Acervo Estadão
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Especial 100 anos da Primeira Guerra Mundial

O conflito que inaugurou o século 20 e deixou 10 milhões de soldados mortos

Andrei Netto/Enviado Especial/PARIS E VERDUN (FRANÇA) E YPRES (BÉLGICA), O Estado de s.Paulo

26 de julho de 2014 | 19h10

Em um extrato de uma mensagem escrita às vésperas da eclosão da 1.ª Guerra Mundial, o imperador da Rússia, Nicolau II, rogou a seu primo e amigo, o imperador da Alemanha, Guilherme II: “Uma guerra vergonhosa foi declarada contra uma nação fraca; eu compartilho inteiramente a imensa indignação na Rússia. Muito em breve, serei forçado a tomar medidas que conduzirão à guerra. Para prevenir a infelicidade de uma guerra europeia, eu te peço que faça todo o possível para impedir que teu aliado vá longe demais”.

À correspondência, o kaiser responderia horas depois: “Não posso considerar a marcha à frente da Áustria-Hungria como uma ‘guerra vergonhosa’. (…) A declaração do gabinete austríaco me fortifica na opinião de que a Áustria-Hungria não visa a nenhuma aquisição territorial em detrimento da Sérvia. Creio logo que é possível à Rússia perseverar, frente à guerra austro-sérvia, em seu papel de espectadora, sem empurrar a Europa à guerra mais horrível que ela jamais viveu”. 

Membros da mesma família, além de velhos companheiros prestes a tornarem-se inimigos, Nicolau II e Guilherme II compartilhavam, em junho de 1914, erros e acertos quanto à interpretação do conflito iminente. Líderes de potências econômicas e políticas concorrentes, ambos sabiam que na realidade não se trataria só de um desentendimento “austro-sérvio”, e que o início dos combates entre seus dois impérios também era uma questão de horas. 

Documentos diplomáticos e de arquivos governamentais mostram que ambos também projetavam embates sanguinários, mas não acreditavam que um conflito longo estava por começar nem que os campos de batalha se espalhariam pelo mundo. 

Guerra total. Entretanto, em um intervalo de apenas 99 dias, a partir de 28 de julho, quando Áustria-Hungria abriu as hostilidades contra a Sérvia, no marco da 1.ª Guerra Mundial, meio mundo seria tragado por uma sucessão de 19 declarações oficiais de guerra, envolvendo dez países. Após a atitude de Viena, o caos político se espalharia: a Alemanha declararia guerra contra a Rússia em 1.º de agosto e à França dois dias depois; o Reino Unido se lançaria contra a Alemanha em 4 de agosto e contra a Áustria-Hungria nove dias mais tarde; entre as duas datas, a Áustria-Hungria declararia a Rússia inimiga em 5 de agosto. 

Em 23 de agosto, o Japão se uniria à Entente, opondo-se à Alemanha e colocando a Ásia no mapa da guerra. Enfim, em 5 de novembro, França e Reino Unido declarariam guerra aos otomanos, empurrando a fronteira do conflito ao Oriente Médio. 

Como a escalada da crise diplomática de 1914, a zona de guerra se alastraria pelo continente como fogo em uma carreira de pólvora até 1917, com a entrada de Estados Unidos e latino-americanos, inclusive o Brasil. 

Tratava-se, então, de uma “guerra total”, industrial e globalizada. “É uma guerra que vai perdurar e que vai se industrializar, todos os recursos dos Estados-nação potentes serão mobilizados”, diz Joseph Zimet, historiador e diretor-geral da Missão do Centenário. “É uma guerra de sociedade, toda mobilizada a seu serviço. As fábricas, as mulheres, toda a economia vai alimentar o conflito. A guerra não se ganha só nas trincheiras, mas pela mobilização econômica, social e mental na retaguarda.”

Nesse conflito global, frentes de batalha se espalharam pela Europa, mas também pelos Bálcãs, pela África, Oriente Médio, Ásia, Oceania e Atlântico Norte. Seriam 19 grandes fronts e dez batalhas em mares e oceanos até o fim da guerra. No segundo maior foco de tensão, no Leste europeu, ofensivas como a de Tannenberg, em agosto de 1914, não apenas contêm o ímpeto do Império Russo e desestabilizam ainda mais o czarismo, como dão à Alemanha um símbolo de triunfo, sob o comando dos generais Paul von Hindenburg e Erich Ludenforff. A caminho da derrota e da Revolução Bolchevique, russos comemoram vitórias como a do cerco de Przemysl, que deixou 115 mil pessoas mortas ou feridas entre 24 de setembro de 1914 e 22 de março de 1915.

