é um bom país para se emigrar? A Espanha precisa de imigração?Precisa-se de imigrantes na Espanha, mas não universalmente. A Espanha pode precisar de médicos, pode precisar de enfermeiras, pode precisar de determinadas especialidades.O que é complicado hoje é que uma pessoa venha à Espanha e possa encontrar uma ampla oferta de trabalho aqui.Se fala em "fluxos migratórios" e em "avalanches", termos que soam mais como fenômenos climáticos do que de pessoas. Não lhe parece que a imigração está desumanizada?Eu acredito que a imigração tem uma origem fundamentalmente econômica, porque senão estaríamos falando de mobilidade. Ou seja, as pessoas migram porque não conseguem ver um futuro imediato, e isso que leva uma pessoa a tomar uma decisão às vezes contra a própria vontade.A política de retorno é um pouco para aplacar as cifras de desemprego, que estão aumentando na Espanha. No entanto, surpreende a quantidade de ofícios e profissões que precisam ser preenchidas com estrangeiros.O direito de retorno precisa ser visto como uma oportunidade a mais, e não como uma obrigação. Um imigrante que se encontra sem emprego tem de início as mesmas condições que um espanhol.Mas, se todas as opções se esgotam, o que ele faz? Fica aqui sem nenhuma outra opção? Pois veja você, nós dizemos que existe uma opção que os espanhóis não têm. Você pode acumular e cobrar de uma só vez o seu seguro-desemprego (e voltar para seu país de origem).No entanto, tanto o informe sobre finanças públicas da União como o Banco de Espanha falam da importância da imigração para reanimar a economia. Não seria melhor combater a imigração ilegal derrubando as barreiras burocráticas para regularização dos estrangeiros?Se o informe do Banco da Espanha diz isso, taxativamente já digo ao presidente do Banco da Espanha que não estou de acordo com ele. Não podemos menosprezar 90% dos espanhóis. Nós também construímos este país.O que ocorre é que em uma situação como a atual, o imigrante se move mais rápido, porque sua necessidade é maior. Pode ser que nesta situação, muitos imigrantes sejam os primeiros que acabem se colocando nos poucos ou muitos postos de trabalho que se abrem.Com as atuais políticas de retorno voluntário e involuntário, a Espanha quer passar a mensagem de que não é a terra prometida? A Espanha não é o paraíso. A Espanha enfrenta hoje uma situação de dificuldades econômicas importantes. Atualmente, muita gente está perdendo seus empregos e os primeiros a serem afetados são os imigrantes. O índice de desemprego entre os imigrantes está em 15%, enquanto a taxa global de desemprego está em 9,8%. Mas isso não quer dizer que esta situação perdurará indefinidamente. O que eu diria a uma pessoa de outro país é que este não é o melhor momento para emigrar para a Espanha, mas que não descarte ir para a Espanha. A América Latina qualificou de "xenófobas" estas políticas de retorno involuntário e lembra a ajuda que deram a milhões de europeus que no passado fugiram da Europa para buscar uma melhor qualidade de vida. Cabe a comparação?Eu acredito que evidentemente na Europa tenham sido criadas algumas políticas que por deferência não vou citar, que acarretaram em discursos muito alarmistas e com o tom de criminalizar o diferente por ser diferente. Eu entendo perfeitamente que um governo latino-americano e que um latino-americano, ao escutar isso de um europeu, se sentirá ofendido. Mas nem na Espanha nem na Europa, há a intenção de criminalizar a imigração. A Espanha muito menos. Nós não seguiremos as políticas de dureza que às vezes se desprendem de outros discursos europeus.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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