ESPECIAL-Importados invadem varejo de vestuário

Diversificadas e em linha com as passarelas internacionais, as araras das grandes redes varejistas de vestuário no Brasil vêm sendo incrementadas com uma tendência a mais: a presença cada vez maior de itens importados, resultado da pesada carga tributária, um dos principais entraves à indústria têxtil no país.

VIVIAN PEREIRA, REUTERS

24 Maio 2012 | 13h07

Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a participação dos produtos importados no mercado brasileiro de bens industriais bateu novo recorde no acumulado dos últimos quatro trimestres encerrados em março.

O coeficiente de penetração de importações -que considera tanto o consumo final das pessoas quanto o de insumos pela indústria- atingiu 22,2 por cento no período, o maior nível desde 1996. No segmento de vestuário, o coeficiente ficou em 12 por cento, após 10,6 por cento 12 meses antes.

Já a Associação Brasileira do Vestuário (Abravest) estima em 20 por cento a participação dos importados na indústria de vestuário. Nessa conta, os oito pontos percentuais acima do número da CNI referem-se a um outro problema pertinente ao setor: o contrabando de mercadorias.

"A carga tributária aqui é muito alta, o que não acontece na Ásia", disse o presidente da Abravest, Roberto Chadad. "(Os importados) estão ocupando espaço da indústria nacional aqui dentro, tanto de empregos quanto de produtos... Estamos dando emprego aos chineses."

Segundo Chadad, 42 impostos incidem sobre o setor têxtil brasileiro, incluindo aqueles relacionados ao mercado interno e externo.

"O governo liberou o INSS para o setor têxtil como um todo, mas são medidas pontuais", assinalou ele. "O custo da mão de obra no produto é de 8 por cento. O problema é mesmo a alta carga tributária, os juros altos."

Na lista de argumentos apontados pelas varejistas para recorrer à importação estão no topo a carga tributária, os altos custos de produção e a baixa escala da indústria nacional, seguidas por questões logísticas.

"O que pesa é a questão do custo, que hoje é muito alto", disse à Reuters o presidente-executivo da Lojas Renner, José Galló. "A logística também afeta, mas seguramente uma redução de custos tornaria a indústria nacional mais competitiva e reduziria as importações", acrescentou.

COLEÇÃO DE INVERNO

No mix de produtos das maiores redes varejistas do país, os itens de inverno, como jaquetas e malhas, respondem pelo maior volume das importações, vindas principalmente de China, Índia, Hong Kong e Bangladesh.

A Renner importa entre 18 e 20 por cento de seus produtos, sendo 40 por cento equivalentes a itens de inverno como couro e lã, segundo Galló, resultado da estação pouco rigorosa no país e da escassez de matéria-prima suficiente para produzir tais peças em larga escala.

Do total comercializado pela Cia Hering, enquanto isso, quase 28 por cento são produtos acabados adquiridos de terceiros. Desses, 82,3 por cento vêm do mercado internacional.

"A China é mais uma alternativa para ter produtos com bom custo/benefício para o consumidor na loja", afirmou o vice-presidente financeiro da Cia Hering, Frederico Oldani. "O país não favorece a produção... (A importação) permite ter produtos específicos nas lojas independentemente da sazonalidade."

A Marisa Lojas, por sua vez, tem 15 por cento de seu mix vindo do mercado externo e esse nível deve aumentar para 20 por cento no curto prazo, , afirmaram executivos da empresa em reunião com analistas e investidores no final de 2011.

Riachuelo e C&A não informaram a participação dos itens importados nos negócios.

Em todo o ano passado, foram importadas 640,5 milhões de peças de vestuário, o que equivale a 9,3 por cento do consumo aparente da indústria de vestuário, de acordo com o Instituto de Estudos em Marketing Industrial (Iemi).

Ainda conforme o Iemi, China e Hong Kong responderam, juntos, por 63,9 por cento das importações brasileiras de vestuário em 2011. Bangladesh é o segundo maior fornecedor, com 6,8 por cento, seguido pela Índia, com 6,1 por cento.

REIVINDICAÇÕES

O atual cenário, em que itens importados ocupam cada vez mais espaço nos cabides das varejistas, decorre do crescimento industrial mais lento que o consumo.

Segundo estudo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX), em parceria com o Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), a produção nacional não tem sido suficiente para suprir a demanda interna.

O levantamento apontou que o consumo per capita de têxteis cresce 8 por cento ao ano, equivalente a um aumento de 36 por cento de 2006 a 2010. Já a produção per capita cresceu 2,5 por cento ao ano, menos de 11 por cento no período, com parte da demanda sendo suprida pelas importações.

"O varejo de vestuário defende a necessária adoção de medidas que estimulem a renovação do parque industrial brasileiro... além da capacitação de mão de obra", defende a ABVTEX. "O aumento da produtividade é essencial neste momento."

Segundo Chadad, da Abravest, a CNI vem coordenando as reivindicações do setor junto ao governo.

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