Dentre tantos embates, porém, nenhum foi mais mortífero do que a frente ocidental, em que soldados da França, Bélgica e Reino Unido, e mais tarde dos Estados Unidos, Canadá e Austrália, entre outros, defenderam Paris de uma invasão. A devastação material e humana explica por que as linhas de front se transformaram em museus a céu aberto da guerra. Fortes, bunkers, crateras, campos de batalha, armamentos, cemitérios, ossários e até florestas, que mal escondem os resquícios da tragédia, são cicatrizes do conflito visíveis ainda hoje na França e na Bélgica. 

Nesse front aconteceu a Batalha de Marne, em 1914, decisiva para assegurar o fracasso da estratégia inicial de ataque alemã, o Plano Schlieffen, e a vitória dos aliados ao final do conflito. Nela, dois milhões de homens, entre franceses, britânicos e alemães, estiveram em trincheiras e ofensivas em Ourcq, Deux Morins, Marais de Saint-Gond, Vitry e Revigny. Em sete dias de combates, entre 5 e 12 de setembro de 1914, mais de 100 mil franceses, 7 mil britânicos e 80 mil alemães morreram ou desapareceram, e 250 mil outros soldados ficaram feridos.

No mesmo front ocidental se sucederiam as batalhas de Verdun e Somme, em 1916, que deixaram 306 mil e 442 mil mortos ou desaparecidos, respectivamente, além das do Chemin des Dames, em 1917, com mais 100 mil mortos, e a segunda batalha de Marne, em 1918, que deixou mais 280 mil soldados mortos.

Guerra de posições. A alta mortalidade se dava por uma conjunção de fatores, entre os quais a chamada “guerra de posições”. Essa estratégia, explica Michael Bourlet, doutor em História, escritor e pesquisador das Escolas Militares de Saint-Cyr Coëtquidan, na França, era a forma de os países invadidos frearem o avanço dos inimigos. “Em 1914, os Estados-maiores fundamentavam suas estratégias em uma guerra de movimento, rápida, que chegaria ao fim depois de uma grande batalha decisiva”, conta Bourlet. “Ambos os lados se dão conta, ao final da Batalha de Marne, de que a guerra será muito mais longa. E se deparam com uma guerra de posições.”

A estratégia visa a levar o inimigo à exaustão e à derrota, mas o resultado é a paralisia do conflito. A alternativa, então, foi intensificar, a partir de 1915, o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas para infligir baixas em massa aos inimigos e tentar sair do impasse. Os bombardeios foram intensificados, e todos os meios industriais passaram a ser empregados para matar. Assim nasceu a guerra química, o uso de tanques e os bombardeios aéreos.

Essas novas tecnologias obrigam generais e comandantes a testar métodos em pleno conflito, enviando centenas de soldados para missões impossíveis e letais. No exército britânico, um jargão se criou entre as tropas para descrever a situação: “Leões comandados por asnos”.

Essas batalhas tinham em comum um elemento de base: o sofrimento humano descomunal. Um dos diagnósticos mais frequentes entre soldados era a sensação de perda da condição humana. “Eu mudei terrivelmente”, escreveu o sargento francês Marc Boasson, em 10 de julho de 1916, um ano e meio antes de sua morte no campo de batalha. “Eu me sinto esmagado, diminuído, (…) estou pobre e nu por causa das emoções desmesuradas, das experiências desproporcionais à resistência humana. Algo está dando errado, uma perda generalizada. Eu sou um homem esmagado.”

À sua noiva, o soldado Henri Fauconnier diria, em carta datada de 17 fevereiro de 1917: “É assustador depender tanto do meio em que estamos. Mady, não é com um ser humano que você se casará”, advertiu. “Às vezes, eu sou um monstro, às vezes uma planta, às vezes um mineral. Nunca um ser humano.”

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